Um porteiro foi detido pela Polícia Militar na noite de sexta-feira (16), após participar de um panelaço durante a entrevista do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) ao Jornal Nacional, da TV Globo. O episódio ocorreu em um condomínio residencial na Ponta Verde, bairro nobre de Maceió, em Alagoas, e terminou com o trabalhador levado à Central de Flagrantes, acompanhado da panela utilizada na manifestação.
Segundo relatos de moradores, o funcionário participava do protesto na área interna do prédio quando policiais militares foram acionados por um motorista que passava pela rua e teria se desentendido com os manifestantes.
O porteiro foi o único participante conduzido à delegacia. Inicialmente, os policiais teriam alegado desacato, sob a justificativa de que o trabalhador demorou a abrir o portão para a entrada da equipe.
Na Central de Flagrantes, entretanto, a ocorrência foi registrada pelo delegado de plantão como perturbação do sossego, e não desacato. A panela utilizada pelo funcionário foi apreendida.
Moradores acompanharam o porteiro até a delegacia em solidariedade ao trabalhador. O procedimento foi encerrado por volta de 1h40 da madrugada de sábado (17).
🚨CONFUSÃO EM MACEIÓ | Trabalhador foi detido por participar de panelaço durante entrevista do candidato do PL ao Jornal Nacional; moradores denunciam ameaças de apoiador do senador e questionam ação policial https://t.co/zDHQivYMcz
— Agenda do Poder (@agendadopoder) October 17, 2026
Morador relata ameaças de apoiador de Flávio Bolsonaro
O episódio aconteceu durante uma série de panelaços realizados em diferentes cidades brasileiras enquanto Flávio Bolsonaro participava de uma entrevista ao Jornal Nacional, por volta das 21h30.
Em Maceió, o morador Felipe Verlaine relatou em um vídeo nas redes sociais que participava da manifestação com uma bandeira de Lula na área interna do condomínio quando o porteiro decidiu se juntar ao protesto.
Segundo Verlaine, outras pessoas também participavam do panelaço, tanto no edifício quanto na rua, quando um motorista identificado por ele como apoiador de Bolsonaro passou pelo local e começou a hostilizar os manifestantes.
“Tinha várias pessoas na rua fazendo, inclusive no prédio também. Eis que um cidadão bolsonarista estava vindo no carro, abaixou os vidros e começou a fazer gestos obscenos com dedo em riste, xingando todo mundo, ameaçando quem estava falando as coisas a favor do presidente Lula”, disse Verlaine.
O morador afirmou ter registrado em vídeo o momento em que o motorista fez ameaças diante do condomínio.
De acordo com seu relato, o homem parou o veículo e passou a dirigir ofensas aos participantes do protesto.
“Eu continuei balançando a bandeira, e o porteiro começou a bater com mais intensidade ainda a panela, para abafar aquela aquela baixaria toda.”
Veja, abaixo, o relato completo do morador em vídeo postado no Instagram:
Motorista teria tentado entrar no condomínio
Felipe Verlaine afirmou ainda que o motorista desceu do carro e se aproximou dos manifestantes em atitude ameaçadora.
Segundo ele, o homem passou a provocar os participantes, “dizendo que queria resolver aquilo na porrada”.
O morador disse que ele e o porteiro evitaram responder às provocações e permaneceram no interior do condomínio.
“Nós não demos valor a isso, porque é uma manifestação democrática, estávamos no nosso direito. Ele tentou até escalar a parede do prédio, mas ignoramos. Foi aí que ele chamou a polícia, que rapidamente chegou, entrou e já queria inclusive algemar o porteiro.”
Diante da chegada dos policiais, Verlaine afirmou ter subido ao apartamento para avisar os demais moradores e solicitar que registrassem a abordagem.
Ele contou que interfonou “para todo mundo que participava do panelaço para a gente ter vários registros”.
O morador também informou que procurou a polícia para denunciar as ameaças atribuídas ao motorista.
“Eu abri um boletim de ocorrência contra o cidadão, pois ele ameaçou a gente.”
Advogado questiona detenção e apreensão da panela
A condução do porteiro à delegacia foi criticada pelo advogado Welton Roberto, que estava na Central de Flagrantes acompanhado de alunos de um curso de Direito quando o trabalhador chegou.
Para ele, tanto a detenção quanto o registro da ocorrência por perturbação do sossego foram equivocados.
O advogado também questionou o fato de o motorista acusado de ameaçar os manifestantes não ter sido conduzido à delegacia.
“Por que só o trabalhador?”
Segundo Welton Roberto disse ao UOL, a justificativa apresentada para a detenção teria sido uma suposta demora do porteiro em permitir o acesso dos policiais ao condomínio.
“A polícia tentou entrar no prédio, e o porteiro, segundo o policial, demorou para abrir a porta e por isso foi levado como desacato”, diz, citando que recebeu informação de que o sargento que deteve o porteiro é bolsonarista.
A suposta preferência política do policial, mencionada pelo advogado, não foi confirmada pelas autoridades.
Welton Roberto também contestou a caracterização da ocorrência como perturbação do sossego.
“Para ter perturbação ao sossego precisaria ser depois das 10 horas da noite e ter um decibelímetro [aparelho que mede a pressão sonora] poder verificar se o som estava acima dos decibéis permitidos”, completa.







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