Quebra de sigilo expõe relação de Vorcaro com Cláudio Castro investigada pela PF; veja o que já se sabe

Mensagens extraídas do celular do banqueiro revelam relação próxima com o ex-governador e aparecem em relatório que investiga aplicações do fundo previdenciário no Banco Master

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A quebra do sigilo do celular de Daniel Vorcaro revelou uma sequência de mensagens, encontros e tratativas que levaram a Polícia Federal a investigar a proximidade entre o ex-controlador do Banco Master e o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL). Um dos principais pontos da apuração é a relação dessa aproximação com os investimentos feitos pelo Rioprevidência no banco.

Segundo a PF, há indícios de que Vorcaro acompanhou diretamente a captação de recursos do fundo responsável pelas aposentadorias e pensões dos servidores estaduais. O relatório sustenta que determinados investimentos dependiam de “alinhamento político” e destaca coincidências temporais entre encontros de Vorcaro e Castro e aportes realizados pelo Rioprevidência.

Os investigadores afirmam ainda que a amizade entre os dois antecedia o início das aplicações. Para demonstrar essa proximidade, a PF elaborou uma cronologia reunindo encontros, mensagens, despesas atribuídas a Vorcaro e a evolução dos investimentos no Master.

Encontros antes dos aportes

A cronologia começa em 12 de maio de 2023, meses antes da primeira aplicação do Rioprevidência no Master. Na ocasião, Vorcaro pagou um jantar em Nova York do qual Castro participou. A conta foi de aproximadamente R$ 66 mil.

Em 27 de julho daquele ano, a PF registra outro encontro entre o banqueiro e o então governador. Segundo o relatório, houve ao menos nove encontros entre os dois no período de julho de 2023 a março de 2025.

Para os investigadores, essa sequência é relevante porque indicaria que a relação pessoal já existia quando começaram as negociações para captar recursos do fundo previdenciário.

Início das aplicações

Em outubro de 2023, aparecem na investigação as tratativas envolvendo o operador Ricardo Siqueira para captar dinheiro do Rioprevidência. Segundo a PF, Siqueira teria afirmado que o fundo possuía um “dono” e que esse “dono precisa autorizar os caras internamente”.

O primeiro aporte registrado ocorreu em 1º de novembro de 2023: R$ 40 milhões em Letras Financeiras do Master.

Cinco dias depois, em 6 de novembro, Vorcaro e Castro se encontraram na residência do banqueiro. Em 10 de novembro, o Rioprevidência fez uma segunda aplicação, desta vez de R$ 80 milhões.

A PF chama atenção para a proximidade temporal entre os acontecimentos e as conversas anteriores sobre a necessidade de articulação para viabilizar a captação.

Dezembro de 2023: mais R$ 200 milhões

No mês seguinte, o Rioprevidência fez um novo aporte, agora de R$ 200 milhões, em Letras Financeiras do Master.

Em 21 de dezembro, Ricardo Siqueira afirmou, segundo o relatório, que a missão de captação havia sido cumprida em apenas 45 dias e que o Master havia se tornado o segundo maior captador de Letras Financeiras naquele período.

A investigação sustenta que gestores do Rioprevidência nomeados pelo governo passaram a adotar decisões contrárias à política de investimentos da autarquia. Auditoria da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência apontou que as primeiras aplicações foram feitas sem análise prévia e que operações posteriores ocorreram sem justificativas técnicas ou registros considerados necessários.

Encontros e alerta sobre risco

A cronologia registra novos encontros entre Castro e Vorcaro em 4 e 11 de março de 2024. No mês seguinte, uma conversa encontrada no celular do banqueiro chamou a atenção dos investigadores para os riscos das aplicações.

Em 16 de abril, Vorcaro conversou sobre o Rioprevidência com Marcio Contador Camargo, identificado no relatório como auditor do Banco Central e chefe de uma subunidade de supervisão bancária.

Os dois discutiram uma informação segundo a qual o Master teria uma carteira de crédito consignado vinculada ao Rioprevidência que poderia servir para recuperar eventuais perdas caso o banco quebrasse.

