Em uma corrida eleitoral marcada por debates sobre criminalidade e investimentos em segurança, Goiânia se aproxima da reta final da campanha com uma nova dinâmica política. Até o início desta semana, candidatos de diferentes correntes buscavam se destacar ao propor soluções para a violência, atuando em complemento ao estado. No entanto, o embate nacional e as movimentações para 2026 elevaram a temperatura da disputa, colocando em lados opostos dois dos principais nomes da direita.
A situação se intensificou quando Jair Bolsonaro decidiu apoiar um adversário do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), a quem chamou de “covarde”. Bolsonaro, que está inelegível, retomou as críticas às medidas de distanciamento social implementadas durante a pandemia e deixou claro que não há chance de apoio a Caiado em sua candidatura ao Palácio do Planalto. O governador, por sua vez, vinha tentando uma aproximação para garantir o apoio do PL na próxima eleição presidencial.
Além de elogiar publicamente o ex-presidente, o governador de Goiás marcou presença em ato de 7 de setembro, em São Paulo, cujo alvo principal foi o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes — um aceno de que estaria ao lado de bolsonaristas em pautas consideradas cruciais. Aliados do ex-presidente temem que a postura agressiva contra Caiado possa impactar na formação do palanque na sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva.
Empate técnico
Com a ofensiva em Goiânia, Bolsonaro tenta empenhar o capital político para dar força a um candidato que patina nas pesquisas, Fred Rodrigues (PL). No último levantamento da Quaest, divulgado no dia 17, ele estava em quarto lugar e marcava apenas 9%. Já o candidato de Caiado, Sandro Mabel (União), lidera com 24%, em empate técnico com Adriana Accorsi (PT), que tem 22%.
— Nós, na pandemia, fizemos o que tinha que ser feito. Fui contra governadores que falavam “fiquem em casa, a economia a gente vê depois”. Governador covarde! Governador covarde! O vírus ia pegar todo mundo, não tinha como fugir do vírus — gritou Bolsonaro em comício, ao lado de Rodrigues.
Na disputa pela prefeitura, ainda na frente do bolsonarista, aparece Vanderlan Cardoso (PSD), com 15%. Outros três postulantes também pontuam: Matheus Ribeiro (PSDB), 8%; Rogério Cruz (Solidariedade), 4%; e Professor Pantaleão (UP), 2%.
À imprensa local, Mabel preferiu não esticar a corda e tirar a responsabilidade de Bolsonaro sobre o ataque.
— Bolsonaro está em um momento em que fala o que sopram no ouvido dele. Então, essa é a visão dele hoje, e ele não tem mais raciocínio para lembrar de uma coisa ou de outra. O pessoal diz que ele tem que falar isso aqui, e ele repetiu o que o Fred está falando, ou alguma coisa parecida com isso — declarou Mabel.
De acordo com a colunista Bela Megale, Caiado se queixou a interlocutores e disse ainda que “Bolsonaro não tem jeito”.
Com a segurança pública dominando os debates, o PT escalou uma delegada para concorrer ao cargo — Adriana Accorsi. Já Mabel escolheu como vice a coronel Cláudia (Avante), que trabalha na Polícia Militar do estado, para reforçar o compromisso com a pauta. Os índices de queda da criminalidade de Goiás desde 2022, apontados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, têm sido repetidos nas propagandas eleitorais.
Não por acaso, Caiado é figura onipresente na campanha de Mabel, bem como a bandeira da integração de forças para garantir a segurança dos goianienses. O discurso é que a cidade precisa de “colaboração” para sufocar o crime organizado.
Em algumas peças de campanha, Mabel sequer se manifesta e os pedidos por votos partem somente de Caiado.
— Mabel tem pressa e precisa do seu voto no primeiro turno para iniciar os trabalhos — pede o governador, enquanto imagens do candidato à prefeitura são transmitidas.
A eleição de Mabel é considerada “fundamental” para Caiado continuar almejando o Palácio do Planalto. O candidato fala em integração com as polícias de Goiás e implantação de tecnologia para aprimorar o monitoramento da segurança:
Na cola de Mabel, Accorsi tenta construir um palanque sólido para o partido de Lula na capital de um estado no qual Bolsonaro levou a melhor em 2022. Caso passe para o segundo turno, a delegada já terá feito história, por ser a primeira mulher a avançar de fase em Goiânia.
A petista, que acumula experiência na Polícia Civil de Goiás, reforça propostas como a criação de um Conselho Municipal de Segurança Pública e a implementação de medidas como videomonitoramento, além de abordagens preventivas, um discurso que gera críticas de parte dos petistas:
— Vamos trabalhar de forma integrada com as Polícias Civil e Militar e a Guarda Civil Metropolitana para intensificar o patrulhamento. Iremos criar uma equipe dentro da Guarda Civil Metropolitana para focar na proteção das mulheres, especialmente no sistema de transporte coletivo. Também vamos concluir a troca dos 180 mil pontos de iluminação por lâmpadas de LED. Uma cidade bem iluminada é uma cidade mais segura.
Vanderlan Cardoso (PSD) completa a lista de favoritos. O plano de governo dele foca na prevenção e combate à violência, aumentando o poder da Guarda Municipal com mais efetivo.
Outro tema considerado prioritário é o trânsito. Segundo levantamento divulgado no ano passado pela plataforma Waze, Goiânia é a segunda capital brasileira em que houve maior piora do trânsito, no comparativo com 2022.
Na cidade com uma frota que supera 1,3 milhão de veículos, Mabel promete reorganizar vias arteriais e sincronização dos sinais.
Adriana Accorsi promete a criação de faixas exclusivas para circulação de transporte público. Vanderlan diz se inspirar em soluções de São Paulo para conter congestionamentos:
— Nossa proposta é fazer a faixa exclusiva para moto onde couber, onde houver espaço, como São Paulo fez.
Com informações de O Globo.





