Dois casos de violência chocaram Copacabana, um dos principais cartões-postais do Rio, nas últimas semanas. No último sábado, Marcelo Rubim Benchimol, de 67 anos, foi agredido por assaltantes e ficou desacordado na calçada da Avenida Nossa Senhora de Copacabana. No dia 7 de outubro, o turista Gabriel Mongenot, de 23 anos, foi morto durante um ataque do grupo palestino Hamas na Praia de Copacabana.
Os crimes revelam a insegurança que assola o bairro, onde a maioria dos presos por furto ou roubo são reincidentes. Segundo dados da Secretaria de Governo do Rio (Segov), de janeiro a junho deste ano, foram feitas 70 prisões e apreensões de pessoas por esses delitos em Copacabana. Desse total, 48 eram adultos com passagem pela polícia e nove eram adolescentes reincidentes, o que representa 68,6% de reincidência.
O Programa Segurança Presente, que atua no bairro desde 2016, também registrou 32 foragidos da Justiça no primeiro semestre deste ano. Alguns dos capturados tinham uma extensa ficha criminal, com dezenas de anotações por furto, roubo e receptação. Um dos casos mais emblemáticos é o de Monique Suellen Pereira, de 32 anos, que foi presa duas vezes este ano pelos agentes do programa, somando 13 registros na sua Folha de Antecedentes Criminais (FAC).
De 1º de janeiro a 31 de outubro deste ano, os agentes do Segurança Presente abordaram um total de 12.439 pessoas, das quais, 2.543 possuíam antecedentes criminais. Segundo a assessoria de imprensa da Segov, as abordagens nem sempre confirmam a prática de crimes, embora os suspeitos estejam em áreas de maior incidência de roubos e furtos. Um dos quadriláteros mais perigosos se localiza entre as ruas Siqueira Campos e Bolívar, fechando o perímetro com a Rua Barata Ribeiro e Avenida Atlântica.
O secretário de Governo, Bernardo Rossi, afirmou que o Segurança Presente criou um trabalho de inteligência para atuar nas regiões onde existe o programa:
— A reincidência nas prisões levou o Segurança Presente a criar um trabalho de inteligência. Mapeamos os locais com maior incidência de furtos e quem são os suspeitos. Os policiais nem mais se surpreendem ao ver que o suspeito detido na semana passada, é novamente o preso de hoje. Talvez o nosso trabalho vá levar, num futuro próximo, à criação de mecanismos para ajudar a Justiça a manter os acusados presos por um maior período e, quem sabe, alterar as leis.
Na opinião do antropólogo e pesquisador do Laboratório de Análise de Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o coronel da reserva Robson Rodrigues, falta uma articulação entre as polícias Militar e Civil, Guarda Municipal e Segurança Presente. Ele ressaltou que, apesar das prisões de criminosos reincidentes, a Polícia Civil não vem investigando para identificar os autores dos crimes que ocorrem com frequência na região, como roubo e furto. Rodrigues critica a falta de monitoramento das redes sociais dos suspeitos, que são sempre os mesmos.
— Esse comportamento de matilha, no qual vários criminosos se juntam para atacar as pessoas que transitam nas ruas de Copacabana, tem um padrão. Da mesma forma, as ocorrências com uso de faca, que chamam atenção pela gravidade. É necessário um trabalho de inteligência, com todas as forças de segurança integradas. Sabemos que, por exemplo, o Segurança Presente não usa rádio. Se comunica por aplicativo com a PM. Todos sabem que o rádio é muito mais rápido. Outro exemplo: é de conhecimento geral que os criminosos não farão nada quando o policial estiver por perto. Então por que não se monitora pelas câmeras de segurança espalhadas no bairro e se monta um cerco? Tem que ter uma articulação, um comando único — analisou Rodrigues.
O antropólogo define o atual policiamento de Copacabana como uma “torre de Babel”:
— Na aparência, há muitos policiais na rua para que a população se sinta segura, mas, na estratégia, falta governança. Não adianta quantidade. É preciso qualidade. Não tem investigação da Polícia Civil, nem troca de informações entre as forças. Aí, cada um adota uma tática. O resultado acaba sendo nulo. A tendência é que haja um recorde de roubos e furtos de rua em Copacabana, apesar de todo o esforço do policiamento. Outro problema é que a polícia não sabe atuar na areia. Os bandidos sabem disso e atacam nesses locais — explicou o especialista em segurança.
Ele defende que exista um critério para abordagens, por exemplo, dos passageiros da linha de ônibus 474. Há muitos vídeos nas redes sociais em que pessoas descem do veículo e praticam assaltos em Copacabana ou em Botafogo:
— Nas ordens de operação da PM, por exemplo, há sempre as interceptações do ônibus da linha 474 (Jacaré-Copacabana). Mas não se pode generalizar, porque há trabalhadores, baderneiros, criminosos e o jovem que quer se divertir na praia. Não estou dizendo que é fácil, mas tem que ter um critério para essas abordagens, caso contrário, não haverá eficiência — comentou o coronel reformado, que já comandou o Batalhão de Policiamento Turístico (BPTur), principalmente em Copacabana.
O governador Cláudio Castro defende o policiamento de proximidade do Segurança Presente nos casos de criminosos reincidentes:
— Faz toda a diferença onde os agentes do programa atuam. Esse levantamento sobre reincidência desenvolvido pelo programa comprova que há pessoas que cometem uma série de delitos e que, por força da lei, ficam pouco tempo na prisão ou acabam em liberdade. Se a quantidade de detidos mostra a eficiência das forças de segurança, a repetição dos delitos mostra que é urgente tentarmos mudanças na legislação — disse o governador.
Com informações de O Globo
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