Uma acusação que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) e passou a integrar a disputa política nacional ganhou um novo e controverso capítulo. Luiz Antonio Lopes, comerciante apontado como peça central na origem de uma denúncia de suposto estupro de vulnerável contra o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), apresentou versões diferentes sobre o episódio em um intervalo de poucas semanas.
Gaspar, escolhido como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, nega a acusação. O parlamentar colocou material genético à disposição para a realização de exame de DNA e acionou judicialmente os parlamentares que divulgaram o caso.
A controvérsia começou em março, quando Lopes procurou assessores da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS). Segundo o relato apresentado naquele momento, ele conhecia uma jovem de Alagoas que teria sido abusada por Alfredo Gaspar e engravidado aos 13 anos. O comerciante chegou a pedir dinheiro para fornecer mais informações.
O relato foi posteriormente compartilhado pela senadora com o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ). A denúncia ganhou repercussão durante a CPI do INSS, em meio a uma disputa entre Gaspar, relator da comissão, e parlamentares governistas.
Caso chegou à Polícia Federal e ao STF
Soraya Thronicke e Lindbergh Farias encaminharam à Polícia Federal um pedido de investigação. No documento, os parlamentares afirmaram ter recebido informações e registros que indicariam, em tese, a ocorrência de estupro de vulnerável.
A Polícia Federal levou o caso ao STF. O ministro Gilmar Mendes, relator do procedimento, determinou que Soraya apresente mais informações sobre a denúncia recebida de Lopes. A Procuradoria-Geral da República (PGR), por sua vez, aguarda os esclarecimentos antes de se posicionar sobre o pedido de abertura de inquérito.
Alfredo Gaspar contesta integralmente a acusação e defende que a controvérsia seja esclarecida por meio de exame genético.
“Estou implorando para que haja um DNA. O meu material está à disposição há cinco meses da Justiça. A minha verdade não interessa, o que interessa é a verdade científica”, afirmou o deputado.
Testemunha apresenta outra versão
A história ganhou uma reviravolta após depoimentos prestados à Polícia Legislativa da Câmara.
Uma assessora de Gaspar declarou ter recebido ligação de Lopes na qual o comerciante teria afirmado conhecer uma “armação” destinada a atribuir falsamente o crime ao parlamentar. Em novo depoimento, ela disse que Lopes também havia relatado supostos pagamentos a envolvidos na alegada articulação.
O próprio comerciante prestou depoimento por videoconferência e apresentou uma versão diferente daquela inicialmente levada ao gabinete de Soraya.
Segundo Lopes declarou à Polícia Legislativa, uma jovem chamada Marcela, que havia trabalhado em um quiosque de sorvetes pertencente a ele no Rio, teria sido cooptada por Lindbergh e por um assessor para se apresentar com outra identidade e acusar Gaspar.
Lopes também afirmou que sua conta bancária teria recebido valores relacionados à suposta operação. Ele apresentou comprovantes de transferências via Pix, incluindo pagamentos de R$ 10 mil e R$ 2,5 mil. As pessoas apontadas como responsáveis pelas transferências negaram conhecer o comerciante ou disseram não saber explicar detalhadamente a origem dos repasses.
Lindbergh rejeitou qualquer participação em uma armação. O deputado afirmou que encaminhou à Polícia Federal áudios recebidos porque considerou que as informações precisavam ser investigadas.
“Nós tínhamos áudios, então havia a obrigação de entregá-los para a PF. Não sou eu que vou ter que provar isso. Tem uma menina mesmo na história, mas não estamos conseguindo localizá-la mais”, declarou.

Comerciante não apresentou provas
Outro elemento acrescentou complexidade ao caso. Uma semana depois de depor como testemunha, em 30 de abril, Lopes filiou-se ao PL, legenda de Alfredo Gaspar e Flávio Bolsonaro. O presidente do diretório do partido em Nilópolis afirmou não conhecer pessoalmente o comerciante e disse que a filiação poderia ter ocorrido pela internet.
Mesmo depois de apresentar à Polícia Legislativa a versão de que teria ocorrido uma armação, Lopes voltou a afirmar que possuiria provas relacionadas à acusação original contra Gaspar.
Ele disse que a suposta vítima viveria atualmente em uma propriedade rural em Tombos, no interior de Minas Gerais. No entanto, segundo o material que originou esta reportagem, não foram apresentadas provas que confirmassem essa afirmação, e moradores consultados na região disseram não conhecer a mulher mencionada.
“Não tenho idade para mentir, mas prefiro me eximir de tudo isso. Que cada um carregue a sua cruz. Já vi muita coisa, e a corda sempre arrebenta do lado do mais fraco. Tenho provas de tudo que eu falo. Não só provas verbais, mas com embasamento”, afirmou Lopes.
As versões conflitantes agora fazem parte de um caso que envolve Polícia Federal, Polícia Legislativa, PGR e STF. Até o momento descrito no material, não havia conclusão das autoridades que comprovasse nem a acusação de estupro contra Alfredo Gaspar nem a alegação posterior de que teria ocorrido uma armação para incriminá-lo.







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