A fé não costuma falhar em meio a petiscos, tulipas de cerveja e uma boa conversa numa mesa de bar. Aquela imagem de santo, orixá ou entidade que costumava ficar num canto reservado ou num pequeno altar nas paredes dos estabelecimentos dá lugar agora a ambientes totalmente temáticos inspirados em religiões de matriz africana.
Inaugurado em junho, o Mojubar, no Méier, por exemplo, tem como sócios integrantes de um terreiro de umbanda. Localizado na encruzilhada das ruas Pedro de Carvalho e Aquidabã, o novo comércio só nasceu depois de permissão espiritual. Para o nome, foi feita uma adaptação da saudação a Exu, “Mojubá”. Sobre o balcão, a ornamentação tem imagens de pretos velhos e de Cosme, Damião e Doum, além de São Jorge e Nossa Senhora, sincretizados com Ogum e Oxum, respectivamente. Atrás da roda de samba, há ainda imagens de Pombagira, malandro e Exu, este último saudado por um “Laroyê” num letreiro em néon.
— A ideia não é comercializar a religião, nem criar um terreiro. É fortalecer o lado da caridade (da umbanda), com uma casa o mais acolhedora possível. É um comércio, em que, acima de tudo, tocamos música de boa qualidade — observa Rodrigo Rei, um dos sócios do Mojubar.
Drinques, batizados com as saudações aos orixás, como “Kaô Kabecile”, a Xangô, e petiscos, como a porção de sardinha denominada Maria Navalha, compõem o cardápio. Márcia Oliveira, agora frequentadora, conta que “nunca tinha visto um bar assim”.
— Tem respeito com as entidades, e o bar abre para todo mundo. Ouço música boa, e saio melhor ainda — afirma.
Com um copo de cerveja e um cigarro nas mãos, Celynho Show, artista que se apresenta como o “malandro musical”, é contratado por bares para interpretar Zé Pelintra. Com samba no pé e usando terno branco e chapéu panamá, além de guias e fios de conta, ele atrai os holofotes (e também clientes). Basta aparecer, que começam a pedir fotos.
— É uma encenação. Muitas pessoas acham que estou incorporado. Nunca estou sozinho, mas sou sempre eu. A dança é artística. É igual a um ator. Você faz laboratório e procura entender aquele ritmo — conta Celynho, umbandista, que interpreta o Seu Zé “imponente, elegante e garboso”.
Atualmente, não é difícil encontrar malandros como Celynho em rodas de samba. No seu caso, os bares se transformaram em palco quando seu musical, o “Cabaré do Malandro”, chegou ao fim em 2018 no teatro.
Comida e ornamentação
A Casa de Malandro, na Lapa, e o Santo Zé, em Quintino, são alguns dos exemplos desses bares temáticos pela cidade. No último, inaugurado em 2023, o samba (com direito a pontos e cantigas) atrai clientes de toda a cidade. No salão, há um cantinho instagramável, com um manequim, vestido de malandro, sentado num banco de praça, diante de um painel do berço da malandragem.
— A gente quis trazer a Lapa para Quintino — explica Ge Senna, dono do Santo Zé.
Há ainda estabelecimentos em que o ponto forte é a comida, como no Borogun, em Vila Isabel, inaugurado no ano passado. À frente do fogão está Jhersee Big J, um dos sócios. Os pratos também foram a aposta de Kananda Soares para lançar em 2022 o pioneiro Agô Bar da Encruza, em Santa Teresa. A empresária teve a ideia de abrir o bar após fazer um xinxim de galinha em casa e imaginar que nenhum de seus amigos conhecia aquele prato.
Em seu cardápio, uma das opções é o “padê da encruza”: um churrasco misto flambado na cachaça, acompanhando de farofa de dendê.
— O Agô abriu os caminhos. A gente não tinha bares com esse tema, e de repente vieram vários, o que acho muito legal. A religião de matriz africana foi marginalizada. A gente tem uma comida, de uma tecnologia incrível, enquanto a galera estuda gastronomia de comida italiana, francesa, viemos para contar nossa história — diz Kananda.
Essa tendência é destacada pela diretora do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), Danni Camilo:
— É muito legal contar a história de um povo, essa história que foi apagada. Sobretudo no candomblé e na umbanda, tudo gira em torno da comida. Gastronomia é cultura, é arte.
Resistência
A ialorixá Paula de Odé, presidente do Instituto Ose Dudu, reconhece que os temas de matriz africana, no geral, têm se popularizado. Mas alerta para um “modismo perigoso”, porque muitas pessoas “nem sabem do que se trata, mas querem estar inseridas” nesse universo:
— Quando o dono do restaurante é de matriz africana, ok. Para nós, a nossa gastronomia de terreiro é sagrada. A comida de santo tem axé e não pode ser tratada como leviana.
Já Ana Paula Miranda, professora de Antropologia da UFF, que estuda a perseguição a terreiros desde 2008, observa que vivemos atualmente um “agravamento das violações” a esses espaços. Painel do Instituto de Segurança Pública sobre discriminações mostra que, de janeiro a setembro de 2024, foram registrados ao menos 72 casos de preconceito religioso no Estado do Rio.
— As duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo: enquanto o conflito recrudesce, você faz com que pessoas se organizem e se mobilizem para reagir a ele, e isso se desdobra numa moda — diz Miranda.
Com informações do Extra.





