Uma auditoria interna da Cedae colocou sob suspeita uma contratação de R$ 35,85 milhões destinada ao fornecimento de uma solução tecnológica baseada em inteligência artificial. O relatório identificou indícios de irregularidades no processo licitatório, incluindo possível fraude documental e direcionamento da contratação, e levou a nova gestão da companhia a suspender o contrato antes da realização de pagamentos.
As informações foram reveladas pelo RJ2 nesta segunda-feira (28). O contrato previa uma ferramenta para coleta, análise e interpretação de dados operacionais das estações de tratamento de água e esgoto.
A contratação havia sido assinada pelo então diretor financeiro da Cedae, Antonio Carlos dos Santos, em nome da companhia, com o Consórcio W2T Inteligência Artificial Generativa RJ. A principal empresa do grupo era a T7 Consultoria de Empreendimentos Ltda.
O caso ganhou um elemento adicional durante a apuração: documentos apresentados pelo consórcio vencedor possuem, em seus metadados, o nome de Fellipe Silva dos Santos, filho do então diretor financeiro da Cedae.
Nome aparece nos metadados
De acordo com a reportagem, o nome de Fellipe aparece como autor nos metadados de pelo menos dois arquivos apresentados no processo.
Um deles é um formulário contendo dados cadastrais da T7 Consultoria. Oficialmente, o documento estava em nome de Raphaela Motta Vianna, apontada como única sócia da empresa. Em outra declaração, relacionada a suporte técnico, o nome de Fellipe também aparece como autor do arquivo.
Fellipe negou qualquer participação societária nas empresas envolvidas. Segundo ele, sua atividade inclui a prestação de serviços para criação de sites a diferentes clientes, e a presença de seu nome nos metadados dos arquivos não significaria que tivesse participação nas companhias.
“Não tenho participação, não tenho nada a ver com nenhuma dessas empresas, não sou sócio”, afirmou ao RJ2.
A auditoria encontrou outro ponto considerado relevante. Para disputar a licitação, o consórcio precisava comprovar capacidade técnica para executar o serviço. O documento apresentado para cumprir essa exigência foi classificado no relatório como contendo “indícios de fraude documental”, com criticidade considerada “muito alta”.
Atestado também entrou na mira
O atestado de capacidade técnica foi assinado por José Luiz Hermenegildo de Souza, em nome da ZIL Projetos Ltda. O documento afirmava que a T7 Consultoria havia demonstrado excelência na realização de projetos semelhantes envolvendo inteligência artificial.
Ao aprofundar a análise, porém, a auditoria identificou uma ligação entre as duas empresas: os sites institucionais da T7 e da ZIL estavam registrados em nome de Fellipe Silva dos Santos.
O filho do ex-diretor voltou a negar participação societária e atribuiu o vínculo digital à prestação de serviços de criação de sites.
A auditoria também examinou o andamento da licitação. As demais empresas interessadas não apresentaram propostas ou acabaram eliminadas durante o procedimento. Dessa forma, somente o consórcio posteriormente declarado vencedor permaneceu na disputa.
Para os auditores, houve “indícios de direcionamento na contratação”, igualmente classificados como de criticidade “muito alta”. O relatório mencionou procedimentos considerados diferenciados durante as etapas de habilitação e julgamento do pregão eletrônico.
A existência desses indícios, no entanto, não equivale à comprovação definitiva de fraude ou favorecimento. As conclusões da auditoria agora poderão subsidiar outras apurações.
Contrato suspenso e caso enviado ao MP
A nova gestão da Cedae decidiu interromper o contrato antes da realização de qualquer pagamento. Segundo a companhia, a suspensão teve como objetivo impedir eventual desperdício de recursos públicos enquanto as suspeitas eram analisadas.
Outro dado levantado pela auditoria ampliou a dimensão do caso. Segundo o relatório, T7 e ZIL, somadas, já haviam recebido R$ 48 milhões por meio da Cedae Saúde, empresa ligada à companhia responsável pela assistência médico-hospitalar de funcionários e ex-funcionários.
Diante dos indícios encontrados, a Cedae encaminhou o caso ao Ministério Público para análise.
Antonio Carlos dos Santos, ex-diretor financeiro que assinou a contratação em nome da companhia, negou qualquer relação com as empresas mencionadas.
Ele também afirmou que nunca participou de licitações nem interferiu para beneficiar ou prejudicar empresas em processos de contratação. O ex-diretor classificou como infundadas as suspeitas de irregularidades apontadas pela auditoria da Cedae.







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