A Unidos de Vila Isabel escolheu um nome histórico e simbólico como enredo para o Carnaval de 2026: Heitor dos Prazeres. A escolha foi revelada neste sábado (10) durante uma roda de samba na Pedra do Sal, no Centro do Rio, marco da cultura afro-brasileira e reduto tradicional da herança negra na cidade. O tema, segundo os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, é resultado de uma longa pesquisa iniciada ainda em 2023, quando ambos estavam na Grande Rio.
Naquele ano, os dois assinaram uma instalação na rotunda do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), como parte de uma exposição dedicada à vida e obra de Heitor. Desde então, se encantaram com a força simbólica do artista e aprofundaram os estudos sobre sua contribuição ao samba, à arte e à história do país.
— A escolha do local tem total relação, porque a Pedra do Samba é um espaço muito importante para a gente pensar essas noções de pequenas Áfricas ou África em miniatura. E é um conceito muito importante para a gente entender os territórios sambistas. A memória das escolas de samba, a memória do carnaval da cidade, ranchos, blocos, cordões — diz Haddad.
Nascido em 23 de setembro de 1898, apenas dez anos após a abolição da escravatura no Brasil, Heitor dos Prazeres cresceu no coração da cultura popular carioca, na Praça Onze. Filho do marceneiro e clarinetista Eduardo Alexandre dos Prazeres e da costureira Celestina Gonçalves Martins, conviveu desde cedo com nomes fundamentais da música brasileira, como Ismael Silva, Pixinguinha, Nilton Bastos e Marçal.
Antes de se firmar como pintor, já era conhecido como sambista, compositor e dançarino. Heitor teve papel fundamental na criação das primeiras escolas de samba e tornou-se um cronista visual do carnaval e da vida urbana do povo negro, retratando em suas telas a alegria, a luta e o cotidiano das comunidades.
Com o anúncio, a Vila Isabel entra na disputa por um desfile que promete unir sensibilidade artística e potência histórica. A agremiação se soma a outras escolas que já revelaram seus enredos para o próximo ano.
O Paraíso do Tuiuti foi o primeiro a apresentar seu tema, focado em Lonã Ifá Lukumi, tradição religiosa afro-cubana que vem sendo redescoberta no Brasil, sob o comando do carnavalesco Jack Vasconcelos. A campeã de 2025, Beija-Flor de Nilópolis, homenageará o Bembé do Mercado, maior Candomblé de rua do mundo, celebrado há mais de um século em Santo Amaro da Purificação, na Bahia.
A Imperatriz Leopoldinense escolheu prestar tributo a Ney Matogrosso, artista consagrado por sua irreverência e contribuição à música brasileira. Já a Unidos do Viradouro vai celebrar o mestre Ciça, ícone das baterias e do samba carioca.
Por sua vez, a Grande Rio ainda não revelou oficialmente seu enredo, mas tem provocado os foliões nas redes sociais com indícios de que o desfile pode girar em torno do movimento cultural mangue beat, nascido nos anos 1990 em Pernambuco.





