A revista Piauí teve acesso a 125 mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro que detalham a organização de um encontro com garotas de programa, realizado em seu tríplex, para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Kassio Nunes Marques , no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, em 28 de fevereiro de 2025. As conversas envolvem sete pessoas que ajudaram a organizar a festa recepção, entre elas motoristas, um chef de cozinha, o mordomo e uma intermediária que agenciava garotas de programa.
As mensagens indicam que Vorcaro coordenou os preparativos e acompanhou a chegada dos convidados. Em uma conversa com o ex-diretor jurídico do Banco Master, Luiz Rennó, o banqueiro afirmou que estava “fazendo graça para ministro em SP”. Em outra, o mordomo Michael informou que havia cedido um quarto ao ministro e a cinco mulheres.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques nega ter trocado mensagens com Vorcaro ou solicitado algo ao banqueiro. Em nota, afirmou também que nunca autorizou terceiros a falar em seu nome.
Como as conversas vieram a público
O caso começou a ganhar repercussão em 15 de setembro de 2026, quando o site Metrópoles publicou diálogos entre Vorcaro e Rayanna, uma intermediária que agenciava garotas de programa. Nas conversas, ela mencionava um homem chamado Kassio e afirmava que uma mulher havia ficado com ele durante um encontro anterior.
Em 13 de outubro, o UOL publicou informações sobre a presença de cinco garotas de programa no tríplex do banqueiro. As novas mensagens obtidas pela piauí acrescentaram detalhes sobre os preparativos, a recepção dos convidados e a movimentação dentro do apartamento.
Segundo os registros, Vorcaro orientou a intermediária a pedir que as mulheres não levassem celulares. O mordomo também relatou que os convidados estavam impressionados com a localização e o apartamento.
Preparativos começaram dois dias antes
As conversas mostram que a organização começou em 26 de fevereiro. Na madrugada daquele dia, o desembargador Newton Ramos pediu ao agente de viagens de Vorcaro uma reserva no Hotel Fasano, no Itaim Bibi, para a noite de sexta-feira. Na mensagem, mencionou as iniciais “KN”, associadas a Kassio Nunes.
No mesmo dia, Vorcaro avisou ao chef José Maria Meira que faria um churrasco na sexta-feira. Na véspera do encontro, o cozinheiro comprou carnes, caviar e trufas. As despesas totalizaram R$ 21.121,90. Com os demais profissionais envolvidos, os gastos chegaram a aproximadamente R$ 27 mil.
Vorcaro também conversou com o amigo Kiko Sobrinho sobre o encontro e acionou o mordomo Michael para preparar o apartamento. Na sexta-feira, informou ao chef que seriam 15 convidados e pediu reforço no serviço.
Banqueiro acompanhou os detalhes do apartamento
Na manhã de 28 de fevereiro, Vorcaro reclamou de problemas nas automações do tríplex e pediu ajuda para resolver o funcionamento dos equipamentos. Também solicitou a retirada de um sofá da varanda e informou que o ar-condicionado havia parado de funcionar.
Às 14h04, um dos motoristas avisou que as mulheres estavam chegando e perguntou se poderia liberá-las para subir. Vorcaro autorizou a entrada. Mais tarde, orientou o funcionário a receber convidados que chegavam em um Ford Fusion preto.
Em uma mensagem enviada a Luiz Rennó, o banqueiro afirmou que estava “fazendo graça para ministro em SP”. Pouco depois, pediu ao mordomo que abrisse as janelas da sala, que considerava fechadas demais para receber os convidados.
Após acompanhar a chegada das pessoas, Vorcaro passou mais de cinco horas sem enviar novas mensagens relacionadas à festa nas conversas analisadas pela revista. Nesse intervalo, continuou tratando de questões financeiras do Banco Master.
Mensagens também registram problemas financeiros do Master
Na tarde daquele dia, Vorcaro recebeu uma mensagem de um contato atribuído ao ex-diretor do Banco Central Paulo Sergio Souza. O interlocutor informou que o banco estava utilizando R$ 800 milhões de recursos do depósito compulsório, valores que as instituições financeiras devem manter no Banco Central.
