O segundo dia de desfiles do Grupo Especial do Carnaval 2026 reúne as agremiações Mocidade Independente de Padre Miguel, Beija-Flor de Nilópolis, Unidos do Viradouro e Unidos da Tijuca na segunda-feira (16). Na intenção de abordar personalidades brasileiras e afro-brasileiras, a Mocidade destaca Rita Lee; já a Beija-Flor, o Bembé do Mercado; a Viradouro escolheu imortalizar o mestre de bateria Moacyr da Silva Pinto, o Ciça, enquanto a Tijuca, a escritora Carolina Maria de Jesus.
Veja abaixo os enredos e sambas-enredo pela ordem de desfiles.
Segunda-feira (16 de fevereiro)

Mocidade Independente de Padre Miguel – Enredo: Rita Lee, a Padroeira da Liberdade
A Mocidade Independente de Padre Miguel vai celebrar a trajetória de Rita Lee, cantora, compositora e ícone da contracultura brasileira. O enredo narra sua chegada à cena musical como um sopro de liberdade, por barreiras em um Brasil marcado por censura e conservadorismo.
No enredo, Rita Lee é apresentada como figura transformadora, capaz de desafiar normas e renovar o cenário artístico. Sua música, que mistura rock britânico, irreverência e malícia poética, é evocada como ferramenta de empoderamento e expressão da liberdade individual e coletiva.
Ao mesmo tempo, o desfile remete à sua atitude transgressora e à ousadia de quebrar padrões impostos pelo conservadorismo.
Samba-enredo:
Um belo dia resolvi mudar
Cansei dessa gente careta
Aos seus bons costumes eu sinto informar
Formei outras ovelhas negras
A diferentona do verbo sem freio
Pra farda, uma língua e o dedo do meio
Cabelo de fogo e a lente encarnada
Mutante da pele marcada
Transo rock e samba pra sentir prazer
Agora só falta você
Sou Independente, fácil de amar
Livre de qualquer censura
Vem, baila comigo, só de te olhar
Posso imaginar loucuras
Amor é pra sempre o corpo compondo entre a boca e o ventre
Dedilha a guitarra, arranca as amarras e me bebe quente
Meu doce vampiro além do querer
Desculpe o auê!
Se é caso sério, eu lanço perfume, aumenta o volume
Que eu banco a verdade
Não adianta prender
Santa Rita Leeberdade
Vem, seja Pagu, se entrega
Quem foge ao padrão, vence a regra
A voz feminina, plural
Assina a estrela no meu carnaval
Mocidade, ê, ê, ê, ê, ê
Minha Mocidade, voltei por você!
Desbaratina a razão, se joga, meu bem
No céu, no mar, na lua
Na Vila Vintém

Beija-Flor de Nilópolis Enredo: Bembé
A Azul e Branco de Nilópolis apresentou, neste ano, o enredo Bembé, homenageando o tradicional Bembé do Mercado, celebração do candomblé realizada em Santo Amaro, Bahia, todo 13 de maio. O desfile vai retratar a força da ancestralidade africana no Brasil, exaltando a religiosidade, a musicalidade e a resistência cultural do povo negro.
Cada ala e alegoria procura reproduzir a intensidade das celebrações, o ritmo contagiante do toque dos tambores e a devoção dos praticantes.
Samba-enredo:
Não me peça pra calar minha verdade
Pois a nossa liberdade não depende de papel
Em Santo Amaro, todo treze de maio
Nossa ancestralidade é festejada à luz do céu
Ê ê… João de Obá, griô sagrado
Ê ê… herança viva no mercado
Cantando, saudamos a nossa fé
Às nações do candomblé
É sagrado o respeito!
Ressoa no coro o axé funfun
Não tememos ataque algum
A rua ocupamos por direito
Põe erva pra defumar
Um ebó pra proteger
Saraiéié Bokunan, saraiéié!
Nosso povo é da encruza
Arte preta de terreiro
É mistura de cultura
Multidão de macumbeiro
O povo gira no xirê, a celebrar…
O axé se espalha em cada canto, em cada olhar
Transborda magia no toque do tambor
Às Yabás, o balaio e o amor…
Yemanjá alodê no mar (no mar)
É d’Oxum toda beleza do ibá
É reza no corpo, é dança na alma
A rosa, a palma, o Omolucum…
É Dona Canô de todo recanto
Evoco a Baixada de Todos os Santos!
Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba!
Deixa girar que a rua virou bembé
Deixa girar que a rua virou bembé
O meu egbé faz valer o seu lugar
Laroyê, Beija-Flor, Alafiá!

