A Vila Amaury foi uma cidade inteira que existiu por menos tempo do que um mandato presidencial e, quando morreu, não deixou escombros em terra, mas sim ruínas submersas a metros de profundidade, bem no lugar onde Brasília decidiu colocar seu cartão-postal líquido mais conhecido. Criada em 1957 para abrigar os operários que ergueriam a capital federal, o que sobra hoje é uma história de contradições. Uma comunidade vibrante, com direito a parque de diversões e rádio própria, que foi engolida pelas águas para que a nova capital tivesse a moldura que o projeto exigia.  

Ninguém pode alegar que foi pego de surpresa. A vila foi planejada para ser provisória, construída num vale que já se sabia que viraria lago. Os moradores sabiam, a Novacap sabia, o presidente Juscelino Kubitschek sabia. Mas ainda assim, quando a água começou a subir, houve quem resistisse, quem esperasse até o último palmo de terra seca, quem acreditasse que a obra poderia esperar mais um pouco. Mas não esperou. As comportas fecharam no aniversário de JK, em 12 de setembro de 1959, o nível do lago subiu cerca de dois centímetros por dia e a Vila Amaury virou memória antes de Brasília virar capital. 

O resultado foi uma das histórias mais extraordinárias e menos conhecidas da construção da nova capital: uma cidade inteira desapareceu debaixo d’água, seus moradores foram espalhados por outras regiões do Distrito Federal e, décadas depois, mergulhadores passaram a visitar as ruínas do lugar onde viveram os homens e mulheres que ajudaram a erguer aquela cidade. Brasília, que nasceu prometendo ser moderna, acabou ganhando de quebra uma cidade fantasma. Só que, neste caso, a assombração tem endereço, documentação e uma quantidade absurda de água sobre ela. 

Fundações de casas submersas da Vila Amaury (Crédito: Reprodução)

Qual é a história da Vila Amaury? 

A vila surgiu por volta de 1957, como uma espécie de apêndice da Vila Planalto, destinada a abrigar o contingente de trabalhadores que chegava para erguer o Congresso Nacional, os ministérios da Esplanada e os primeiros prédios das Asas Norte e Sul. Erguida como uma extensão da Vila Planalto, a Vila Amaury ocupava o terreno que mais tarde seria inundado pelo Lago Paranoá, construção artificial planejada para abastecer Brasília.

Antes de ganhar esse nome, o lugar teve pelo menos três apelidos: Vila Bananal, por ficar às margens do rio Bananal, Vila Areia e, o mais folclórico deles, Sacolândia. O local alterou seu nome para Vila Amaury por causa de Amaury Almeida, funcionário do IPASE e engenheiro da Novacap (empresa responsável pela construção da nova capital), que conduziu o movimento pró-moradia dos operários. 

E se há algo irônico nisso tudo é que a vila nasceu com data de validade. O próprio governo sabia, desde o início, que aquele terreno baixo às margens do Paranoá seria engolido pelo futuro lago.  Segundo o historiador James Holston, para assegurar que o povoamento seria temporário, a Novacap instalou em uma terra baixa que seria inundada com a construção do lago artificial do Paranoá. Ainda assim, Amaury Almeida fundou a Associação Beneficente da Vila Amaury para organizar minimamente a vida daquela comunidade que sabia, desde o primeiro prego fincado, que sua existência era um parêntese. 

A Vila Amaury em seu apogeu (Crédito: Reprodução)

Quantas pessoas viviam lá? 

As estimativas variam pouco entre as fontes, o que já é um milagre para os padrões da historiografia informal de Brasília. O número mais aceito gira em torno de 16 mil moradores. Para efeito de comparação, isso é mais gente do que muita cidade brasileira tem hoje, tudo espremido em barracos de madeira erguidos às pressas em um vale que todo mundo já sabia que iria virar fundo de piscina 

Estudos e reportagens de época reforçam que o local não parava de crescer, alimentado pelo fluxo constante de migrantes atraídos pelas obras da nova capital, o que tornava cada vez mais delicada a tarefa de removê-los quando chegasse a hora. Desde a criação, a Vila Amaury era efêmera, temporária, passageira, assim como o trabalho árduo e precário dos candangos que levantaram Brasília do pó. 

Quem eram esses moradores? 

