A Polícia Civil do Rio de Janeiro divulgou nota com informações detalhadas sobre o conjunto de movimentações financeiras consideradas suspeitas envolvendo o vereador Salvino Oliveira (PSD), seu principal assessor e a esposa do assessor. De acordo com informações da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD), os dados analisados apontam para operações milionárias, incluindo saques em espécie que somam R$ 2,49 milhões e movimentações superiores a R$ 35 milhões por empresas ligadas ao grupo. A nota cita Salvino como investigado, sem nomeá-lo diretamente.
A assessoria do vereador divulgou nota em que classifica de “absolutamente inverossímil” que Salvino tenha realizado “qualquer movimentação deste vulto ou tenha qualquer relação com empresa, fintechs, ou lavagem de dinheiro”. Também afirma que a nota da Polícia descreve “diversas condutas criminosas sem nominar os acusados e atribuir a cada um as suas responsabilidades”. (Leia a íntegra no final desta reportagem).
Salvino foi preso na quarta-feira (11) por suspeita de ligação com o Comando Vermelho. Sua prisão desencadeou uma guerra política entre o grupo político do prefeito Eduardo Paes, pré-candidato ao Palácio Guanabara, e o governo Cláudio Castro.
Segundo a corporação, as apurações começaram em 2024 e têm como foco atividades ilícitas associadas a empresas de internet que atuariam no Complexo da Penha, supostamente sob controle de Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, apontado como liderança do tráfico ligada ao Comando Vermelho.
Conversas interceptadas levaram ao vereador
Durante a análise de dados telemáticos, investigadores identificaram conversas entre Doca e um homem descrito como “síndico do Gardênia”, vinculado aoComando Vermelho. Nos diálogos, surgem referências diretas ao vereador Salvino Oliveira, que passou a ser tratado como investigado no inquérito, além de outros alvos da operação.
Em paralelo, relatórios de inteligência financeira indicaram movimentações consideradas atípicas nas contas do parlamentar, incluindo depósitos em dinheiro vivo e transferências provenientes de uma empresa de informática sediada no Complexo da Maré, área também controlada pela facção criminosa.
Depósitos em dinheiro vivo chamaram atenção
De acordo com a investigação, em apenas quatro meses o vereador recebeu mais de R$ 100 mil em créditos considerados suspeitos, incluindo 11 depósitos em espécie. As transações foram identificadas por meio de um Relatório de Inteligência Financeira elaborado a partir de dados compartilhados durante o inquérito.
Os investigadores afirmam que não foi identificada justificativa comercial aparente para explicar a relação financeira entre o parlamentar e a empresa responsável pelos depósitos.
Estrutura financeira envolve assessor e esposa
As investigações também se expandiram para pessoas próximas ao vereador. Dados obtidos pela polícia indicam movimentações relevantes em empresas que têm como sócio o principal assessor de Salvino.
Já a esposa desse assessor aparece, segundo os investigadores, como possível ponto central de uma estrutura financeira considerada sofisticada. Em sete meses, ela teria realizado mais de 20 saques em espécie, totalizando R$ 2.490.000, com média de cerca de R$ 100 mil por retirada, muitas delas feitas em dias consecutivos.
Além disso, uma empresa registrada em seu nome movimentou mais de R$ 35 milhões em pouco mais de dois anos, apesar de ter declarado faturamento de aproximadamente R$ 2 milhões no mesmo período.
Operações suspeitas e tentativa de evitar alertas
A polícia também identificou transações que sugerem tentativa de driblar mecanismos de fiscalização financeira. Entre elas estão quatro saques de R$ 49.999,99, valor imediatamente inferior ao limite de R$ 50 mil que obriga comunicação automática às autoridades.
Somente nas contas pessoais da esposa do assessor, a movimentação ultrapassou R$ 3 milhões em pouco mais de dois anos, valor considerado incompatível com a renda declarada.
Outro ponto que chamou atenção dos investigadores foi a origem de parte dos recursos: R$ 300 mil teriam vindo de uma fintech investigada por ligação com o PCC, o que ampliou o escopo das apurações.
Ligações empresariais também são investigadas
O principal assessor do vereador também aparece como sócio de uma empresa que recebeu R$ 390 mil em duas transferências sem justificativa comercial identificada. Essa mesma empresa teria transferido mais de R$ 1 milhão para outra companhia sem motivação aparente.
Além disso, o assessor figura como sócio-diretor de uma empresa cujo sócio-presidente é filho do traficante Elias Maluco, ex-líder do Comando Vermelho apontado como responsável pelo assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002.
Prisão temporária foi solicitada para preservar provas
Diante do conjunto de indícios, a Polícia Civil solicitou a prisão temporária do vereador como forma de preservar provas e garantir o avanço das investigações. O pedido foi respaldado pelo Ministério Público e autorizado pela Justiça.
Segundo os investigadores, a medida cautelar busca evitar que o investigado possa interferir no andamento das apurações ou destruir evidências relevantes.
A Polícia Civil ressaltou que os dados financeiros apresentados até o momento não representam a totalidade das provas reunidas, mas fazem parte de um conjunto de informações técnicas produzidas a partir de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Leia a íntegra da nota divulgada pela Polícia Civil:
A Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD), do Departamento-Geral de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DGCOR-LD), informa que a investigação teve início no ano de 2024 e apura atividades ilícitas relacionadas a empresas de exploração de internet localizadas no Complexo da Penha, identificadas como sob o controle de fato de EDGAR ALVES DE ANDRADE, vulgo DOCA.
No curso dessas apurações, a análise de dados telemáticos revelou a existência de diálogos entre DOCA e o “síndico do GARDÊNIA” vinculado ao Comando Vermelho. Tais diálogos envolvem diretamente o INVESTIGADO, bem como outros alvos da operação, que passaram a constituir elementos relevantes da investigação.
Em paralelo, a investigação sigilosa de natureza financeira baseada, entre outros elementos de inteligência, na análise das movimentações do INVESTIGADO, trouxe informações expressivas: foram identificadas transações atípicas e/ou suspeitas nas quais o INVESTIGADO é beneficiário de valores provenientes de empresa de informática sediada no Complexo da Maré, região controlada pelo Comando Vermelho, sem qualquer justificativa lícita e aparente que explique a relação comercial entre o INVESTIGADO e a pessoa jurídica.
Além disso, os dados levantados revelaram que, em apenas quatro meses, o INVESTIGADO recebeu créditos suspeitos e/ou atípicos que ultrapassam R$ 100.000,00, incluindo onze depósitos em dinheiro vivo. Os dados de inteligência foram comunicados por Relatório de Inteligência Financeira solicitado no curso da investigação.
As investigações financeiras não se limitaram ao próprio INVESTIGADO. Dados de inteligência também apontaram para movimentações suspeitas realizadas por pessoas jurídicas que têm como sócio o principal assessor do INVESTIGADO. A esposa desse assessor, por sua vez, foi identificada como possível epicentro de uma estrutura complexa de engenharia financeira aparentemente voltada para a lavagem de dinheiro.
Essa estrutura demonstra sofisticação e volume considerável: em sete meses, foram realizados mais de 20 saques em espécie de sua conta pessoal, que totalizaram R$ 2.490.000,00 – uma média de R$100.000,00 por saque –, muitos ocorrendo em dias consecutivos.
Além disso, uma das empresas em nome da esposa do assessor movimentou mais de R$35.000.000,00 em pouco mais de dois anos, valores completamente incompatíveis com o faturamento declarado de aproximadamente R$2.000.000,00.
Desse montante recebido, foram identificados R$300.000,00 oriundos de uma fintech investigada por ligação com o PCC, fortalecendo o mote da investigação em curso.
Há ainda fortes indícios de que o grupo tenta burlar os mecanismos de controle e fiscalização, uma vez que foram registrados quatro saques no valor de R$ 49.999,99 cada — valor imediatamente inferior ao limite de R$ 50.000,00 que obriga as instituições financeiras a realizar comunicação compulsória aos órgãos competentes. Em pouco mais de dois anos, a movimentação total identificada apenas nas contas pessoais da esposa do assessor do INVESTIGADOsuperou R$ 3.000.000,00, valor absolutamente incompatível com a renda declarada.
O assessor do INVESTIGADO, por sua vez, é sócio de empresa que recebeu R$ 390.000,00 em duas transferências sem motivação lícita aparente e enviou mais de R$ 1.000.000,00 para outra empresa sem justificativa comercial identificável. Esse mesmo assessor figura como sócio-diretor de uma pessoa jurídica cujo sócio presidente é filho do traficante Elias Maluco, falecido líder do Comando Vermelho e responsável pelo assassinato do jornalista Tim Lopes.
O conjunto de elementos colhidos até o momento apontam que o INVESTIGADO, além dos elementos que recaem sobre si, possui vinculação direta com personagens relevantes desta estrutura sofisticada possivelmente voltada para a lavagem de dinheiro, mantendo como seu assessor uma figura de destaque na estrutura investigada.
Diante desse robusto conjunto de elementos, o pedido de prisão temporária teve como objetivo a necessidade imediata de preservar as provas já colhidas e de permitir a continuidade da coleta de novos elementos probatórios, tendo em vista o fundado receio de que o INVESTIGADO, em liberdade, pudesse interferir nas apurações e destruir evidências relevantes.
O segundo motivo diz respeito à decisão técnica adotada pelos responsáveis pela investigação de não incluir na representação todos os dados financeiros levantados até o momento. Essa opção se deveu à necessidade de preservar informações relativas a pessoas comunicadas pelo COAF que não têm relação direta com o objeto central da investigação, bem como à importância de garantir que tais dados sejam submetidos a uma apuração técnica criteriosa pela delegacia responsável.
Importante registrar, por fim, que os dados telemáticos foram considerados pelos investigadores como suficientes, por si sós, para fundamentar a representação pela prisão temporária, corroborada pelo Ministério Público e deferida pelo Poder Judiciário.
Contudo, eles não representam a totalidade dos elementos que compõem o quadro de indícios contra o INVESTIGADO. O conjunto da inteligência financeira produzida — especialmente os Relatórios de Inteligência Financeira elaborados pelo COAF, que reuniram e sistematizaram as provas técnicas descritas acima — forma um cenário coerente e consistente de indícios de envolvimento do INVESTIGADO em atividades ilícitas de grande complexidade, o que torna a medida cautelar requerida não apenas justificada, mas necessária.
A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro reforça o seu caráter como instituição de Estado, o seu compromisso com a manutenção do sigilo das investigações e com a preservação dos dados de investigados e relacionados em inquéritos em andamento.
Leia a nota da assessoria de Salvino Oliiveira:
A respeito da Nota Oficial da Polícia Civil, a assessoria do vereador Salvino Oliveira afirma que:
A nota amplia as condições confusas da prisão do parlamentar ao descrever diversas condutas criminosas sem nominar os acusados e atribuir a cada um as suas responsabilidades.
A Polícia afirma possuir Relatório de Inteligência Financeira – RIF, mas este não faz parte do processo em que houve a decretação da prisão. A assessoria desconhece a sua existência, o que é grave e viola o direito à ampla defesa de qualquer acusado em um estado democrático de direito.
Por fim, é informação absolutamente inverossímil que Salvino Oliveira tenha realizado qualquer movimentação deste vulto ou tenha qualquer relação com empresa, fintechs, ou lavagem de dinheiro.






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