Bolsonaros tiveram ligação com investigados por organizações criminosas, mostram episódios

Apesar de defender a classificação de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, integrantes da família Bolsonaro já estiveram próximos de personagens investigados por envolvimento com milícias, esquemas criminosos e organizações sob investigação.

Após os Estados Unidos classificarem o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho como organizações terroristas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) celebrou a medida e a transformou em uma das bandeiras políticas de sua pré-campanha à Presidência da República.

A decisão foi anunciada após visita do parlamentar ao ex-presidente norte-americano Donald Trump. Em nota, a assessoria de Flávio afirmou que a família Bolsonaro não mantém qualquer relação com facções criminosas ou grupos armados ilegais.

O comunicado também fez críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), citando episódios envolvendo integrantes ligados ao crime organizado que participaram de reuniões no Ministério da Justiça.

Apesar do discurso de combate às facções, o histórico político da família Bolsonaro reúne episódios de proximidade com pessoas posteriormente investigadas ou acusadas de participação em organizações criminosas, especialmente no Rio de Janeiro.

Homenagens a Adriano da Nóbrega

Um dos casos mais conhecidos envolve o ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime.

Em 2005, Adriano recebeu na prisão a Medalha Tiradentes, uma das principais honrarias concedidas pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A homenagem foi proposta por Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, e entregue com a participação de Jair Bolsonaro.

Dois anos antes, Adriano já havia sido homenageado por iniciativa do parlamentar fluminense. Posteriormente, o ex-PM passou a ser investigado por diversos crimes e morreu durante uma operação policial realizada na Bahia, em fevereiro de 2020.

Emprego para familiares e investigação das rachadinhas

A relação entre Flávio Bolsonaro e Adriano da Nóbrega também ganhou destaque durante as investigações sobre o esquema conhecido como “rachadinha” na Alerj.

A mãe e a ex-esposa de Adriano trabalharam durante anos no gabinete de Flávio Bolsonaro. Segundo investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro, ambas teriam participado de um esquema de devolução de parte dos salários recebidos como assessoras parlamentares.

Os investigadores apontaram movimentações financeiras envolvendo Fabrício Queiroz, ex-assessor e homem de confiança de Flávio, além de transferências que teriam ligação com familiares de Adriano da Nóbrega.

As acusações sempre foram negadas pelo senador. Em 2021, decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) invalidaram provas utilizadas na investigação, levando ao encerramento do caso.

Declarações sobre milícias

Ao longo da trajetória política, Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro também fizeram declarações que geraram críticas por parte de especialistas em segurança pública e adversários políticos.

Durante a campanha presidencial de 2018, Jair Bolsonaro afirmou que regiões dominadas por milícias apresentavam baixos índices de violência. A declaração foi interpretada por críticos como uma relativização da atuação desses grupos.

Flávio Bolsonaro também já comentou sobre comunidades controladas por milicianos, afirmando em diferentes momentos que parte dos moradores relatava sensação de segurança. Em um discurso na Alerj, classificou as milícias como uma espécie de “nova forma de policiamento”.

Policiais ligados à campanha foram alvo de operação

Outro episódio ocorreu em 2018, quando a Operação Quarto Elemento prendeu policiais militares suspeitos de integrar uma quadrilha especializada em extorsões.

Entre os investigados estavam os irmãos gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira. Segundo reportagens da época, ambos teriam participado de atividades ligadas à campanha de Flávio Bolsonaro ao Senado.

O então candidato negou qualquer vínculo formal dos policiais com sua equipe eleitoral. Já familiares afirmaram que a colaboração ocorreu de forma voluntária.

Aproximação com Rodrigo Bacellar

Nos últimos anos, a família Bolsonaro também estreitou relações políticas com Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

O político participou de encontros com Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro em discussões sobre o cenário eleitoral fluminense e chegou a receber homenagens do grupo.

Posteriormente, Bacellar tornou-se alvo de investigações que apuram suspeitas de participação em organização criminosa e suposto vazamento de informações para beneficiar integrantes do Comando Vermelho. As acusações seguem em análise pelas autoridades competentes.

O caso reforçou questionamentos de adversários políticos sobre os critérios adotados pelo grupo para estabelecer alianças e apoios eleitorais ao longo dos últimos anos.

Contato com Daniel Vorcaro

Outro nome associado ao entorno político bolsonarista foi o do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado em apurações relacionadas ao Banco Master.

Áudios divulgados pela imprensa indicaram conversas entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro envolvendo investimentos para a produção de um documentário sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O senador confirmou ter mantido contato com o empresário e afirmou que a relação se restringia a questões ligadas ao financiamento privado do projeto audiovisual.

As investigações envolvendo Vorcaro incluem suspeitas de crimes financeiros, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Os processos seguem em tramitação e ainda dependem de decisão definitiva da Justiça.

Debate político ganha novo capítulo

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos reacendeu o debate sobre segurança pública e combate ao crime organizado no Brasil.

Enquanto Flávio Bolsonaro tenta transformar a medida em ativo político para a disputa presidencial de 2026, opositores lembram episódios do passado envolvendo personagens investigados por ligação com milícias e outras estruturas criminosas.

O tema deve permanecer no centro do debate eleitoral nos próximos meses, especialmente diante das disputas narrativas entre governo e oposição sobre o enfrentamento ao crime organizado e às facções criminosas no país.

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