A primeira manifestação de Flávio Bolsonaro (PL) após deixar o Brasil foi marcada por mudanças no documento e acusações de fraude eleitoral sem apresentação de provas. Divulgada na quarta-feira (28), depois de sua chegada a Miami, a carta teve três versões compartilhadas pelo senador e por apoiadores ao longo da tarde.
O texto questiona a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ataca o Supremo Tribunal Federal (STF) e apresenta a saída do parlamentar como uma estratégia para comandar a oposição no exterior. As alegações, porém, contrastam com os números da Justiça Eleitoral, com as circunstâncias das investigações e com manifestações de aliados que reconheceram o resultado.
As versões também trouxeram alterações na identificação de Flávio e no símbolo utilizado no cabeçalho. A seguir, os principais pontos do documento e os fatos relacionados a cada um.
Brasão antigo e identificação alterada
Uma das versões trazia um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, denominação antiga do país. O símbolo foi posteriormente substituído por uma versão com a identificação “República Federativa do Brasil”.
Também houve mudança na maneira como o senador se apresentava. Inicialmente, ele se identificava como “verdadeiro presidente Brasil”. Depois, passou a utilizar apenas a palavra “líder”.
A alteração ocorreu após a derrota para Lula no segundo turno. O resultado foi reconhecido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Acusação de fraude sem comprovação
Na carta, Flávio atribuiu sua derrota à decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que autorizou a extensão da votação em locais afetados por dificuldades de acesso às urnas.
“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerrada”.
O senador não apresentou provas da acusação. A decisão ocorreu diante de relatos de problemas no transporte de eleitores, incluindo falta de ônibus em Salvador.
Tanto o PT quanto o PL haviam solicitado mais tempo de votação. A campanha de Flávio argumentou que temporais prejudicaram o deslocamento em diferentes cidades. Apenas o PT, porém, levou a demanda ao Supremo, diante da demora de uma decisão do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques.
Votos após as 17h não alterariam resultado
Flávio também questionou as condições de votação e a resposta da Justiça Eleitoral.
“Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível”.
Segundo os dados apresentados pela Justiça Eleitoral, 34 mil votos foram registrados depois das 17h, equivalentes a 0,027% do total. A diferença entre Lula e Flávio superou 4 milhões de votos.
O registro de votos após o horário regular de encerramento, por si só, não caracteriza irregularidade. Eleitores que já estão na fila e recebem senha podem votar depois das 17h.
Ordem sobre passaportes ocorreu diante de risco de fuga
Ao atacar o ministro Alexandre de Moraes, Flávio relacionou a determinação para entregar seus documentos a uma suposta perseguição política.
“Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime”.
A ordem de entrega dos passaportes foi expedida depois que a Polícia Federal apontou risco de fuga. Dias antes, Eduardo Bolsonaro havia defendido que o irmão deixasse o Brasil caso perdesse a eleição.
A referência a uma posse impedida também não corresponde ao resultado das urnas: Flávio foi derrotado e, portanto, não conquistou o direito de assumir a Presidência.
Referência a golpe ignora condenação de Bolsonaro
Em outro trecho, o senador afirmou:
“Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado”.
A acusação foi feita sem demonstração de uma ruptura institucional. Jair Bolsonaro, pai do senador, foi condenado por participar de uma trama golpista após perder a eleição.
Entre os fatos relacionados à condenação está a apresentação aos comandantes das Forças Armadas de um documento que previa medidas como estado de defesa ou de sítio, no contexto de uma tentativa de impedir a posse de Lula.
Ausência de prisão não encerra investigações
Flávio também usou a inexistência de mandado de prisão para defender sua inocência.
“Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime”.
A ausência de uma ordem de prisão não representa conclusão sobre o mérito de investigações. Antes da eleição, o senador já era alvo de pelo menos dois inquéritos da Polícia Federal.
Uma das apurações envolve o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro, para a qual Flávio pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. Outra trata de sua relação com o advogado Willer Tomaz e de suspeitas de movimentações financeiras irregulares. A existência dos inquéritos também não equivale a uma condenação.
Saída ocorreu após determinação judicial
O senador negou ter fugido e apresentou sua permanência nos Estados Unidos como condição para exercer liderança política.
“Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime”.
Flávio deixou o território brasileiro após a ordem de entrega dos passaportes. A saída ocorreu pela fronteira terrestre com a Argentina, com uso de passaporte italiano e sem registro de passagem pelos controles migratórios brasileiros, segundo as informações fornecidas.
Enquanto isso, aliados divulgavam versões falsas sobre seu paradeiro. O trajeto aéreo incluiu passagem pelo Equador antes da chegada aos Estados Unidos.
Ataques ao STF omitem origem de nomeações
A carta atribuiu as investigações a um suposto controle petista sobre o Supremo.
“A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista”.
O principal alvo das críticas de Flávio, Alexandre de Moraes, foi indicado ao STF por Michel Temer.
Já Kassio Nunes Marques e André Mendonça, que ocupavam a presidência e a vice-presidência do TSE durante a eleição, foram nomeados para o Supremo por Jair Bolsonaro.
Comparações históricas reúnem situações distintas
Para justificar sua atuação no exterior, Flávio citou personagens de diferentes países e períodos históricos.
“Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa”.
As referências abrangem circunstâncias diferentes das enfrentadas pelo senador. De Gaulle organizou a resistência francesa após a invasão nazista, enquanto Martí atuou pela independência de Cuba em relação à Espanha.
Guaidó, por sua vez, chegou a ser reconhecido como presidente da Venezuela por diversos países, incluindo o Brasil durante o governo Bolsonaro. Flávio não recebeu reconhecimento internacional como vencedor da eleição brasileira.
Trump afirmou que o pleito “pareceu mais uma eleição fraudada”, mas também declarou gostar de Lula e disse que “não iria se envolver”. As falas não foram acompanhadas de provas de fraude.
Aliados reconheceram vitória de Lula
Ao anunciar que pretende comandar a oposição do exterior, Flávio dirigiu uma mensagem a parlamentares e governadores aliados.
“Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”.
Apesar da insistência do senador em classificar a eleição como “roubada”, aliados como Tarcísio de Freitas e Rogério Marinho reconheceram a vitória de Lula e afirmaram respeitar o resultado.
A alegação de ausência de liberdade política também contrasta com o desempenho eleitoral do próprio campo bolsonarista, que conquistou as maiores bancadas nas duas Casas do Congresso, com candidaturas marcadas por críticas ao PT e ao STF.







Deixe um comentário