A análise de um dos celulares de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, identificou 41,6 mil interações pelo WhatsApp com políticos e autoridades brasileiras. Desse total, 90% envolveram figuras da direita, 9% políticos de centro e 1% representantes da esquerda. As informações foram levantadas pela revista piauí em parceria com o InterSecLab, organização especializada em segurança digital.
Segundo o levantamento, 71% das interações ocorreram com integrantes ou ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro. Os registros incluem mensagens de texto, áudios, imagens, vídeos e ligações telefônicas. A Polícia Federal extraiu os dados do aparelho em 18 de novembro de 2025, um dia após a primeira prisão do banqueiro.
O levantamento identificou 56 políticos entre os interlocutores de Vorcaro. Desse grupo, 36 eram de direita, 16 de centro e quatro de esquerda. Embora três mulheres apareçam na relação, as conversas com elas representaram apenas 0,2% do volume total de interações.
Ex-integrantes do governo Bolsonaro concentram contatos
Entre os interlocutores com maior número de registros estão o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, com 19,3 mil interações; Bruno Bianco, ex-secretário especial de Previdência e Trabalho e ex-advogado-geral da União, com 4.782; e Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil, com 3.967.
Parte das conversas não pôde ser recuperada porque as mensagens eram temporárias ou haviam sido apagadas. No caso de Fábio Faria, 7,9 mil interações não estavam disponíveis na cópia analisada pela Polícia Federal. Entre os registros de Bianco, 4.161 haviam expirado. No caso de Ciro Nogueira, foram 3.832.
A relação também inclui Fábio Wajngarten, ex-secretário especial de Comunicação Social da Presidência; João Roma, ex-ministro da Cidadania; Ronaldo Bento, que sucedeu Roma no cargo; e Mário Frias, ex-secretário especial da Cultura e produtor executivo do filme Dark Horse.
O projeto cinematográfico foi apresentado a Vorcaro pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, com a proposta de destinar US$ 24 milhões a um fundo imobiliário nos Estados Unidos. O financiamento é alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo informações publicadas pelo Estadão e confirmadas pela Piauí, Flávio também passou a ser investigado por suspeita de ser beneficiário de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz.
Wajngarten e os pagamentos à Record
Fábio Wajngarten registrou 1.151 interações com Vorcaro, das quais 1.071 haviam expirado. À Piauí, ele afirmou que foi contratado pela defesa do banqueiro em abril de 2025 para cuidar da comunicação e atribuiu o volume de contatos ao envio de notícias para mais de 200 pessoas.
Os registros preservados mostram que, em 28 de abril de 2025, Wajngarten encaminhou a Vorcaro dados bancários e o CNPJ para um pagamento de R$ 20 milhões à TV Record. Na mensagem seguinte, enviou informações para um pagamento de R$ 3,2 milhões à própria empresa, a WF Comunicação Estratégica.
Em 17 de novembro de 2025, véspera da extração dos dados pela Polícia Federal e dia em que Vorcaro seria preso pela primeira vez, o banqueiro pediu que a Record destacasse a solidez do Banco Master após a entrada de investidores privados da Fictor. Naquela noite, o Jornal da Record exibiu uma nota que mencionava a entrada de investidores como indicativo da solidez financeira da instituição. Wajngarten encaminhou o vídeo ao banqueiro.
Questionado sobre a relação entre o pedido e o conteúdo exibido, Wajngarten afirmou que atuava como agregador de notícias. Sobre a finalidade do pagamento de R$ 20 milhões à emissora, não apresentou esclarecimentos e indicou que a questão fosse dirigida a uma profissional de marketing do banco. Ele também disse continuar trabalhando na gestão de crise de Vorcaro.
Mensagens mostram articulação sobre regras bancárias
Os contatos de Vorcaro também envolveram integrantes do Congresso. O deputado federal Marcelo Queiroz, do Rio de Janeiro, então filiado ao Progressistas e atualmente no PSDB, enviou ao banqueiro, em novembro de 2024, versões de um projeto de lei sobre regras para socorrer e liquidar bancos em crise.
