A fraude investigada pela Polícia Federal envolvendo o Banco Master teria funcionado como uma verdadeira “linha de montagem” digital para produzir documentos em escala e dar aparência de legitimidade a créditos atribuídos à Tirreno Consultoria, informa o portal g1. Segundo a perícia, dados reais de clientes eram extraídos dos sistemas internos do banco e utilizados na elaboração de contratos, procurações e outros documentos posteriormente reunidos em arquivos PDF.
O processo combinava ferramentas comuns, como Microsoft Word e Adobe Acrobat Reader, com programas desenvolvidos pela própria área de tecnologia. A investigação aponta ainda que funcionários atuaram para retirar ou modificar informações que poderiam revelar a origem dos arquivos ou o momento em que eles haviam sido efetivamente produzidos.
A estrutura foi detalhada em relatório técnico-pericial da PF elaborado a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Master. Intitulado “Investigações internas – Banco Master”, o arquivo tinha 30 slides e registrava atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 relacionadas à documentação de créditos consignados cedidos ao Banco de Brasília (BRB).
Segundo a investigação, a Tirreno teria sido utilizada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado ao Master. As carteiras, apontadas pela PF como sem lastro, teriam sido posteriormente negociadas com o BRB.
Como funcionava a produção dos documentos, segundo a PF
| Etapa | Procedimento identificado | Ferramentas utilizadas | Resultado |
|---|---|---|---|
| 1. Busca de dados | Informações de clientes vinculados a operações anteriores eram retiradas dos sistemas do Master e transferidas para planilhas | Banco de dados, consultas SQL e Excel | Formar uma base com dados verdadeiros para alimentar a documentação |
| 2. Produção em escala | As informações extraídas eram inseridas automaticamente em modelos de procurações e outros arquivos | Word e Excel, por meio de mala direta | Viabilizar a criação de milhares de documentos, incluindo 2.700 procurações |
| 3. Tratamento das assinaturas | Folhas com assinaturas eram extraídas de documentos anteriores, enquanto lotes de CCBs recebiam assinaturas digitais | Aplicações em C#, arquivos PDF e Adobe Acrobat | Incorporar assinaturas à documentação que estava sendo montada |
| 4. Retirada de informações | Datas e horários capazes de indicar a origem ou a cronologia dos documentos eram eliminados visualmente | Ferramentas de edição de PDF | Dificultar a identificação de quando e em que contexto os arquivos originais haviam sido produzidos |
| 5. Formação dos dossiês | CCBs, procurações e termos já tratados eram agrupados em um PDF correspondente a cada operação | PDF24 | Apresentar as diferentes peças como um único conjunto documental |
| 6. Alteração de comprovantes | Funcionários discutiram maneiras de eliminar referências como evento, histórico e número de contrato dos comprovantes | Editores de documentos | Retirar elementos que permitissem relacionar os comprovantes às transações de origem |
| 7. Questionamentos da auditoria | Mensagens internas mostram discussão sobre como explicar inconsistências detectadas na documentação | Microsoft Teams | Uma das orientações registradas era apresentar o problema como “erro operacional na selecao” |
| 8. Vestígios digitais | A perícia comparou datas exibidas nos documentos com registros eletrônicos preservados nos arquivos | Técnicas de perícia digital | Identificar casos em que documentos com datas antigas haviam recebido assinaturas somente meses depois |
Fonte: Polícia Federal
Dados reais viravam matéria-prima
A primeira etapa identificada pelos investigadores consistia na obtenção de informações de clientes que haviam realizado operações legítimas. Parte dos dados vinha de registros relacionados ao CredCesta, produto de crédito consignado direcionado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Em 2 de julho de 2025, às 14h05, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, pediu a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, um levantamento de CPFs pelo Microsoft Teams.
Vinicius reuniu os números no arquivo cpf_cessao.csv e, no dia seguinte, executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno. As informações foram exportadas para a planilha Dados_cessão.xlsx e encaminhadas por e-mail a Fabrizio e à equipe em 3 de julho, às 16h57.
A base continha nome, CPF, data de nascimento, nome da mãe e outras informações cadastrais. Segundo a investigação, esses registros serviram como matéria-prima para a confecção dos documentos.
