A reaproximação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Davi Alcolumbre (União-AP) começa a produzir reflexos em um dos temas que mais contribuíram para o afastamento entre os dois: a disputa por uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF). Aliados próximos do presidente do Senado afirmaram ao blog da jornalista Bela Megale, no jornal O Globo, que ele mudou o tom em relação ao advogado-geral da União, Jorge Messias, e já admite apoiar uma eventual nova indicação do ministro à Corte.
A mudança ocorre poucos meses depois de Alcolumbre atuar em sentido contrário. Em abril, a resistência do senador ao nome de Messias esteve no centro da crise política que interrompeu o diálogo entre ele e Lula.
Agora, depois de aproximadamente três meses de distanciamento, os dois retomaram as conversas. Segundo aliados de Alcolumbre, o presidente do Senado já não demonstra a mesma disposição de trabalhar contra Messias caso Lula volte a escolhê-lo para uma vaga no Supremo.
O eventual apoio, porém, ainda não é considerado incondicional. A posição definitiva dependerá de como evoluirá a relação entre Lula e Alcolumbre nos próximos meses.
Indicação ao STF esteve no centro do rompimento
O nome de Jorge Messias tornou-se um dos principais pontos de tensão entre o Palácio do Planalto e o comando do Senado em abril.
Como presidente da Casa, Alcolumbre ocupa uma posição especialmente relevante no processo de escolha dos integrantes do Supremo. Embora seja prerrogativa do presidente da República indicar ministros para a Corte, cabe ao Senado analisar e decidir se aprova ou rejeita o escolhido.
O indicado precisa passar por uma sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, posteriormente, receber pelo menos 41 votos no plenário do Senado.
Foi justamente a articulação de Alcolumbre para dificultar a aprovação de Messias que contribuiu decisivamente para deteriorar sua relação com Lula.
A divergência extrapolou a discussão sobre o Supremo e abriu um período de aproximadamente três meses de afastamento político entre dois personagens fundamentais para a relação entre Executivo e Legislativo.
A retomada do diálogo ocorreu recentemente e teve como um dos primeiros assuntos justamente a crise provocada pela disputa em torno da indicação.
Na conversa de reconciliação, Lula e Alcolumbre começaram o encontro “lavando a roupa suja” e trataram diretamente das divergências acumuladas durante o período em que permaneceram afastados.
Reaproximação envolve também eleição presidencial
A reconstrução das pontes entre Alcolumbre e Lula não está limitada à disputa pelo Supremo. Ela ocorre em meio às articulações partidárias para as eleições de 2026.
Antes de os dois participarem de um jantar na residência do ministro Alexandre de Moraes, do STF, o presidente do Senado esteve envolvido nas negociações relacionadas ao posicionamento eleitoral da federação formada por União Brasil e PP.
Alcolumbre atuou para que o grupo mantivesse uma posição de neutralidade na disputa presidencial, evitando uma aliança com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato ao Palácio do Planalto.
A movimentação foi interpretada como parte de um processo de reaproximação com Lula, depois de meses de relações estremecidas.
O presidente do Senado ocupa uma posição estratégica nessa negociação. Além de comandar uma das Casas do Congresso, Alcolumbre exerce influência dentro do União Brasil e mantém interlocução com diferentes grupos políticos.
Nesse cenário, a mudança de postura em relação a Messias passa a ser mais um indicador da reconstrução da relação com o Planalto.
Messias volta às articulações no Executivo
Enquanto Alcolumbre reduz a resistência, o nome de Jorge Messias voltou a circular nas conversas dentro do Poder Executivo sobre futuras indicações ao Supremo.
O advogado-geral da União foi recentemente tema de uma nova reunião de Lula com ministros do STF, mostrando que sua eventual chegada à Corte continua sendo considerada pelo presidente.
A possibilidade recoloca no centro das articulações a capacidade do governo de construir uma maioria no Senado.
Uma indicação ao Supremo exige mais do que a escolha presidencial. O indicado depende do aval da maioria absoluta dos senadores, o que torna a relação com o presidente da Casa particularmente importante.
Alcolumbre tem instrumentos políticos e regimentais capazes de influenciar o andamento do processo, começando pelo calendário da análise da indicação.
Por isso, uma mudança efetiva de posição do senador poderia alterar significativamente o ambiente político para Messias caso Lula decida novamente escolhê-lo.
Apoio ainda depende da relação com Lula
Apesar dos sinais de distensão, aliados de Alcolumbre evitam tratar o apoio como uma decisão definitiva.
A disposição do presidente do Senado de respaldar Messias estará diretamente vinculada aos próximos capítulos de sua relação com Lula. A reconciliação abriu uma nova fase, mas as negociações políticas ainda estão em andamento.
O cenário é bastante diferente daquele registrado em abril, quando a movimentação para barrar o advogado-geral da União aprofundou o conflito entre os presidentes da República e do Senado.
Agora, o mesmo personagem que esteve no centro do rompimento pode se transformar em símbolo da reaproximação.
Para Lula, recuperar o diálogo com Alcolumbre significa também melhorar as condições políticas para futuras indicações ao Supremo e para outras pautas que dependem do Senado. Para o presidente da Casa, a retomada da interlocução restabelece um canal direto com o Planalto em um momento marcado pelas negociações eleitorais e pela reorganização das alianças nacionais.
O teste mais concreto dessa reconciliação poderá ocorrer justamente em torno de Jorge Messias. Se Lula voltar a indicar o advogado-geral da União ao STF e Alcolumbre abandonar a resistência demonstrada anteriormente, a votação no Senado poderá representar não apenas uma disputa por uma cadeira na Suprema Corte, mas também a consolidação de uma nova etapa na relação entre os dois presidentes.







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