* Paulo Baía
As grandes observações sobre uma época raramente nascem em tratados volumosos ou em construções teóricas excessivamente sofisticadas. Muitas vezes, surgem de uma frase lançada ao mundo por alguém que ainda preserva um compromisso com a inteligência e com a dignidade das palavras. Foi exatamente isso que aconteceu quando a jornalista Cristina Serra, movida por uma irritação legítima diante da pobreza da linguagem jornalística, escreveu que tudo agora gera “desconforto”. Sua observação, carregada de humor e de fina ironia, possuía a força das ideias simples que, ao tocarem um detalhe aparentemente banal, acabam iluminando um cenário muito mais amplo.
Cristina Serra percebeu algo que escapava à maioria. Percebeu que o problema não era apenas uma palavra desgastada pelo uso excessivo. O problema era a lenta substituição da realidade por uma linguagem excessivamente delicada, incapaz de suportar o peso dos acontecimentos. “Alguém me explique, por favor, quando foi que ‘gerar desconforto’ virou muleta para texto jornalístico preguiçoso?”, perguntou ela. E a pergunta continha mais do que uma crítica à escrita burocrática. Continha uma interrogação sobre o próprio espírito do nosso tempo.
Há palavras que nasceram para os grandes dramas e outras destinadas aos pequenos aborrecimentos da vida cotidiana. Durante décadas, “desconforto” ocupou com discrição o seu lugar no mundo. Frequentava consultórios médicos, descrevia um nariz entupido, uma cadeira mal projetada, um sapato apertado ou os excessos de uma refeição. Era uma palavra respeitável e modesta. Nada indicava que um dia deixaria os domínios da fisiologia para ascender aos salões da República.
Mas as palavras também possuem biografia. E, como acontece com os seres humanos, algumas delas são vítimas de inesperadas promoções.
Foi assim que “desconforto” abandonou a tranquilidade dos consultórios e se instalou em Brasília. A pequena palavra passou a frequentar os palácios, a circular pelos corredores do Congresso, a visitar o Supremo Tribunal Federal e a aparecer diariamente nas manchetes. Desde então, ministros já não entram em conflito com parlamentares. Produzem desconforto. Governantes já não cultivam hostilidades. Geram desconforto. Presidentes de Poderes já não travam disputas. Causam desconforto. Ameaças transformam-se em desconfortos. Ressentimentos transformam-se em desconfortos. Intrigas transformam-se em desconfortos. Como se a vida política pudesse ser explicada pela mesma palavra que, em outros tempos, servia para designar os efeitos de um almoço excessivamente generoso.
Foi a sensibilidade intelectual de Cristina Serra que percebeu a estranheza desse fenômeno. Sua observação ultrapassa o comentário espirituoso e alcança algo mais importante. Ela revela uma característica do tempo em que vivemos. Nunca houve tanta informação, tantos especialistas, tantos comentaristas e tantos produtores de conteúdo. E, no entanto, nunca a linguagem pareceu tão receosa dos substantivos vigorosos. Os fatos já não assustam tanto quanto as palavras capazes de descrevê-los.
Essa transformação não é apenas uma questão de estilo. Existe nela uma dimensão sociológica. As sociedades também se revelam através das palavras que escolhem e, sobretudo, através das palavras que abandonam. Quando uma época começa a desconfiar dos nomes exatos, algo se altera em sua relação com a realidade. Crises tornam-se ruídos. Fracassos convertem-se em desafios. Mentiras passam a ser chamadas de narrativas. E os conflitos, como observou Cristina Serra, são empurrados para dentro da confortável e imprecisa categoria do desconforto.
Nada disso elimina os fatos. As disputas continuam movendo homens e mulheres. As ambições continuam seduzindo os que exercem o poder. Os ressentimentos continuam povoando os bastidores. As ameaças continuam produzindo consequências. As intrigas continuam atravessando os corredores da República. A história continua sendo escrita por interesses contraditórios e por paixões humanas. O que se altera é a capacidade de reconhecer os acontecimentos em toda a sua intensidade.
Por isso, a observação de Cristina Serra merece ser lida com a importância que possuem as boas ideias. Sua crítica não se dirige apenas a um cacoete da imprensa. Ela representa uma defesa da dignidade das palavras. Representa uma recusa diante da preguiça intelectual. Representa uma resistência à névoa dos eufemismos. E representa, acima de tudo, uma defesa do direito que a realidade possui de ser chamada pelo nome que lhe corresponde.
As palavras nunca nasceram para proteger os acontecimentos. Nunca foram inventadas para servir de almofadas semânticas destinadas a suavizar os conflitos da vida pública. As palavras existem para iluminar, distinguir e revelar. Nomear é compreender. Nomear é retirar os fatos das sombras. Nomear é impedir que a confusão triunfe sobre a inteligência.
É por isso que a observação de Cristina Serra possui um alcance que ultrapassa o jornalismo e alcança a própria vida em sociedade. Porque uma coletividade não começa a se perder quando lhe faltam palavras. Uma coletividade começa a se perder quando as palavras, mesmo abundantes, deixam de honrar a razão de sua existência.
Cristina Serra tinha razão.
Desconforto continua sendo uma palavra digna e respeitável. Serve para um nariz entupido, para um sapato apertado ou para certas imprudências gastronômicas. Mas a República sofre de outros males. Sofre de ambições e ressentimentos. Sofre de hostilidades e disputas. Sofre de intrigas, de ameaças e de conflitos. Sofre dos dramas que acompanham homens e mulheres desde que descobriram a sedução e as tragédias do poder.
E as palavras, pobres e magníficas palavras, nasceram justamente para dizer isso. Porque nenhuma democracia se fortalece na penumbra dos eufemismos, e nenhuma inteligência coletiva floresce quando a linguagem, tomada pelo medo ou pela excessiva delicadeza, abandona a antiga e nobre coragem de dizer o mundo.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

Deixe um comentário