“Ou seja, não há qualquer garantia na captação da Rio Prev, correto?”, questionou o auditor.

“Não há”, respondeu Vorcaro.

Naquele mesmo dia, o Rioprevidência realizou um novo aporte em Letras Financeiras do Master por intermédio da corretora Planner.

Segunda conversa sobre Rioprevidência

Ainda em 16 de abril, Vorcaro conversou com um contato salvo como Augusto Ebal, identificado pela PF como Augusto Ferreira Lima, sócio do Banco Master.

Augusto encaminhou uma mensagem segundo a qual “o Rioprevidência fica com uma fatia da taxa desse empréstimo, que dá ao fundo uma receita mensal de R$ 20 milhões”.

Na sequência, Vorcaro perguntou sobre a existência de Letras Financeiras. “Não tem nada lá fora LF correto?”, questionou. Augusto respondeu: “Correto”, acrescentando: “Pelo menos que eu saiba”.

Para a PF, as conversas são indicativas de que Vorcaro acompanhava pessoalmente as operações relacionadas aos investimentos do fundo previdenciário.

Recursos chegam a R$ 970 milhões

A sequência de encontros prosseguiu em maio. No dia 14, Vorcaro e Castro estiveram em Nova York, período em que o então governador participava do Lide Brazil Investment Forum. O relatório também registra uma degustação de bebidas na cidade com a presença de Castro na mesma data.

Três dias depois, em 17 de maio, houve novo encontro.

Entre novembro de 2023 e julho de 2024, segundo a cronologia apresentada pela PF, as aplicações do Rioprevidência em Letras Financeiras do Banco Master chegaram a R$ 970 milhões.

A investigação afirma que os aportes foram “permeados, com coincidência temporal”, por encontros entre Vorcaro e Castro. Em alguns deles, a PF aponta indícios de que despesas do então governador teriam sido custeadas pelo banqueiro.

A partir de meados de 2024, mudanças regulatórias e notícias negativas sobre o Master passaram a dificultar a captação por meio das Letras Financeiras. Em outubro, conforme a investigação, Vorcaro começou a estruturar fundos de investimento destinados à atração de recursos dos Regimes Próprios de Previdência Social.

Relação continua e aumento de aportes

As mensagens analisadas pela PF mostram que a relação pessoal entre Vorcaro e Castro continuou após a fase inicial das aplicações.

Em dezembro de 2024, depois de Castro cantar em uma missa de ação de graças, Vorcaro escreveu: “Canta demais!”. O então governador respondeu: “Vc é meu amigo, não conta”.

Em março de 2025, Vorcaro fez novo convite: “Fala meu irmão. Tudo bem? Vamos nos ver essa semana algum dia! Amanha vou fazer uma feijoada, se puder ir com a esposa.”

Castro respondeu: “Fala irmão. Seja bem vindo. Manda o endereço que vou sim. Te dou um abraço lá”.

Outras mensagens citadas pela investigação mostram Castro avisando que passaria pelo camarote do banqueiro e pedindo um contato para evitar espera na entrada. Em outra ocasião, Vorcaro o convidou para um almoço no Parque Lage, ao que Castro respondeu: “Vamos sim”.

Para a PF, o conjunto das conversas e encontros indica que os dois mantinham “laços de amizade”.

Paralelamente, os investimentos mudaram de escala. De dezembro de 2024 a outubro de 2025, segundo a cronologia da investigação, o Rioprevidência realizou R$ 2,01 bilhões em aportes nos novos fundos.

Ao individualizar as condutas investigadas, a PF sustenta que Vorcaro participou diretamente das negociações, acompanhou a captação do Rioprevidência, manteve relação próxima com Castro e custeou eventos dos quais o então governador participou.

O relatório não aponta apenas a proximidade entre as datas como elemento investigativo. A PF procura estabelecer se havia conexão entre a relação pessoal e política descrita nas mensagens e as decisões que levaram recursos previdenciários dos servidores estaduais para produtos financeiros ligados ao Banco Master.

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