Quase todos os moradores da Favela de Acari, na Zona Norte do Rio, convivem com a certeza de que suas ruas irão alagar. Um levantamento do Instituto Decodifica, reportado pelo g1, mostra que 91,2% das famílias afirmam enfrentar enchentes frequentes. A pesquisa, que será apresentada nesta terça-feira (18) na Cas’Amazonia Brasil, em Belém, durante as atividades da COP30, também revela que 47,8% dos moradores precisaram adaptar suas casas — elevando pisos, construindo andares superiores ou criando barreiras improvisadas.
Foram ouvidas 726 pessoas na comunidade. Os dados fazem parte do relatório Retratos das Enchentes, que buscou medir os efeitos da crise climática sobre territórios vulneráveis. Entre os locais pesquisados no Rio, Acari aparece com alguns dos indicadores mais graves de danos, adoecimento, perdas financeiras e interrupção de serviços essenciais.
Chuvas de 2024 deixaram rastro de destruição
A favela, com aproximadamente 29 mil habitantes, foi uma das mais atingidas pelas chuvas de 2024. Cerca de 20 mil moradores tiveram suas casas invadidas pela água. Localizada em área de baixa altitude e cortada pelo Rio Acari, a comunidade sofre com assoreamento crônico, falta de saneamento e obras inacabadas, fatores que ampliam os efeitos das mudanças climáticas.
Os números do estudo revelam a dimensão do problema:
— 91,2% relataram alagamentos frequentes nas ruas
— 64,1% tiveram o domicílio invadido pela água
— Entre os atingidos, 81,4% registraram nível acima de 1 metro dentro de casa
— Nível da água na rua já passou de 1 metro para 89,3%
— 28,3% precisaram mudar de casa permanentemente
Além disso, 55% dizem que o medo das enchentes afeta o sono ou a concentração. Entre mulheres negras, 35% afirmam chorar frequentemente ou sempre em razão das chuvas.
Perdas materiais e danos estruturais acumulam prejuízos
As enchentes representam um impacto financeiro devastador. Segundo o levantamento, 84,1% dos moradores perderam móveis, eletrodomésticos ou bens pessoais. Outros 71,7% registraram rachaduras e danos estruturais, e 49,1% perderam documentos — o que dificulta o acesso a políticas públicas.
Os itens mais descartados após as enchentes foram sofás (64,9%), camas (62%) e colchões (60,6%), comprometendo conforto, higiene e dignidade. Em 2024, a associação de moradores relatou destruição em massa, com milhares de famílias desabrigadas.
O acesso a serviços essenciais também foi prejudicado: 56,2% ficaram sem transporte público e 50,4% tiveram atendimento de saúde interrompido. Como os principais equipamentos públicos ficam na entrada da favela — justamente a área mais vulnerável —, muitos moradores ficaram isolados.
Moradores adaptam casas por conta própria
Diante da ausência de obras estruturais, a adaptação passou a ser responsabilidade das famílias. Segundo o estudo, 47,8% modificaram suas casas. As principais ações foram:
— 52,6% elevaram o nível do térreo
— 22,8% construíram um segundo pavimento
Os efeitos na saúde são profundos. Após as enchentes, 48,5% dos moradores adoeceram. A dengue aparece em 36,6% dos diagnósticos; doenças de pele, em 12,1%; e a leptospirose, em 4,7%. Duas mortes foram registradas na comunidade em decorrência direta dos alagamentos de 2024.
Atuação do governo é mal avaliada pelos moradores
A pesquisa mostra que 35,8% dos moradores classificam como “péssima” a atuação governamental. Apenas 24,3% receberam algum tipo de auxílio financeiro, reforçando o cenário descrito por especialistas como privatização da adaptação climática — quando famílias arcariam sozinhas com medidas emergenciais para sobreviver.
O relatório aponta que, mesmo após o Ministério Público determinar o desassoreamento do Rio Acari em 2024, a medida não foi cumprida de forma adequada. A Prefeitura afirma que melhorias serão realizadas com recursos do Novo PAC, mas pouco avançou na prevenção de enchentes, como mostrou reportagem publicada no início deste ano.
Rio Acari, degradação e obras que não saem do papel
O Rio Acari percorre 21 km desde a Serra de Gericinó até seu encontro com o Rio Meriti. Ao longo do caminho, sofre com assoreamento, lixo e ocupação desordenada. Acari é descrita pelos pesquisadores como um território densamente povoado, autoconstruído e com infraestrutura precária.
Um trecho do relatório resume o cenário:
“O território é cercado por valões que recebem o esgoto doméstico sem tratamento […] e a descontinuidade das políticas públicas resulta em obras inacabadas.”
Em 2023, a Prefeitura anunciou a retirada de mais de 191 mil toneladas de resíduos do rio, mas o projeto mais amplo, que prevê a construção de bolsões de contenção, ainda não foi executado. Segundo o presidente da associação de moradores, Washington Rodrigo:
— Já houve cadastro das casas na margem do rio. Estamos aguardando confiantes.
Especialistas explicam causas do agravamento
O professor e especialista em afluentes da UERJ, Gandhi Giordano, aponta que até a construção de pontes contribui para o problema:
— A ponte sobre o rio, ela estreita o rio. Eles, para economizar nas pontes, eles aterram ou usam as laterais e as margens do rio para fazer a cabeceira da ponte. Com isso, eles reduzem a largura da ponte, a área da ponte. E com isso reduzem o custo, mas estreita o rio. A gente pode ver isso aos montes no Rio de Janeiro. E quando você estreita um rio, você favorece a inundação.
O arquiteto e urbanista Washington Farjado defende que o primeiro passo deveria ser retirar famílias das margens:
— É necessário reassentar as famílias que moram junto aos rios. Essa deveria ser a prioridade zero do Minha Casa, Minha Vida: tirar as famílias do risco.
Para o engenheiro Antonio Krishnamurti, o rio está “completamente sedimentado de lixo e vegetação […] o rio está cada vez mais estrangulado”.
Kennedy e outros territórios também sofrem com enchentes
Além de Acari, o estudo ouviu 718 famílias em quatro territórios do Rio e de Pernambuco: Acari e Kennedy (RJ), Passarinho e Dois Carneiros (PE). Em Kennedy, em Nova Iguaçu, também houve índices extremos:
— 84,9% relataram alagamentos frequentes
— 58,5% sofreram danos estruturais
— 61,3% perderam bens
— 25,5% perderam documentos
— 74,5% tiveram transporte público interrompido
— 57,5% fizeram modificações residenciais
— 27,4% receberam auxílio
— 54,7% avaliaram o governo como “péssimo”
A metodologia utilizada, chamada Geração Cidadã de Dados (GCD), combina escuta comunitária e análise territorial. O Instituto Decodifica, criado por jovens do Jacarezinho, atua há cinco anos em justiça climática e racial e expandirá o estudo para o Maranhão em 2026.






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