Vídeos mostram escalada de protestos no Irã que desafiam liderança de Ali Khamenei

Crise econômica, repressão policial e tensão com os EUA alimentam maior onda de manifestações desde 2009

A onda de protestos que tomou as ruas do Irã entrou em uma fase mais tensa e violenta, comconfrontos, prédios incendiados, carros destruídos e palavras de ordem cada vez mais direcionadas ao núcleo do poder político e religioso do país. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram cenas de caos em Teerã e em outras cidades, enquanto o regime do aiatolá Ali Khamenei endurece a repressão e amplia o bloqueio de informações.

Com base em dados de agências internacionais e organizações de direitos humanos, as manifestações começaram no fim de dezembro, motivadas inicialmente pela grave crise econômica. Em 2025, a moeda iraniana, o rial, perdeu cerca de metade de seu valor frente ao dólar, e a inflação ultrapassou 40% em dezembro, pressionando o custo de vida e provocando indignação popular.

Com o passar dos dias, porém, o foco dos protestos se ampliou. Diante da repressão policial e do aumento no número de mortos e presos, manifestantes passaram a exigir diretamente a renúncia do líder supremo, no poder desde 1989. Trata-se da maior mobilização contra o governo iraniano desde os protestos de 2009.

Acusações de Khamenei e ataque verbal a Trump

Em pronunciamento recente, Ali Khamenei acusou os manifestantes de agirem a serviço de interesses estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos.

“Na noite passada, em Teerã, um grupo de vândalos e arruaceiros veio e destruiu um prédio que pertencia ao Estado, ao próprio povo, apenas para agradar o presidente dos Estados Unidos”, afirmou.

O líder supremo também criticou diretamente Donald Trump, dizendo que os manifestantes estariam “destruindo as próprias ruas para agradar o presidente de outro país” e aconselhando o chefe da Casa Branca a “cuidar do seu próprio país”.

Protestos se espalham pelo país

De acordo com a agência AFP, atos já foram registrados em 25 das 31 províncias iranianas. Imagens verificadas pela própria AFP mostram multidões nas ruas entoando slogans como “é a batalha final, Pahlavi voltará”, em referência à dinastia derrubada pela Revolução Islâmica de 1979, e “Seyyed Ali será destituído”, em menção direta a Khamenei.

Organizações de direitos humanos estimam que mais de 60 pessoas morreram até agora, incluindo membros das forças de segurança. O número pode ser maior, já que o Irã enfrenta um corte de internet em escala nacional, segundo a ONG Netblocks, o que dificulta a checagem independente das informações.

Quarta-feira sangrenta e repressão

A ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, afirma que ao menos 45 manifestantes morreram, entre eles oito menores de idade. A quarta-feira (7) foi apontada como o dia mais sangrento, com 13 mortos, além de centenas de feridos e mais de 2 mil detenções.

As autoridades iranianas intensificaram a repressão na quinta-feira (8), quando os protestos chegaram ao 12º dia consecutivo. Carros e edifícios foram incendiados em Teerã, e forças de segurança ampliaram as operações para dispersar os atos.

Tensão crescente com os Estados Unidos

A crise interna também agravou as já delicadas relações entre Irã e Estados Unidos. Donald Trump afirmou que não tolerará a morte de manifestantes e ameaçou uma resposta dura caso isso ocorra.

“Se começarem a matar pessoas, nós os atingiremos muito duramente”, disse o presidente norte-americano em entrevista ao radialista conservador Hugh Hewitt.

Khamenei reagiu chamando Trump de “arrogante” e acusando-o de ter as mãos “manchadas com o sangue de mais de mil iranianos”, em referência aos bombardeios contra instalações nucleares iranianas realizados em 2025.

Apelo por diálogo

Em meio à escalada da violência, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pediu “máxima moderação” das forças de segurança e defendeu o diálogo com a população, afirmando que é necessário ouvir as “reivindicações do povo”.

As manifestações atuais lembram, em escala e intensidade, os protestos de 2022, desencadeados após a morte de Mahsa Amini, jovem presa por supostamente violar as rígidas normas de vestuário impostas às mulheres. Agora, contudo, a insatisfação popular parece ainda mais profunda, combinando crise econômica, repressão política e contestação direta à liderança do regime.

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