Vorcaro respondeu que a situação seria regularizada após o Carnaval e mencionou negociações para a venda de carteiras e novas captações.
À noite, o montante utilizado havia aumentado para R$ 1,25 bilhão, segundo uma mensagem enviada pelo executivo Alberto Felix de Oliveira Neto. Vorcaro questionou o aumento e, em seguida, escreveu a outro executivo, Angelo Silva, que pretendia demitir Alberto e voltar à gestão direta para tentar salvar a instituição.
Naquele momento, o banqueiro também contava com uma operação envolvendo o Banco de Brasília (BRB), destinada a injetar recursos no Master. O negócio seria anunciado no mês seguinte.
Relatos descrevem movimentação nos quartos e na piscina
As mensagens relacionadas à festa voltaram a aparecer com mais frequência à noite. Às 20h06, Vorcaro pediu ao mordomo que fosse até ele. No mesmo período, Michael relatou que um convidado queria mais chocolate e que havia recebido orientação anterior para não servir mais. Vorcaro respondeu: “Nunca mais faça isso”.
O relato da revista menciona que, na residência, havia chocolate convencional e também uma variedade feita com cogumelos alucinógenos. Entretanto, as mensagens não identificam qual produto estava sendo servido.
Às 20h56, Michael informou que havia emprestado um quarto ao ministro e a cinco mulheres, acrescentando que tentara ligar para pedir autorização, mas não conseguira falar com Vorcaro. Às 21h29, o banqueiro respondeu afirmativamente.
Em seguida, orientou o mordomo sobre quais quartos poderiam ser utilizados. Às 22h08, Michael relatou que os convidados estavam nus na piscina e informou que uma das mulheres havia passado mal e vomitado, mas já estava bem.
Mais tarde, o funcionário disse que o ministro não demonstrava pressa para ir embora e que havia comentado sobre prolongar o encontro. Às 23h15, Michael informou que ele estava se preparando para sair. Dois minutos depois, comunicou a partida.
Mordomo relata objetos encontrados após a saída
Às 23h24, Michael enviou a Vorcaro uma fotografia de três preservativos usados espalhados sobre um tapete. Na mensagem, afirmou que estava organizando o local para que a faxineira não precisasse lidar com os objetos.
Três minutos depois, o mordomo enviou outra imagem, desta vez de uma peça de roupa íntima encontrada entre o lençol e a fronha de uma cama. Vorcaro não respondeu ao comentário.
Na manhã seguinte, o banqueiro dispensou a faxineira Selma, informando que ela não precisava comparecer naquele dia.
Caso envolve outras conexões entre Vorcaro e o ministro
As mensagens foram divulgadas em meio a outros episódios que aproximaram o nome de Nunes Marques das investigações relacionadas ao Banco Master.
Cinco meses antes do encontro, o ministro havia desempatado, na Segunda Turma do STF, o julgamento do chamado caso Alcídia, relacionado a precatórios do setor sucroalcooleiro. Segundo a reportagem, mensagens mostram Vorcaro e seus advogados comemorando o resultado.
A revista também relata que, durante o período da festa, o Banco Master transferiu R$ 6,6 milhões, em 14 operações, à Consult Inteligência Tributária. Desse total, R$ 282 mil teriam sido repassados diretamente a Kevin Marques, filho do ministro. Outras mensagens indicariam que Vorcaro pagava a Kevin um salário mensal de R$ 500 mil.
A reportagem afirma ainda que a defesa do Master pediu, em três ocasiões, que o caso do banco ficasse sob a responsabilidade de Nunes Marques, em vez de André Mendonça.
Ministro nega ter recebido favores do banqueiro
Procurado pela Piauí, Kassio Nunes Marques recebeu perguntas sobre sua presença na festa, eventual pagamento a mulheres, possíveis conflitos de interesse e sua atuação como relator de processos relacionados ao Banco Master e como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em resposta, o ministro enviou uma nota na qual negou ter favorecido Vorcaro ou mantido contato direto com ele por mensagens.
“O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro”, afirmou.
A nota acrescenta que o ministro nunca autorizou ninguém a falar em seu nome e que não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros.






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