Em meio às críticas de que o Carnaval estaria cada vez mais moderno e distante das origens do samba, a Unidos de Vila Isabel decidiu olhar para trás e fazer um resgate do passado. No desfile deste ano, a escola vai levar para a Marquês de Sapucaí instrumentos que marcaram as primeiras décadas do samba e que hoje quase não aparecem mais na Avenida.
Além da formação tradicional da bateria, a Swingueira de Noel, comandada pelo mestre Macaco Branco, vai incorporar ganzás (chocalhos), agogôs de duas bocas e tamborins quadrados de madeira — modelo associado às rodas de samba da época de Heitor dos Prazeres.
A Vila Isabel será a segunda escola a desfilar na terça-feira (17) com o enredo “Macumbembê, Samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África”, assinado pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora. A proposta é celebrar a ancestralidade africana e a trajetória de Heitor, um dos nomes centrais na consolidação do samba carioca.
Inspiração nas obras de Heitor dos Prazeres
A ideia de usar os instrumentos partiu do mestre Macaco Branco e da assistente Thalita Santos e surgiu durante o processo de pesquisa para o enredo. Segundo integrantes da bateria, a proposta nasceu após visitas a exposições sobre Heitor dos Prazeres, onde o tamborim quadrado aparece retratado em diversas obras do artista.
A partir daí, a equipe iniciou a busca por um artesão que pudesse reproduzir os instrumentos com fidelidade histórica. O trabalho ficou a cargo de um luthier de Minas Gerais, especializado na confecção artesanal de instrumentos tradicionais.
Diferentemente dos modelos atuais, os tamborins resgatados não utilizam sistemas modernos de afinação. Antigamente, a pele de couro era tensionada no calor — muitas vezes aquecida no fogo com pedaços de jornal — para alcançar o som ideal antes do desfile.
A escola estuda, inclusive, repetir simbolicamente o ritual de aquecimento ainda na concentração, antes de entrar na Avenida.
Sem número especial
Os instrumentos não aparecerão como um “momento especial” isolado. A proposta é que eles integrem a bateria ao longo do desfile, reforçando a identidade sonora da escola.
Pelo menos 35 ritmistas devem utilizar os tamborins quadrados em diferentes trechos do samba, recriando o chamado “telecoteco” — batida característica associada às primeiras formações do samba urbano.
A aposta da azul e branca é que o som mais seco e orgânico ajude a construir a atmosfera histórica pretendida pelo enredo, aproximando o público das raízes do gênero.






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