Por incrível que possa parecer, ainda há cariocas e simpatizantes que acreditam naquela velha conversa de que o Rio é a capital cultural do Brasil. Uma parte dessa turma é formada pela bolha do samba, outra pelo pessoal que nunca encostou em uma edição dos cadernos culturais dos jornais de São Paulo, com sua programação exuberante e democrática.
“O Rio dispõe de museus, programas públicos e dias gratuitos, mas falha na parte essencial: integrar, promover, reverberar”, diz o produtor cultural Nando Freitas. Segundo ele, números dos próprios equipamentos mostram que renda, educação e localização determinam quem entra e quem vê pela TV. Se cultura significa inclusão, democracia e diversidade, a atual geografia cultural carioca ainda está longe do ideal.
O Centro da cidade, por exemplo, é um case de potencial desperdiçado. O belíssimo Real Gabinete Português de Leitura sequer abre nos fins de semana. Paço Imperial, Museu do Carmo, CCBB e os museus das forças armadas são verdadeiras ilhas, que jamais conversam umas com as outras para a construção de uma agenda coletiva e agregadora.
“Sem uma política organizada para esses centros culturais, quase todos os bares e restaurantes do Centro, por exemplo, ficam fechados. Isso prejudica a economia de uma cidade essencialmente turística. Afinal ninguém vai abrir para atender só um casal desavisado de turistas canadenses”, destaca o produtor. E a medida em que você vai se distanciando do Centro e da Zona Sul, a coisa só fica pior. No fim das contas, a política cultural do Rio é uma vitrine espetacularmente vazia — com paredes grafitadas e selfies perfeitas, mas pouco diálogo com a real do povo.

A cidade colhe o que semeia
A retórica de “fomentar a cultura” é repetida nos relatórios de todos os governos e nas campanhas publicitárias, mas servem basicamente apenas para mostrar que “alguém está fazendo alguma coisa”. O Rio tem hoje exatamente 128 museus e centros culturais, porém quantidade não quer dizer qualidade. E raramente os investimentos em cultura estão no topo do ranking dos orçamentos públicos. “Não é difícil você encontrar gestores que, sem dinheiro, sublocam seus espaços para mostras de qualidade duvidosa ou de gente que tem dinheiro para bancar sua própria exposição e inflar seu ego”, afirma Freitas. O carioca comum, como se vê, segue fora do rolê.
Apartheid cultural?
Segundo Nando Freitas, o cruzamento dos dados sobre os frequentadores dos principais equipamentos culturais da cidade indica que entre 62% a 71% de visitantes são autodeclarados brancos, majoritariamente com ensino superior e de alta renda. Ou seja, o acesso parece se resumir aos moradores bonitos e bem-educados que já sabem onde abastecer o carro elétrico.
Enquanto isso, os 72% da população carioca que é preta ou parda e pertencente às classes mais baixas seguem minoritários na tal “cena cultural”.

A falsa isca da gratuidade
A promessa de “cultura para todos” se sustenta no discurso dos dias gratuitos dos museus — terça no MAM, domingo no MAR etc. Mas na prática, isso vira apenas uma jogada de marketing: nem sempre os dias gratuitos são de fato funcionais para quem trabalha no pesado ou depende de transporte público. São raros os relatos de moradores da Zona Norte e Oeste que aproveitam essas oportunidades. Afinal, vários fatores inviabilizam qualquer passeio que envolva um museu.
O custo adicional com transporte, lanche e possíveis exposições pagas torna esses “dias culturais” pesados no bolso de quem vive com até três salários-mínimos. Na prática, a gratuidade vira ilusão para uma população que deveria ser a maior beneficiada — mas que acaba excluída antes de pisar na calçada do museu.
Quem consome arte na cidade?
As pesquisas mostram que 44% dos visitantes de espaços como o MAM ou o IMS têm formação universitária. Fora os passeios escolares, 70% dos frequentadores do Planetário são de renda alta. Ou seja: o “público amante da arte” é quase todo da elite, reforçando a sensação de que essas instituições funcionam como clubes privados. No CCBB, o museu mais visitado do país (34° lugar mundial) com quase 1,5 milhão de visitantes por ano, o público é majoritariamente branco e de classe média alta.

Diferença entre regiões
Equipamentos de divulgação científica no Centro e na Zona Sul, como o Planetário e o Museu do Meio Ambiente, registram entre 75% e 79% de visitantes com renda e escolaridade altas. Por outro lado, museus em regiões mais periféricas, como o Museu da Vida, na Fiocruz, recebem quase metade do seu público com renda de até três salários-mínimos.






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