Em sua maioria, os famosos candangos, trabalhadores vindos principalmente do Nordeste e de outras regiões pobres do país em busca de emprego nas obras faraônicas da nova capital. Um levantamento acadêmico é ainda mais específico e revela um dado incômodo sobre quem, afinal, pagou o preço mais alto pela inundação: segundo a pesquisadora Maria Fernanda Derntl, o censo de Brasília de maio de 1959 mostrou que a vila concentrava o maior número de pessoas pobres e negras de toda a cidade. 

Longe de ser apenas um punhado de barracos amontoados, a Vila Amaury tinha vida própria e movimentada, com comércio, bares, um miniparque de diversões e até estação de rádio própria. Um relato de época descreve o cotidiano de lazer dos moradores em tom quase saudosista, mencionando botecos frequentados aos domingos, ao som de músicas tocadas por um sistema de alto-falantes apelidado de “pau que fala”.  

Candangos na Vila Amaury do fim dos anos 1950 (Crédito: Reprodução)

O que aconteceu quando o Lago Paranoá começou a ser preenchido? 
 
A resistência foi generalizada e, em muitos casos, motivada simplesmente por descrença.  Parte considerável da população não acreditava que o lago realmente encheria a ponto de engolir suas casas. E os anúncios feitos pela Novacap, por meio dos “paus que falam”, para todos retirarem seus pertences não assustavam ninguém, fazendo com que grande parte da população se recusasse a sair. 

Por meio da comunicação pelos “paus que falam”, a Novacap avisava a população que a água estava subindo, e quem se interessasse  em receber um lote para morar deveria se apresentar na empresa e escolher a cidade em que desejava residir. Era o aviso prévio de despejo mais barulhento e, ao mesmo tempo, mais informal que Brasília já produziu. 

A água avançou lenta e mansamente por oito meses ao longo de1959. Segundo relatos de historiadores, “a água já atingia a altura dos joelhos das pessoas” quando a Novacap precisou ordenar a saída. Alguns moradores só deixaram suas casas quando a água já estava entrando. Outros relatos mencionam que os moradores ficaram “apavorados” e chegaram a formar comissões para falar com o presidente da Novacap, Israel Pinheiro. Que, segundo as fontes, “não lhes deu a menor atenção”. 

Brasília já começava a ser   Brasília. 

A ideia de que alguém teria morrido afogado por permanecer na Vila Amaury durante a inundação aparece associada a lendas e versões populares da história, mas não há registro histórico confiável que confirme qualquer morte causada pelo alagamento. 

Início do alagamento que criou o Lago Paranoá (Crédito: Reprodução)

Para onde foram os moradores? 

Para acomodar emergencialmente as famílias retiradas da Vila Amaury antes da entrega dos lotes definitivos, foi criado um acampamento provisório conhecido como Vila Tenório. Conforme registros da Novacap e da Prefeitura do Distrito Federal da época, essa vila de transição ficava localizada em uma área mais alta, nas proximidades de onde hoje se encontra o setor de embaixadas. 

A Vila Tenório funcionou como um ponto de triagem e abrigo temporário de lona e madeira. As famílias permaneciam no local por semanas ou meses aguardando o cadastramento oficial e a liberação dos terrenos definitivos nas novas cidades satélites criadas pelo governo. Conforme dados do Arquivo Público do DF e da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), a maior parte dos habitantes da Vila Amaury foi transferida para a Região Administrativa de Sobradinho, fundada em 1959 justamente para absorver essa demanda.  

Outras parcelas de moradores foram assentadas em Taguatinga e no Gama, cidades satélites criadas para abrigar a mão de obra que não tinha espaço no Plano Piloto projetado por Lúcio Costa.  A Novacap disponibilizou frota de caminhões de carga para transportar as famílias, seus móveis e até mesmo a madeira desmantelada de seus barracos para os lotes demarcados pelo plano do governo. 

Vila Amaury: antes e depois (Crédito: Reprodução)

Hoje o local é um point de mergulho? 

Sim. A Vila Amaury é conhecida entre mergulhadores como a “Atlântida Perdida” de Brasília. Mas não é uma aventura para os menos experientes. O local exato da antiga vila é profundo e tem visibilidade bem baixa. 

Debaixo d’água, os mergulhadores não encontram uma cidade intacta, já que as casas eram predominantemente de madeira e se deterioraram com o tempo. No entanto, segundo relatos de instrutores da Federação de Esportes Subaquáticos do DF, é possível visualizar fundações de concreto, alicerces de tijolos, restos de calçadas, poços desativados, manilhas, carcaças de carros e utensílios domésticos da década de 1950, todos cobertos por uma camada de lodo e habitados pela fauna aquática local. 

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