O advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), é investigado pela Polícia Federal (PF) sob suspeita de receber antecipadamente minutas de decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pareceres sigilosos do Ministério Público Federal (MPF). Segundo a investigação, as informações teriam sido utilizadas para orientar estratégias processuais do escritório, incluindo a desistência de recursos antes da divulgação dos resultados dos julgamentos.
De acordo com informações publicadas pelo portal UOL, um dos principais interlocutores do advogado seria o procurador aposentado Antônio Carlos Simões Soares, também próximo a Flávio Bolsonaro. Ele é suspeito de repassar informações reservadas e até de combinar o conteúdo de manifestações do MPF com Tomaz.
A Polícia Federal também investiga a possível participação de outros intermediários, entre eles um funcionário da área de informática do STJ, que teria facilitado o acesso a documentos ainda não publicados.
Diante das suspeitas, o Superior Tribunal de Justiça informou que abriu uma investigação para apurar os possíveis vazamentos.
Procurador próximo de Flávio é suspeito de repassar informações
Antônio Carlos Simões Soares ocupou o cargo de subprocurador-geral da República, posto mais elevado da carreira do Ministério Público Federal, antes de se aposentar, em março deste ano.
Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, ele chegou a ser cotado para assumir a Procuradoria-Geral da República (PGR). Na ocasião, sua proximidade com Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz foi apontada como um dos fatores relacionados à possível indicação.
Agora, os investigadores suspeitam que Soares tenha utilizado sua posição para fornecer informações privilegiadas ao advogado, inclusive sobre o conteúdo de pareceres ainda não apresentados oficialmente.
A PF identificou sete casos em que o ex-subprocurador teria antecipado informações ou influenciado o teor de manifestações do MPF de acordo com os interesses defendidos por Tomaz.
O material foi encaminhado ao Ministério Público Federal para análise da competência judicial responsável por eventual investigação contra o procurador aposentado.
Enquanto ocupava o cargo de subprocurador-geral, Soares estaria sujeito à investigação perante o STJ. Com a aposentadoria, o entendimento atual é de que o procedimento deverá tramitar na primeira instância.
O UOL informou que não conseguiu contato com Antônio Carlos Simões Soares.
Minuta de decisão milionária teria sido recebida antes da assinatura
Um dos episódios examinados pela Polícia Federal envolve uma disputa judicial sobre um terreno em Brasília, onde funcionava a antiga Academia de Tênis.
O processo envolve as construtoras Attos Empreendimentos Imobiliários e HC Incorporadora, representadas por Willer Tomaz, e uma família de herdeiros que reivindica valores relacionados ao imóvel.
A disputa envolve R$ 176,4 milhões. O STJ reconheceu a existência de valores a serem recebidos pelos herdeiros.
Segundo a investigação, o escritório de Tomaz teve acesso à minuta de um acórdão em 16 de setembro, dois dias antes da assinatura oficial do documento, ocorrida no dia 18.
Antes da decisão do tribunal, as construtoras desistiram de um recurso que já estava incluído na pauta de julgamento.
A Polícia Federal apura se o acesso antecipado ao conteúdo da decisão influenciou a estratégia adotada pela defesa das empresas.
PF aponta desistência de recursos após acesso a resultados
Outro episódio citado pelos investigadores envolve o senador Weverton Rocha (PDT-MA), cliente de Willer Tomaz, em uma ação por danos morais contra a Editora Abril, responsável pela publicação da revista Veja.
O recurso estava previsto para julgamento na Quarta Turma do STJ em setembro de 2025.
Na noite anterior à sessão, tanto Weverton quanto a editora apresentaram pedidos de desistência dos recursos.
De acordo com a PF, o escritório de Tomaz já teria conhecimento do provável resultado do julgamento quando a decisão de desistir foi tomada.
Os investigadores consideram que o episódio pode indicar o uso de informações judiciais ainda não divulgadas para orientar decisões processuais.
Outros processos sob análise envolvem a disputa entre J&F e Paper pela Eldorado Celulose, o espólio de Cid Ferreira, fundador do extinto Banco Santos, e a Difusora Comunicação, empresa ligada ao próprio advogado.
A investigação busca esclarecer se houve acesso irregular a informações sigilosas e se esse conhecimento proporcionou vantagens processuais aos clientes do escritório.
Advogado também é investigado por suspeitas ligadas ao INSS
Willer Tomaz já havia entrado na mira da Polícia Federal em outra investigação, relacionada a suspeitas de lavagem de dinheiro proveniente de desvios de recursos de aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Em agosto, o advogado foi alvo de mandados de busca e apreensão. A suspeita investigada é de que ele teria participado da movimentação de recursos desviados em benefício do senador Weverton Rocha, também investigado.
A proximidade entre Tomaz e Flávio Bolsonaro ganhou destaque depois que o UOL revelou que ambos apareciam como beneficiários de uma mesma conta bancária no Santander, conforme documentos examinados pela PF.
A reportagem também apontou que o advogado custeou viagens do senador à Europa.
Defesa nega irregularidades e fala em desinformação
Procurado pelo UOL, Willer Tomaz rejeitou as suspeitas de acesso indevido a decisões judiciais e pareceres do Ministério Público Federal.
Em nota, o advogado “nega categoricamente ter obtido acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais ou pareceres sigilosos, assim como ter interferido ou ajustado o conteúdo de manifestações do Ministério Público Federal”.
A defesa também afirmou que todas as atividades profissionais foram realizadas dentro dos limites legais e das prerrogativas asseguradas à advocacia.
“Sua atuação profissional sempre observou a legislação e as prerrogativas profissionais da advocacia, pelos meios institucionais e processuais legítimos. As insinuações divulgadas são infundadas, distorcem o exercício regular da atividade profissional e configuram desinformação”, disse, em nota







Deixe um comentário