Brasil retira 14 milhões da pobreza em dois anos, aponta levantamento do CadÚnico

Avanço no emprego, maior escolaridade e integração de dados explicam melhora nos indicadores sociais, segundo especialistas

Nos últimos dois anos, cerca de 14 milhões de brasileiros superaram a linha da pobreza, segundo dados mais recentes do Cadastro Único (CadÚnico), base oficial que reúne informações de famílias de baixa renda e é usada pelo governo federal para concessão de benefícios sociais. Os efeitos da queda no desemprego e do aumento da escolarização como fatores decisivos para a melhora no quadro social, informa O Globo.

Entre março de 2023 e agosto de 2025, o número de famílias em situação de pobreza cadastradas caiu de 26 milhões para 19,5 milhões — uma redução de 25%. Esse grupo agora representa menos da metade dos 41,1 milhões de lares inscritos no sistema. A análise não leva em conta valores recebidos pelo Bolsa Família, considerando apenas a renda gerada pelos próprios moradores das casas.

Redução da desigualdade

De acordo com Marcelo Neri, diretor da FGV Social, o movimento reflete um avanço expressivo na renda da população mais vulnerável. “Há um boom trabalhista na metade mais pobre do país. É um crescimento com mais fermento para os mais pobres, o que significa redução de desigualdade”, disse o economista. Segundo ele, não se trata apenas da criação de empregos, mas de uma combinação de fatores, como o aumento da escolaridade: “É um carro com tração nas quatro rodas”.

Os números confirmam essa tendência. No primeiro semestre de 2025, 58% das novas vagas de trabalho formal foram preenchidas por beneficiários do Bolsa Família, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Além disso, levantamento da FGV Social indica que a renda real da metade mais pobre do Brasil cresceu 19% em dois anos, enquanto a dos 10% mais ricos avançou 11,6%.

Impacto no Bolsa Família

Apesar da melhora nos indicadores, os gastos com o Bolsa Família permanecem elevados. O orçamento passou de R$ 113,5 bilhões em 2022 (quando ainda se chamava Auxílio Brasil) para R$ 166,9 bilhões em 2023, e a previsão para 2025 é de R$ 159,5 bilhões. A principal razão é a regra de transição, que reduz o valor pago pela metade durante um ano às famílias que ultrapassam o limite de renda de R$ 218 por pessoa. Essa “rede de proteção” busca suavizar a saída do programa.

Em junho de 2025, o governo encurtou esse período de dois para um ano e ajustou o limite de renda máxima para R$ 706 por integrante. Com as mudanças, o número de famílias na chamada “faixa de proteção” começou a cair: de 3 milhões no início do ano para cerca de 2 milhões em setembro. Desde 2023, mais de 1,5 milhão de famílias deixaram o programa por aumento de renda.

Integração de dados e maior precisão

Outro fator apontado pelo governo é a integração do CadÚnico com o Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS), que possibilitou cruzar automaticamente informações de renda formal e benefícios previdenciários de 33 milhões de pessoas. A medida permitiu maior precisão no monitoramento e acelerou a atualização do perfil das famílias.

Segundo Rafael Osório, secretário de Avaliação, Gestão da Informação e CadÚnico do MDS, a modernização foi decisiva. “A redução das famílias em situação de pobreza é reflexo da melhoria de vida da população, mas não estaríamos vendo isso se refletir no Cadastro como hoje se não fosse a integração de dados”, afirmou ao O Globo.

Perspectivas

O cenário atual indica que o Brasil conseguiu combinar crescimento econômico, ampliação do emprego formal e avanço na escolarização para reduzir desigualdades. Ainda assim, especialistas alertam que o desafio é garantir a sustentabilidade dessa melhora, sobretudo diante da manutenção de gastos elevados com programas de transferência de renda e da vulnerabilidade de parte da população a crises econômicas futuras.

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