Em 7 de novembro daquele ano, Queiroz encaminhou uma minuta para análise e edição. Uma semana depois, informou que a proposta havia sido retirada da pauta e escreveu: “Com isso ganhamos um tempo”. Em 18 de novembro, enviou uma nova versão do texto.
Vorcaro compartilhou o documento com advogados, que sugeriram mudanças relacionadas à garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), à possibilidade de o Banco Central determinar socorros a instituições financeiras e à participação do Banco Central e do Ministério da Fazenda no conselho do fundo.
Após as sugestões, o banqueiro encaminhou o projeto ao diretor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza, que enviou a proposta à área responsável por liquidações para análise. Naquele período, a situação de liquidez do Banco Master já despertava desconfiança no mercado e no próprio Banco Central.
As alterações tinham objetivos semelhantes aos de uma proposta articulada pelo senador Ciro Nogueira, conhecida como Emenda Master. A iniciativa previa quadruplicar a garantia do FGC, elevando-a para R$ 1 milhão, e vincular o fundo ao Banco Central. O projeto relatado por Queiroz foi rejeitado pelo plenário da Câmara em 14 de outubro de 2026, com 252 votos, cinco a menos que o necessário.
Aplicações de previdência e contatos com Rueda
Outra frente de atuação envolvia recursos destinados à aposentadoria de servidores públicos. Entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, o Banco Master recebeu R$ 1,87 bilhão de 18 regimes de previdência de estados e municípios por meio da venda de letras financeiras sem cobertura do FGC.
Com a liquidação do banco, em novembro de 2025, os investimentos ficaram sem essa garantia, deixando estados e municípios expostos a prejuízos.
Um dos interlocutores citados nesse contexto é Antonio Rueda, presidente do União Brasil desde 2024 e eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro nas eleições de 2026. Ele manteve 2.636 interações com Vorcaro, o quarto maior volume entre os 56 políticos identificados. Desse total, 65% foram apagadas ou expiraram.
Em 12 de julho de 2024, data em que o instituto de previdência do Amapá aprovou os primeiros R$ 200 milhões em aplicações no Master, Rueda enviou dez mensagens ao banqueiro em um intervalo de três minutos. Os registros indicam que as mensagens foram apagadas pelo remetente. Uma delas foi preservada: “Apaga essas mensagens.” Quatro minutos depois, o WhatsApp registrou a ativação de mensagens temporárias, programadas para desaparecer em 24 horas.
Questionado pela piauí, Rueda afirmou que era advogado do banco.
ACM Neto e Alcolumbre também aparecem nos registros
O ex-prefeito de Salvador ACM Neto teve 110 interações com Vorcaro, enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, registrou 129. No caso de ACM Neto, as mensagens se estenderam de outubro de 2023 a março de 2025 e incluíram contatos para marcar reuniões com o diretor comercial do Master, Vorcaro e Rueda.
ACM Neto afirmou à piauí que a relação estava ligada a atividades profissionais de consultoria. Em uma proposta de delação ainda não aceita, revelada pelo UOL, Vorcaro teria afirmado que combinou com Rueda e ACM Neto o pagamento de 10% dos recursos captados junto a institutos de previdência. Os dois negam as acusações.
As interações com Alcolumbre ocorreram entre outubro de 2023 e setembro de 2025. Em janeiro de 2025, o senador e o banqueiro tentaram descobrir quem havia informado uma jornalista do site PlatôBR sobre um voo do parlamentar em um jatinho pertencente a uma empresa de Vorcaro. Posteriormente, a reportagem foi retirada do ar.
Políticos de direita buscaram apoio financeiro
Os registros também mostram contatos de Vorcaro com representantes da chamada nova direita. Em setembro de 2018, Vinicius Poit, então candidato a deputado federal pelo Novo em São Paulo, pediu uma doação para sua campanha após um jantar com o banqueiro.
Poit afirmou à piauí que costumava enviar mensagens solicitando apoio, votos e contribuições às pessoas que conhecia em eventos de campanha. Segundo ele, Vorcaro nunca doou nem apoiou sua candidatura.
Em outra conversa, Vorcaro demonstrou alinhamento político ao reclamar de publicações do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) que criticavam um evento patrocinado pelo Master em Londres. Ao pastor André Valadão, o banqueiro escreveu: “Apoiamos a direita”.
