A Operação Segreto, que resultou na prisão de 21 policiais militares por extorsão, lista os diálogos gravados entre os suspeitos, que mostram a maneira como eles manipulavam as câmeras corporais e se divertiam com a presença dos fiscais da corporação.
As gravações, feitas pelas câmeras de um dos sargentos investigados, captaram conversas que revelam como os PMs planejavam e executavam os crimes sem medo de serem descobertos. Em um dos trechos, um policial afirma de forma contundente: “Se eu vou fazer m*, eu não vou usar a câmera. Eu vou filmar o meu próprio crime? Que p* é essa! Idiotice, cara. Não tem coerência.”
De acordo com os promotores, os policiais pertenciam ao 20º BPM (Mesquita) e realizavam um “tour da propina” em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Além de extorquir dinheiro dos comerciantes, eles também recolhiam bebidas e frutas. A denúncia inclui evidências de que os PMs arrecadavam propina em pelo menos 54 estabelecimentos.
As gravações destacam a naturalidade com que os policiais discutiam a arrecadação de propina, tratando-a como algo rotineiro. As conversas expõem o modus operandi dos envolvidos e a despreocupação com a fiscalização interna.
Sargento orienta colega como agir
Um dos PMs ensina para o colega que está na viatura qual deve ser a estratégia utilizada para não ser pego pela corregedoria da corporação.
“(…) Pra eu cobrar alguém, eu tenho que andar certo. Pra eu falar que eu vou usar câmera, eu tenho que estar certo, ciente que não tô cometendo nenhum crime, entendeu”, diz um sargento mais experiente dentro da viatura.
Percebendo que o colega poderia falar alguma coisa irregular, o outro sargento que estava no veículo imediatamente alerta: “Não tem que estar falando isso”.
Tranquilo quanto a sua impunidade, o sargento que abriu o ensina:
“Por isso que eu to usando câmera. Eu não tô cometendo nenhum crime. O dia que eu for cometer um crime, eu não vou usar câmera. Que idiotice”, afirmou.
Ainda preocupado com a exposição e sabendo que estava sendo gravado, o colega volta a tentar se proteger de possíveis irregularidades.
“Nem vai estar de serviço com o sargento **** (cita o próprio nome). O sargento **** não iria permitir isso.”
O diálogo segue:
Sargento 1: “Eu vou usar câmera sempre que eu não estiver cometendo crime. Vou usar, vou trocar a câmera sempre que eu não estiver cometendo crime”.
Sargento 2: “Tá enfatizando muito isso”.
Sargento 1: “É pra eles que eu tô falando. Tem que saber essa p*, que a gente não é idiota. Acha que o policial é idiota”.
Sargento 1: “Eles podem até parar de ficar me olhando, que não adianta. Eu não vou cometer crime com eles me olhando”.
Em determinado momento da conversa, o sargento menos preocupado comenta como ele imagina que é o monitoramento da corregedoria nas câmeras corporais dos policiais.
Para o PM, os fiscais não conseguem ver todas as câmeras ao mesmo tempo e que ele só seria pego se desse “o azar da câmera te ver na hora errada”.
Sargento 1: “Esse negócio aí, que ficam olhando lá no monitor, eles olham por amostragem. Não tem como olhar 50 mil. Vamos botar, 20 mil polícia, 10 mil. Não tem como olhar 10 mil polícia”.
Sargento 2: “O foco estava sendo Zona Sul, até porque as pessoas de maior poder aquisitivo estão lá. Só que agora eles abriram mais o leque para a Baixada e Niterói”.
Sargento 1: “Mas não tem como olhar todo mundo. É olhar por amostragem. ‘Vamos lá olhar o (cita o próprio nome) que tá bacana’. Olha aí três minutos e olha outro polícia”.
Sargento 1: “O f* é quando alguém dá o azar, esse é que o problema. Dá o azar da câmera te ver na hora errada. Não vão botar uma tropa, botar 10 mil polícia para olhar 10 mil polícia”.
Segundo a denúncia, os policiais envolvidos nesses diálogos são suspeitos de ter praticado os crimes de corrupção passiva, recusa de obediência e associação criminosa.
‘Tour da propina’ na Baixada Fluminense
A investigação contra os PMs envolvidos no cobrança de propinas na Baixada Fluminense após a suspeita de irregularidades praticadas pelos PMs na região.
“Diante dos primeiros indícios, a Delegacia de Polícia Judiciária Militar passou a realizar o monitoramento de agentes e conseguiu verificar não só que várias guarnições do referido batalhão [20º BPM] praticavam o crime, recolhendo valores do estabelecimento, mas, de fato, repetiam a mesma conduta em vários outros comércios de naturezas diversas”, informou o MPRJ.
Com informações do g1
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