Unidos do Viradouro – Enredo: Pra Cima, Ciça
Com 80 anos de fundação em 2026, a Unidos do Viradouro escolheu levar para a Marquês de Sapucaí, a trajetória de Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça, referência na história do Carnaval carioca como mestre de bateria. O enredo percorre os 70 anos de vida do artista e os 55 anos de sua estreia na Avenida.
Samba-enredo:
Eu vi, a vida pulsar como fosse canção
Milhões de compassos pra eternizar
Em cada batida do meu coração
O som que reflete o seu batucar
Lá, onde o samba fez berço, do alto do morro
Um menino orgulha Ismael, bicho novo
Forjado nas garras do velho leão
Contam no largo do Estácio
O destino em seu passo
Que fez pouco a pouco uma chama acender
Traz surdo, tarol e repique pro mestre reger
Quando o apito ressoa parece magia
Num trem caipira, no olhar da baiana
Medalha de ouro, suingue perfeito
Que marca no peito da escola de samba
Se a vida é um enredo desfilou outros amores
Maestro fez do couro sinfonia
Na ousadia dos seus tambores
Peça perfeita pra me completar
Feiticeiro das evocações
Atabaque mandou te chamar
Pra macumba jogar poeira
Firma a caixa pra resistir, o nome de Moacyr
É legado do mestre Caveira
Sou eu, mais um batuqueiro a pulsar por você
Ciça, gratidão pelas lições que eu pude aprender
E hoje aos teus pés
Somos todos um nessa avenida
Num furacão que nunca vai ter fim
Nossa história não encontra despedida
Se eu for morrer de amor que seja no samba
Sou Viradouro, onde a arte o consagrou
Não esperamos a saudade pra cantar
Do mestre dos mestres herdei o tambor

Unidos da Tijuca – Enredo: Carolina Maria de Jesus
A escritora e memorialista mineira, autora de Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus será incorporada na Sapucaí. O samba-enredo remete às raízes de Carolina, citando sua infância e a influência de familiares, como o “vô preto velho”, e apelidos como Bitita, que reforçam a transmissão de sabedoria e a força da memória ancestral na construção de sua identidade.
Ao longo da narrativa, a música faz referência direta ao livro, que evidencia como a escritora transformou a pobreza extrema em literatura de denúncia e resistência.
Samba-enredo:
Eu sou filha de uma dor
Que nasceu no interior de uma saudade
Neta de vô preto velho
Que me ensinou os mistérios
Bitita, cor que sonhou liberdade
Me chamo Carolina de Jesus
Dele herdei também a cruz
Olhem em mim, eu tenho as marcas
Me impuseram sobreviver
Por ser livre nas palavras
Condenaram meu saber
Fui a caneta que não reproduziu
A sina da mulher preta no Brasil
Os olhos da fome eram os meus
Justiça dos homens não é maior que a de Deus!
Meu quarto foi despejo de agonia
A palavra é arma contra a tirania!
Sonhei sobre as páginas da vida
Ilusões tolhidas por um sistema algoz
Que tenta apagar nossa grandeza
Calar a realeza que ainda vive em nós
Meu barraco é de madeira
Barracões são do Borel
Onde nascem Carolinas
Não seremos mais os réus
Por tantas Marias
Que viram seus filhos crucificados
Nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado
Meu país nasceu com nome de mulher
Sou a liberdade, Mãe do Canindé!
Muda essa história, Tijuca
Tira do meu verso a força pra vencer!
Reconhece o seu lugar, e luta
Esse é o nosso jeito de escrever!
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes






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