Imagens de câmeras de segurança obtidas com exclusividade pelo portal G1 e pela TV Globo revelam uma série de agressões cometidas por agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) contra usuários de drogas e comerciantes da Cracolândia, no Centro de São Paulo, entre os dias 10 e 12 de maio — véspera da data em que o “fluxo” amanheceu vazio, no dia 13.
Segundo testemunhos colhidos pela reportagem, a violência se intensificou nas últimas semanas. Três comerciantes confirmaram que foram alvo de agressões físicas e ameaças por parte dos guardas. Vídeos mostram o uso de cassetetes, chutes, socos e spray de pimenta contra usuários e frequentadores da região da Rua Mauá. Os próprios comerciantes relataram também terem sido agredidos ao tentarem intervir ou simplesmente presenciar as ações.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que a GCM presta um serviço essencial de proteção e combate à criminalidade, e que “eventuais condutas inadequadas serão apuradas”.
Ações registradas em vídeo
Na noite de 12 de maio, por volta das 22h, câmeras de segurança do comerciante Valdeizo Fortunato de Lima, de 35 anos, mostraram agentes da GCM agredindo um grupo de usuários que circulava pela Rua Mauá. Os guardas aparecem armados, golpeando com cassetetes e desferindo chutes. Um dos usuários é derrubado no chão e agredido repetidamente.
“Eles querem dispersar o pessoal do Centro. Então agridem até que saiam daqui”, afirmou Lima, que pediu para ser identificado como forma de proteção.
Outros registros em vídeo, dos dias 10 e 11 de maio, mostram episódios semelhantes. No sábado (10), um homem foi puxado e empurrado ao tentar comprar alimentos em uma mercearia. No domingo (11), dois usuários foram abordados por três agentes, um deles identificado como comerciante local. A abordagem termina com socos, chutes e até a arma de um guarda apontada para o rosto de um dos homens.
Há ainda registros de 10 de abril, quando GCMs foram flagrados guiando dezenas de usuários pela rua e, em seguida, utilizando spray de pimenta e cassetetes contra pessoas que apenas faziam compras em um comércio.
Relatos de violência e ameaças
Em entrevista à TV Globo, um dos usuários relatou ter sido torturado psicologicamente e fisicamente. Segundo ele, guardas o ameaçaram de morte, levaram seus pertences e colocaram um revólver em sua boca. “Eles diziam que iam dar chá de sumiço”, afirmou. “A gente não tem a quem recorrer. Ninguém filma, ninguém testemunha.”
Comerciantes também confirmaram as ações. Uma comerciante disse que, nos últimos dias, a Polícia Militar afirmou que havia “ordem de cima” para impedir os usuários de permanecerem no Centro. “Se insistem, jogam gás de pimenta. Agora, a maioria está indo para a Marechal Deodoro.”
Outro comerciante relatou que desde sexta-feira, 9 de maio, os guardas passaram a proibir a entrada de qualquer objeto no fluxo. “No sábado barraram tudo. No domingo já amanheceu vazio”, disse.
Cracolândia amanhece vazia
Na manhã de terça-feira (13), a região tradicional da Cracolândia — entre as ruas dos Protestantes e dos Gusmões — amanheceu sem nenhum usuário. O local, cercado por gradis e muros de até 2,5 metros de altura, foi descrito como um “curral humano” pela Defensoria Pública quando erguido.
O promotor de justiça Fabio Bechara atribuiu o esvaziamento à desarticulação do que chamou de “ecossistema criminoso” que sustentava o fluxo, com a prisão de traficantes e ações contra ferros-velhos que se beneficiavam da mão de obra dos usuários. “O dependente sempre foi visto como vítima. Quando rompemos a cadeia de exploração, o sistema se desfaz.”
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que o desaparecimento do fluxo está relacionado a operações conjuntas entre o município e o governo estadual, especialmente na Favela do Moinho, que resultaram na prisão de “Léo do Moinho”, apontado como principal fornecedor de drogas na região.
“Sem a droga presente, é mais fácil convencer as pessoas a irem para tratamento. Ontem tivemos 60 pessoas procurando ajuda de forma voluntária”, disse Nunes.
Para onde foram os usuários?
Desde a dispersão, usuários passaram a se espalhar por diferentes pontos da cidade. Um mapeamento feito pela Secretaria da Segurança Pública, obtido pela TV Globo via Lei de Acesso à Informação, identificou ao menos 72 novos pontos de concentração. Entre eles:
- Praça Marechal Deodoro
- Calçada do Bom Prato, na Rua General Osório
- Imediações do Terminal Princesa Isabel
- Bairro do Glicério (incluindo o Viaduto Tamanduateí)
Vídeos registrados na Marechal Deodoro mostram cerca de 20 usuários tentando se instalar, mas sendo impedidos por uma viatura da GCM.
ONGs como a Craco Resiste denunciam que o que ocorre é uma “dispersão permanente”, que rompe laços importantes entre os usuários e profissionais de saúde, comerciantes e entre os próprios dependentes.
Assista aos vídeos no link abaixo do portal G1 e do Globo:





