Em meio a tensões geopolíticas globais, os líderes do Brics divulgaram neste domingo (6) a declaração final da cúpula realizada no Brasil com forte defesa do multilateralismo, mas adotaram um tom cauteloso em relação a temas sensíveis como a guerra em Gaza, o conflito na Ucrânia e o tarifaço anunciado por Donald Trump.
O documento evita críticas diretas aos Estados Unidos, mesmo ao condenar medidas coercitivas unilaterais e o uso de sanções como instrumentos políticos. Também não há menções à intenção americana de impor tarifas de até 100% sobre produtos dos países do bloco.
Paz mundial, mas sem confrontos diplomáticos
A declaração condena genericamente os conflitos armados e apela por soluções político-diplomáticas. Os países expressam “preocupação com a fragmentação da ordem internacional” e destacam a importância de se combater as causas profundas dos conflitos, reiterando apoio ao papel da ONU — embora reconheçam a necessidade de reformar o Conselho de Segurança, com inclusão de países em desenvolvimento e menção específica às “aspirações legítimas” da África.
Gaza: condenação a Israel, mas sem “genocídio”
Embora o presidente Lula tenha classificado a situação em Gaza como “genocídio”, a palavra não aparece no documento. O texto condena as violações do Direito Internacional Humanitário, inclusive o uso da fome como arma de guerra, e pede cessar-fogo imediato e retirada das tropas israelenses do território palestino. Reitera-se ainda a solução de dois Estados, com base nas fronteiras de 1967 e apoio à adesão plena da Palestina à ONU.
Irã e Ucrânia: cautela estratégica
O Brics condena ataques a instalações nucleares no Irã, sem citar diretamente Israel ou os EUA. Fontes afirmam que o Irã pressionou por termos mais duros, mas a versão final do texto evitou confrontos diplomáticos. Já no caso da Ucrânia, o conflito é tratado de maneira vaga. Há menção a ataques em regiões russas como Bryansk e Voronej, mas sem responsabilização direta da Ucrânia. A Rússia, por sua vez, foi poupada de críticas.
Pressão militar e discurso antimilitarista
O texto também critica o aumento nos gastos militares globais, em alusão à decisão da Otan de elevar seu piso para 5% do PIB, tema abordado por Lula em seu discurso na cúpula. Os países defendem uma redução da corrida armamentista e reiteram a importância de zonas livres de armas nucleares — como no Oriente Médio — sem citar Israel ou Irã.
Economia e tecnologia: IA e resistência ao dólar
Na parte econômica, o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) é exaltado como ferramenta estratégica de financiamento para o Sul Global. Os países discutem alternativas ao dólar, mas não avançaram na criação de uma moeda única. O temor de represálias econômicas — como o tarifaço prometido por Trump — influenciou a cautela.
A declaração também aborda o uso de inteligência artificial e a necessidade de proteger a propriedade intelectual, com ênfase em justiça para países em desenvolvimento. Alerta-se para os riscos de deturpação cultural em modelos de IA baseados em dados enviesados, em crítica implícita às grandes plataformas tecnológicas ocidentais.
Clima e energia: discurso verde com concessão ao petróleo
O Brics reafirma seu compromisso com a luta contra a mudança climática e a promoção da transição energética, mas reconhece que os combustíveis fósseis ainda têm papel relevante, especialmente em países em desenvolvimento. É uma concessão aos grandes produtores de gás e petróleo dentro do bloco, como Rússia e Arábia Saudita.
“O esforço global por um futuro sustentável exige transições justas e equitativas para todos”, diz o texto, destacando a necessidade de financiamento climático a países pobres.