As conversas internas revelam que os próprios funcionários detectaram inconsistências na lista utilizada. Em 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem dos dados.
Thiago Ramalho: “filtrando formalizacao só tem 328 credcesta-refin…. nao deveria ser a maioria”.
Rafael Manfrin: “ai deu merda então / pq tem um cpf nesse meio aqui que so teve 1 proposta em 2019 / ta meio furado essa lista ai”.
2.700 procurações produzidas em lote
Uma das etapas mais expressivas da operação envolveu a produção das procurações. Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a função de mala direta do Microsoft Word, recurso que permite preencher automaticamente um modelo com dados provenientes de uma planilha.
Allan vinculou o documento PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras. Com o procedimento, foram produzidas 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025.
A área de tecnologia também desenvolveu aplicações em C# para manipular documentos. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram da criação de programas registrados no repositório GitHub do Banco Master.
Uma dessas ferramentas tinha como função extrair apenas a segunda página de arquivos PDF, justamente onde estavam as assinaturas de documentos originais.
A perícia encontrou ainda o arquivo erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior. O material reunia 1.833 PDFs contendo páginas isoladas de assinaturas de Termos de Consentimento.
Essas páginas, segundo a investigação, poderiam ser reaproveitadas na montagem dos novos conjuntos documentais.
Assinaturas digitais revelaram a cronologia
A produção das Cédulas de Crédito Bancário, as CCBs, também deixou rastros digitais. Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes de documentos do sistema idtrust, identificados pela raiz CCB_credcesta_….
Em 20 de junho, Fabrizio organizou pelo Teams uma força-tarefa para assinatura dos documentos. Foram distribuídas 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.
As assinaturas foram aplicadas no Adobe Acrobat Reader com certificados digitais. Foi justamente o registro criptográfico dessas assinaturas que forneceu à perícia um dos indícios mais relevantes sobre a cronologia da produção dos arquivos.
Em um dos casos, o texto da CCB apresentava 21 de janeiro de 2025 como data do documento. O registro digital, entretanto, indicava que o arquivo havia sido assinado somente em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.
A discrepância permitiu aos investigadores confrontar a data exibida no documento com o momento efetivo da assinatura eletrônica.
Datas eram apagadas dos documentos
A investigação também identificou orientações para eliminar informações temporais. Em uma conversa pelo Teams, em 20 de junho, Allan Machado pediu a Moacir Lourenço da Silva Junior que retirasse a data dos Termos de Consentimento.
Allan da Silva Machado: “e o termo de consentimento”.
Allan da Silva Machado: “e precisamos excluir a data”.
A perícia encontrou um exemplo no Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal. O documento apresentava originalmente o registro “24/02/2023 13:05”. Em uma edição feita em 3 de julho de 2025, às 15h26, a informação foi apagada visualmente.
A modificação, porém, não eliminou todos os vestígios digitais. Outros registros presentes nos arquivos permitiram aos peritos reconstruir a sequência das alterações.
Depois de produzidas ou modificadas, as diferentes peças eram reunidas por Allan com o programa PDF24. Cada arquivo final poderia incluir CCB, procuração e Termo de Consentimento sem a informação de data.
Os dossiês eram armazenados em pastas denominadas Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, Demanda BRB-Tirreno 299 amostras e Demanda BRB-Tirreno 119 amostras.
Comprovantes também entraram na operação
A tentativa de retirar informações alcançou ainda comprovantes bancários. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen mudanças em comprovantes de transferências realizadas por SPB e Pix.
Allan pretendia retirar o evento, o número do contrato e o histórico. Entre as informações existentes aparecia a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.
Allan da Silva Machado: “nao da para aparecer o evento”.
Romy Klenquen: “entao esse é o melhor”.
Allan da Silva Machado: “porra… este aparece o numero de contrato… nao quero o numero de contrato nem o histórico”.
Romy Klenquen: “entao nao tem oq fazer / um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2700 comprovantes no editor”.
Allan da Silva Machado: “tem q dar um jeito”.
A conversa evidencia a dificuldade para repetir manualmente a alteração em milhares de comprovantes, enquanto outras etapas da produção documental podiam ser automatizadas.
Auditoria e cúpula do banco aparecem nas mensagens
As mensagens analisadas pela PF indicam também preocupação com possíveis questionamentos da auditoria. Em 23 de junho, Fabrizio informou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a Deloitte estava cobrando informações.
Alberto Felix de Oliveira Neto: “esse tem que falar que foi erro operacional na selecao”.
Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam discutido documentos da carteira da Tirreno referentes ao período entre dezembro de 2024 e março de 2025 que seriam enviados à auditoria. Segundo as mensagens, seriam solicitadas CCBs e termos.
A investigação identificou ainda o envio de amostras da documentação à cúpula do Banco Master. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do banco, pediu a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”.
Alberto informou que providenciaria o material e, posteriormente, arquivos contendo o conjunto de documentos foram enviados.
Quem aparece na investigação e o que a PF identificou
| Pessoa | Função no Banco Master | Atuação descrita no material investigado |
|---|---|---|
| Daniel Vorcaro | Dono do Banco Master | Solicitou um “kit” de 300 operações com assinatura digital e recebeu arquivos ligados às CCBs, procurações e assinaturas |
| Alberto Felix de Oliveira Neto | Diretor | Aparece na supervisão das demandas, na interlocução com Vorcaro e nas discussões relacionadas aos pedidos feitos pela auditoria da Deloitte |
| Fabrizio Pereira Alencar | Coordenador de Controles – Back Office | Coordenava tarefas envolvendo a preparação e a assinatura dos documentos e também participava das tratativas relacionadas à Deloitte |
| Allan da Silva Machado | Gerente de Operações I – Back Office Conciliação | Atuou na geração das 2.700 procurações, solicitou a retirada de datas, agrupou documentos em PDFs e discutiu mudanças nos comprovantes bancários |
| Vinicius Lucas Trentino | Analista de Projetos Sênior / TI | Fez consultas aos sistemas internos para obter CPFs e outras informações de clientes, posteriormente organizadas em planilhas |
| Thiago Ramalho | TI | Participou da criação de programas destinados, entre outras funções, a separar páginas de assinatura de arquivos PDF |
| Rafael Manfrin da Silva | TI | Trabalhou em consultas e procedimentos relacionados à produção dos documentos e apontou problemas na relação de CPFs utilizada |
| Renato M. | TI | É citado no material em conexão com aplicações desenvolvidas para o processamento e a manipulação dos PDFs |
| Moacir Lourenço da Silva Junior | Back Office / operacional | Recebeu arquivos contendo páginas de assinaturas e foi acionado para retirar visualmente registros de data e horário |
| Anderson Juliano Caspinelli Garcia | TI | Encaminhou arquivo compactado que reunia 1.833 PDFs com páginas isoladas de assinaturas de Termos de Consentimento |
| Romy Goerck Gentina Klenquen | Operacional | Participou de conversa com Allan sobre a possibilidade de modificar, em grande quantidade, comprovantes de transferências |
| Henrique Pupo | Back Office de consignado | Participou da extração das CCBs posteriormente utilizadas na preparação dos conjuntos documentais |
| Henrique Gonçalves Silva | Back Office de consignado | Também aparece envolvido na extração dos lotes de CCBs |
| Daniel Guscuma | Banco Master | Foi um dos funcionários que recebeu parte do lote de CCBs destinado à assinatura |
Fonte: Polícia Federal
Para a Polícia Federal, as evidências mostram uma cadeia estruturada: dados de clientes eram extraídos dos sistemas internos, documentos eram produzidos em escala, páginas de assinaturas eram separadas, CCBs recebiam assinaturas digitais e informações capazes de revelar a origem ou a cronologia dos arquivos eram retiradas. No fim do processo, as peças eram reunidas em dossiês únicos.
Apesar das alterações, a estrutura digital preservou rastros. O confronto entre datas impressas nos documentos, registros de edição e assinaturas eletrônicas permitiu aos peritos reconstruir parte da cronologia.
Segundo o material pericial, o conjunto de procedimentos tinha como objetivo sustentar documentalmente a existência da carteira de créditos consignados atribuída à Tirreno Consultoria e negociada pelo Master com o BRB. A investigação aponta, porém, que documentos fabricados ou modificados em 2025 eram utilizados para dar aparência de operações realizadas anteriormente.







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