Os registros também incluem 115 interações com Flávio Bolsonaro cujo conteúdo não estava disponível, além de 307 interações com o ministro Alexandre de Moraes, das quais 94% haviam expirado. Moraes não informou o conteúdo das conversas e declarou que suas alegações sobre o material encontrado no celular foram apresentadas em petição ao STF. Flávio não quis se pronunciar.
O ministro Kassio Nunes Marques aparece com cinco interações expiradas. Procurado pela revista, afirmou que nunca trocou mensagens com Vorcaro, sem esclarecer o teor dos registros.
Pablo Marçal e outros interlocutores
O empresário Pablo Marçal teve 438 interações com Vorcaro, sendo que 99% dos registros não estavam disponíveis porque haviam expirado. A primeira conversa identificada ocorreu em agosto de 2024, durante a campanha de Marçal à Prefeitura de São Paulo. A última foi em 2 de setembro de 2025, quando o banqueiro comentou a possibilidade de Jair Bolsonaro ser preso.
Entre os contatos identificados à esquerda estão o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP). Juntos, esses nomes integram o grupo que representa 1% das interações políticas contabilizadas no levantamento.
Dirceu negou ter conversado com Vorcaro, mas a perícia identificou 16 interações e uma chamada de voz. Como os registros eram temporários, não foi possível recuperar o conteúdo. Mantega afirmou que prestou consultoria econômica ao Master entre 2024 e 2025. Lewandowski também declarou que seu escritório manteve contrato de consultoria com o banco e que, após seu afastamento da firma, não tratou de assuntos relacionados ao ministério.
Contatos com integrantes do governo Lula
Entre os nomes ligados ao centro político está o ex-ministro dos Portos e Aeroportos Silvio Costa Filho. A família do político manteve um contrato de R$ 100 mil com o Banco Master para serviços de consultoria durante a tramitação da reforma tributária no Congresso.
Segundo as mensagens, o irmão do ex-ministro enviou ao banqueiro uma apresentação da empresa de consultoria em fevereiro de 2024. No mesmo dia, Silvio Costa Filho pediu que Vorcaro retornasse o contato. Os registros indicam que as interações se prolongaram até outubro de 2025, mesmo após o encerramento do contrato.
O empresário Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro do Turismo no primeiro governo Lula, teve 659 interações com Vorcaro entre novembro de 2023 e outubro de 2025. Grande parte das conversas tratava de negócios da Biomm, empresa da qual é sócio. Em outubro de 2024, Walfrido informou que teria uma audiência com o presidente Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Vorcaro respondeu que precisava encontrar Lula e pediu ajuda. Os dois se reuniram posteriormente na casa do banqueiro, em Brasília.
Registros apagados e versões dos citados
O levantamento da piauí e do InterSecLab contabilizou também a duração das ligações telefônicas cujos registros estavam preservados. As chamadas identificadas com políticos de direita somaram 33 horas, das quais 16 horas envolveram Fábio Faria. Entre os nomes associados à esquerda, Ricardo Lewandowski teve sete minutos de ligações registradas.
A revista informou que procurou as 56 autoridades mapeadas e que 33 haviam respondido até o fechamento da reportagem. Entre as respostas, o senador Carlos Viana (PSD-MG) negou ter conversado com Vorcaro, apesar de o aparelho registrar uma chamada não atendida feita por ele em maio de 2025. O parlamentar afirmou que qualquer informação em sentido contrário seria falsa.
O deputado Newton Cardoso Jr. (MDB-MG), que aparece com três interações, disse que a única relação indireta ocorreu quando Vorcaro pediu dinheiro emprestado ao pai do parlamentar, que recusou. Já o deputado Elmar Nascimento (União Brasil-BA) afirmou ter falado cerca de dez vezes com o banqueiro, mas os registros mostram conversas em 45 dias diferentes.
A reportagem também identificou contatos com autoridades e políticos cujas mensagens não puderam ser recuperadas. A ausência do conteúdo impede determinar o assunto de parte dessas interações, embora os registros de contatos e chamadas tenham sido contabilizados na análise







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