Guibsom Romão
A Vila Isabel apresentou à Sapucaí um enredo que há anos já deveria ter atravessado a Avenida. Intitulado Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África, os carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad homenagearam Heitor dos Prazeres, um dos grandes nomes do samba carioca e também um importante pintor popular brasileiro.
O enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África” apresentou-se como um mergulho poético na trajetória de Heitor dos Prazeres, tomando o sonho como fio condutor para costurar samba e macumba, arte e religiosidade, memória e fabulação.
A narrativa não buscou uma biografia rígida, mas sim revelar Heitor como fabulador da própria existência: um artista negro que sonhou uma “África em Miniatura” no coração da Praça Onze e a traduziu em tintas, versos e batucadas. Ao exaltá-lo, a escola reafirmou as memórias negras do pós-abolição, reposicionou seu nome na história da arte brasileira e celebrou a inseparável ligação entre terreiros e quadras, defendendo que, como o próprio Heitor dizia, macumba era samba e o samba era macumba.
Dividido em setores guiados pelos diferentes nomes e títulos que marcaram as fases de sua vida, o desfile organizou a narrativa em universos simbólicos. O primeiro setor, “Príncipe Lino”, apresentou a infância na Pequena África, entre ranchos, terreiros e festas populares.
Em seguida, vieram os setores que mostraram o ogã e o homem de axé, o sambista-fundador das primeiras escolas, o parceiro de bambas e cronista do cotidiano negro carioca. Outros momentos destacaram o multiartista: pintor, figurinista, marceneiro, compositor e pensador da modernidade negra, até alcançar o clímax com o sonho da África concretizado na viagem a Dakar. Assim, cada setor traduziu um nome, uma faceta e um tempo de Heitor, compondo um percurso que misturou memória, resistência e encantamento, como um grande sonho coletivo desfilado na Avenida.
A comissão de frente, sob o comando de Alex Neoral e Márcio Jahu, traduziu poeticamente o argumento central do enredo, sendo a mistura entre samba e macumba, sob os olhos encantados de Heitor dos Prazeres. A comissão apresentou um tripé que se transformou em palco, bandeja de aquarela, levantou a coroa da escola e tambores iluminados surgiram.
O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane, de volta à escola após alguns anos por outras agremiações, vieram fantasiados de Xangô e Oxum, orixás de cabeça de Heitor dos Prazeres e forças que guiaram a sua trajetória, conforme o narrado por seus familiares. Simbolizaram, também, o encontro entre a Vila Isabel, pelo pavilhão desfraldado, e o homenageado, já que ambos os orixás têm fortes vínculos com a escola: Oxum, representada por Dandara, com saia adornada por espelhos (abebês) e pincéis, é sincretizada com Nossa Senhora da Conceição, padroeira da agremiação; e Xangô, representado por Raphael, foi assentado no Morro dos Macacos por Tia Cirene, antiga mãe de santo da escola. As apresentações diante dos módulos foram potentes e com certeza de boas notas.
Com mais uma rainha de bateria imensamente celebrada pela Avenida toda, a Swingueira de Noel, bateria da escola, é conduzida por Sabrina Sato vestida de ‘As tintas do artista’, em um figurino todo colorido com penas volumosas.
‘Entre Ranchos e Balangandãs: No “Pedaço Baiano”, a Praça Onze do Príncipe Lino’ é o nome do carro abre-alas que transformou a Marquês de Sapucaí numa viagem onírica à antiga Praça Onze, território mítico onde cresceu Heitor dos Prazeres, o Príncipe Lino, entre ranchos, capoeira e as tradições trazidas pelas famílias baianas no pós-abolição. A alegoria causou impacto e boa impressão com seu acabamento extremamente detalhado e primoroso, candidata fortíssima ao melhor carro abre-alas do ano.
O conjunto de fantasia é um grande destaque do desfile, os carnavalescos apresentaram uma paleta de cores diversificada e com concepções extremamente criativas.
Com um desfile coeso do primeiro ao último setor, sustentado por um samba arrebatador, fantasias inventivas e alegorias de acabamento primoroso, a Vila Isabel transformou o sonho de Heitor dos Prazeres em um grande manifesto estético e identitário na Avenida.
Ao entrelaçar arte, religiosidade e memória negra com segurança narrativa e potência visual, a escola de Noel Rosa não apenas emocionou a Sapucaí, mas também se firmou, com autoridade, como uma das mais sólidas candidatas ao título de 2026.






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