Usando capa de chuva e tênis, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), surpreendeu os comerciantes e frequentadores da Feira Hippie de Goiânia, no domingo. Ao lado do seu candidato à prefeitura, Sandro Mabel (União), Caiado enfrentou a tempestade que caía e aproveitou para dizer que, em parceria com o correligionário, faria obras de drenagem e cobertura do espaço. Deixou claro, entretanto, que para isto acontecer, Mabel precisaria vencer o bolsonarista Fred Rodrigues (PL). Desde que Mabel passou para o segundo turno atrás do candidato de Jair Bolsonaro (PL), Caiado passou a tratar desta eleição como se fosse a dele mesmo, dizem aliados.
A “questão de honra” passaria por ver o bolsonarismo derrotado, deixando claro que a direita está dividida na capital goiana. Se Caiado sonhava, até o início da corrida eleitoral, ser o candidato de Bolsonaro à Presidência em 2026, agora tem claro que precisa eleger o correligionário para se manter “vivo” no jogo político.
Desde que foi atacado por Bolsonaro no primeiro turno, Caiado foi obrigado a modular as estratégias de campanha de Mabel. Além de ir para as ruas e pedir votos, o governador passou a trabalhar para aproximar seu aliado de lideranças religiosas e se dispôs a cativar o eleitorado petista, que apostou em Adriana Accorsi (PT). Na semana passada, por exemplo, o governador levou Mabel para uma reunião com o arcebispo da Igreja Católica em Goiânia, Dom João Justino. Em seus discursos, sem citar qualquer coligação com o PT, Caiado reforça a importância da união de forças contra a suposta inexperiência de Rodrigues, ressaltando a “capacidade de gestão” do seu candidato.
— Às 5h, o Caiado e o Sandro (Mabel) já estão trabalhando, faça chuva ou faça sol, assim como esse povo da feira. Vamos votar em quem trabalha — disse Caiado em um vídeo publicado em suas redes sociais, no qual aparece falando embaixo da chuva.
A fala dele era endereçada ao candidato de Bolsonaro, que havia desmarcado agenda naquela manhã por causa da chuva que caía. Na véspera, o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez mais um aceno a Mabel. Em nota divulgada, a sigla fala que há um “dever cívico de derrotar a extrema-direita”, representada por Fred Rodrigues (PL).
Ver Mabel vencendo o candidato de Bolsonaro, dizem os aliados, seria uma sinalização de que o governador segue como um eficaz “cabo eleitoral”, capaz até mesmo de dividir os votos da direita no estado e de se sobressair sobre o ex-presidente, que ele sonhava ter como aliado.
A guinada veio depois de um ato no qual Bolsonaro não citou nominalmente Caiado, mas retomou a crise entre ambos durante a pandemia da Covid-19, em 2020. À época, Caiado chegou a romper com o então aliado devido às medidas para conter a disseminação do coronavírus, adotada por governadores estaduais logo no início da crise sanitária. O ex-presidente usou o discurso comum durante seu governo, com críticas à vacina. Ainda em seu discurso, o ex-presidente afirmou que a única candidatura de direita na capital era a de Fred Rodrigues, o que teria sido suficiente para que Rodrigues saísse da quarta posição para a primeira, em poucos dias.
— Nós na pandemia, fizemos o que tinha que ser feito. Fui contra governadores que falavam ‘fiquem em casa, a economia a gente vê depois’. Governador covarde! Governador covarde! O vírus ia pegar todo mundo, não tinha como fugir do vírus — declarou Bolsonaro no comício, ao lado de Fred Rodrigues.
O ataque do ex-presidente ao antigo aliado coincide em um momento em que o governador busca se cacifar para a disputa ao Planalto em 2026. Diante da inelegibilidade de Bolsonaro no próximo pleito, o União já trata Caiado como pré-candidato. E o chefe do Executivo goiano busca atrair tanto o eleitor bolsonarista, quanto um voto mais moderado de centro-direita.
Apesar de muita negociação na pré-campanha, o governador goiano optou por lançar um nome do União Brasil à prefeitura da capital, desagradando o PL de Bolsonaro, que inicialmente queria lançar o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO). O parlamentar havia se tornado empecilho para qualquer aliança nas eleições deste ano.
Caiado filiou o presidente da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), o ex-deputado Sandro Mabel. Mabel também é da família fundadora da empresa de rosquinhas e biscoitos Mabel, vendida em 2011 e citada por Bolsonaro no ataque ao candidato:
— O candidato da bolachinha e da rosquinha tem vídeo dele elogiando Dilma Rousseff, dizendo que ela foi uma boa gestora. 2014, 2015, sem crise nenhuma no Brasil. Essa presidente conseguiu a proeza de desempregar 13 milhões de pessoas no Brasil. Essa presidente que o da rosquinha disse que foi uma boa presidente, conseguiu entregar a Petrobras para o Temer com uma dívida de 180 milhões de dólares — discursou.
Com informações de O Globo





