O julgamento da morte de Henry Borel entrou nesta terça-feira (2) em uma de suas fases mais decisivas. No nono dia de audiência, a mãe do menino, Monique Medeiros, e o ex-vereador e ex-médico Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, começam a ser interrogados pelo Tribunal do Júri, etapa que antecede os debates finais entre acusação e defesa e a definição do veredicto pelos jurados.
Monique foi a primeira a ser ouvida na sessão iniciada nesta manhã. Foi durante o depoimento que ela, pela primeira vez desde o início das investigações, atribuiu diretamente ao ex-companheiro a responsabilidade pela morte do filho. “Hoje eu creio que foi o Jairo”, afirmou aos jurados.
Os interrogatórios ocorrem depois de oito dias seguidos de depoimentos de testemunhas, peritos, policiais, médicos e familiares ligados ao caso. O julgamento já é o mais longo do Rio de Janeiro dos últimos 18 anos, superando outros casos de grande repercussão, como de Flordelis.
Diferentemente das testemunhas, os réus falam diretamente aos sete jurados responsáveis por decidir se serão condenados ou absolvidos. Eles podem responder a perguntas formuladas pela juíza responsável pelo júri, pelo Ministério Público, pelas defesas e até mesmo pelos integrantes do Conselho de Sentença.
Segundo a defesa de Monique, a ré pretende responder a todos os questionamentos apresentados durante o interrogatório. A expectativa é que, após a conclusão dessa etapa, acusação e defesa iniciem os debates finais, previstos para ocorrer nos próximos dias.
Monique diz que foi dopada e atribuiu morte ao ex-companheiro
Durante o interrogatório, Monique afirmou que acredita que foi dopada por Jairinho na noite da morte de Henry, em 8 de março de 2021. Segundo ela, o ex-vereador teria lhe dado um comprimido antes de dormir, o que a teria feito perder a consciência.
Ela disse ainda que, naquela madrugada, foi acordada pelo então companheiro com a informação de que o filho estava passando mal. Na nova versão apresentada ao júri, Monique afirmou que só hoje entende que o episódio não se tratou de um acidente doméstico.
“Hoje eu creio que foi o Jairo”, disse, ao afirmar que passou a relacionar o comportamento do ex-companheiro a outras acusações feitas contra ele por ex-namoradas.
Segundo Monique, na ocasião, Henry estava de barriga para cima, com o corpo gelado e olhar fixo. A criança foi levada ao Hospital Barra d’Or, onde recebeu manobras de reanimação, mas o óbito foi confirmado horas depois. Jairinho, que era médicona época — e teve o registro profissional cassado posteriormente pelo Conselho Federal de Medicina — não teria chegado a realizar manobras para tentar reanimar o enteado.
Monique relatou episódios de agressão no relacionamento
No depoimento, Monique falou ainda sobre o início do relacionamento com Jairinho e afirmou que ele era bem visto por sua família quando passaram a conviver. Segundo a ré, Henry teria gostado do ex-vereador num primeiro momento, já que ele costumava presenteá-lo.
Ela também abordou a relação entre Henry e o pai, o engenheiro e hoje vereador Leniel Borel. Durante o interrogatório, Monique afirmou que Leniel era um “bom pai”, mas o acusou de ser “ausente”. De acordo com ela, o filho mantinha maior proximidade com o avô materno.
Monique também relatou episódios de violência no relacionamento com Jairinho. Segundo ela, em uma das situações, teria sido acordada numa madrugada durante uma crise de ciúmes e sofrido agressões físicas. A ré afirmou ainda que o comportamento do ex-médico incluía episódios de discussão motivados por mensagens em seu celular.
Monique disse que a convivência entre Henry e Jairinho começou a se deteriorar após um episódio envolvendo um suposto “abraço apertado”, mencionado por Leniel após um fim de semana em que esteve com o filho.
Na época, o menino teria contado ao pai que Jairinho havia dado um “abraço forte” que o teria machucado. Segundo Monique, Leniel teria repreendido o comportamento de Jairinho e disse para que ele não repetisse o ato.
De acordo com Monique, ao questionar o então namorado, ele teria explicado que a expressão fazia referência a uma brincadeira inspirada num desenho de que Henry gostava. Ela afirmou que não estranhou a explicação, mas disse ter atendido ao pedido de Leniel para que o filho não permanecesse sozinho com o padrasto.
“Henry gostava do filme Frozen, em que um personagem falava em dar abraços apertados e quentinhos. Depois da volta dele [da casa] do pai, Leniel veio falar comigo que não gostou. Foi nesse dia que as coisas começaram a mudar”, disse Monique aos jurados.
A mãe de Henry também mencionou outro episódio em que o menino teria relatado ter recebido uma “banda” e uma “moca” de Jairinho durante uma brincadeira. Segundo ela, o ex-vereador justificou a situação como uma atividade recreativa entre os dois.
“Eu repreendi. Não queria esse tipo de brincadeira. A partir desse momento do abraço apertado o Jairo e Henry se distanciaram”, disse aos jurados.
Ela afirmou que não tinha certeza de que o filho vinha sofrendo agressões e que teria chegado a pedir apoio psicológico. “Não tinha nada, ninguém falava nada. Como que eu ia descobrir? Era sempre quando eu não estava, sempre escondido”, pontuou. “Se eu tivesse suspeita de tortura, agressão de qualquer coisa, eu não teria continuado nesse relacionamento”.
Monique nega ter sido alertada pela babá sobre agressões
Monique também negou ter sido alertada pela babá Thayná Ferreira sobre episódios de agressão envolvendo o ex-vereador. Durante o interrogatório, a ré classificou como “mentira” a versão apresentada pela funcionária de que teria informado a ela sobre a rotina de violência contra a criança em 2 de fevereiro de 2021.
“Eu nunca ia deixar isso acontecer, eu nunca deixaria os dois juntos”, declarou.
A mãe de Henry relembrou ainda as mensagens trocadas com a babá no dia 12 de fevereiro do mesmo ano, quando Jairinho teria se trancado em um quarto com o menino. Segundo seu relato, ela estava em um salão de beleza no momento e foi acionada pela funcionária para retornar ao apartamento.
Monique afirmou que, naquele dia, não suspeitou de agressão física e disse ter acreditado que o então companheiro apenas teria feito comentários depreciativos contra o filho.
Julgamento se aproxima da fase final
Com o encerramento dos interrogatórios, o julgamento deve avançar para a fase de debates entre acusação e defesa, considerada uma das mais importantes do Tribunal do Júri. Nela, as partes apresentam suas conclusões sobre as provas produzidas ao longo da instrução.
Após os debates, os jurados responderão aos quesitos formulados pela Justiça, decidindo pela condenação ou absolvição dos réus. A expectativa é que a votação ocorra ainda nesta semana.
Henry Borel morreu em março de 2021, aos 4 anos, após dar entrada no Hospital Barra D’Or com múltiplas lesões internas e em parada cardiorrespiratória. Jairinho e Monique respondem por homicídio triplamente qualificado, tortura, coação no curso do processo, fraude processual e falsidade ideológica. As investigações apontam que o padrasto submetia Henry a agressões recorrentes, enquanto a mãe tinha conhecimento dos episódios e não teria adotado medidas para proteger a criança.






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