Após pressão internacional, Israel volta a permitir ajuda humanitária aérea em Gaza; solução tem eficácia limitada, apontam especialistas

Com 45 mortes por inanição em uma semana, genocídio se agrava; ONU e agências rejeitam controle israelense sobre distribuição de alimentos e criticam distribuição por via aérea

Diante da piora acelerada do genocídio na Faixa de Gaza e sob crescente pressão internacional, Israel autorizou a retomada de lançamentos aéreos de ajuda humanitária a partir desta sexta-feira (25). A informação foi divulgada pela rádio do Exército israelense, com base em fontes militares.

A medida ocorre em um contexto dramático: mais de dois milhões de palestinos enfrentam fome e desnutrição severa após meses de bloqueios e restrições à entrada de suprimentos no território. Relatos de crianças morrendo de fome e hospitais lotados de pacientes desnutridos se tornaram rotina, segundo agências da ONU.

Os intensos bombardeios de Israel à região, iniciados em 7 de outubro de 2023 após ataques do Hamas que mataram 1.219 pessoas em solo israelense, já deixou mais de 59 mil mortos em Gaza, de acordo com o Ministério da Saúde local. A maioria das vítimas, segundo a ONU, são civis.

Fome atinge níveis extremos e ajuda é insuficiente

A Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA) confirmou que ao menos 45 pessoas morreram de fome apenas nesta semana. O Programa Mundial de Alimentos classificou a situação como “desesperadora”, com um terço da população sem acesso a comida por vários dias consecutivos. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, relatou que 21 crianças com menos de cinco anos morreram de desnutrição em 2025.

“‘As pessoas em Gaza não estão nem mortas nem vivas, são cadáveres ambulantes’: disse-me um colega em Gaza nesta manhã”, relatou Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA. Ele acrescentou: “Uma em cada cinco crianças está desnutrida na cidade de Gaza […] A maioria das crianças atendidas por nossas equipes está fraca e corre alto risco de morrer se não receber o tratamento de que necessita urgentemente.”

Israel culpa ONU, que denuncia obstrução

O governo israelense nega estar bloqueando a entrada de alimentos e afirma que centenas de caminhões com suprimentos estão retidos do lado palestino da fronteira por falta de coleta. “A ONU se recusa a distribuir a ajuda. O Hamas e a ONU impedem que a ajuda chegue aos civis em Gaza. O mundo merece saber a verdade”, declarou o governo de Benjamin Netanyahu.

A ONU contesta essa versão. Jens Laerke, porta-voz do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários, afirmou que “Israel não permitiu a presença da ONU nas travessias, que são áreas militarizadas”, dificultando a verificação da situação no local.

Solução emergencial com eficácia limitada

Embora a ajuda humanitária lançada por via aérea possa parecer uma resposta rápida em cenários extremos, especialistas e agências internacionais alertam para suas limitações. O principal problema é a falta de controle sobre o local exato onde os suprimentos aterrissam, o que pode dificultar a chegada aos mais necessitados e até provocar disputas entre civis famintos em desespero.

Além disso, a quantidade de alimentos e medicamentos transportada por aviões é muito menor do que a que pode ser enviada por rotas terrestres. Em zonas densamente povoadas ou urbanas, há ainda risco de acidentes com os próprios lançamentos, que podem ferir pessoas ou danificar infraestrutura.

Por isso, a Organização das Nações Unidas e outras instituições humanitárias defendem que os corredores terrestres são a forma mais eficaz e segura de levar ajuda a populações vulneráveis — especialmente em crises prolongadas, como a vivida pela população de Gaza.

Fundação criticada por abusos assume distribuição

Desde maio, a responsabilidade pela distribuição da ajuda humanitária foi transferida para a Gaza Humanitarian Foundation (GHF), uma entidade pouco conhecida e sem histórico em operações desse porte. A fundação é alvo de críticas por supostas ligações com os interesses militares israelenses e por sua atuação violenta.

Incidentes em centros de distribuição sob o controle da GHF resultaram na morte de mais de mil palestinos, segundo a ONU. “O tempo é curto. As pessoas estão morrendo de fome”, afirmou o presidente executivo da fundação, Johnnie Moore, que diz ter distribuído 1,5 milhão de caixas de alimentos no enclave.

As principais organizações humanitárias internacionais, incluindo a ONU, se recusam a trabalhar com a GHF. A porta-voz da UNRWA, Juliette Touma, denunciou que a agência possui 6 mil caminhões de alimentos e medicamentos retidos na Jordânia e no Egito desde março, sem autorização para cruzar a fronteira.

Ela ainda observou que, enquanto a GHF mantém quatro centros de distribuição, “a ONU e os humanitários tinham 400” antes de seus pontos de apoio serem fechados por Israel. A disparidade escancara as dificuldades logísticas e políticas para o funcionamento de uma rede de assistência eficaz.

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