Um dos depoimentos mais aguardados no Supremo Tribunal Federal (STF) no Caso Marielle ocorrerá nesta quarta-feira (9): o do general Richard Nunes. O militar foi secretário de Segurança Pública durante a intervenção federal no Rio de Janeiro, quando a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados, em 14 de março de 2018. O depoimento de Nunes é crucial para esclarecer se o delegado Giniton Lages, responsável pelas investigações na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), repassava informações com precisão ao general em reuniões semanais.
Segundo a coluna Segredos do Crime, da jornalista Vera Araújo, do Globo, Giniton Lages declarou ao STF que já estava investigando o assassino confesso Ronnie Lessa antes de receber uma ligação anônima em 15 de outubro de 2018, que sugeria que “um perneta” teria sido o executor da parlamentar.
Embora os advogados do ex-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa — apontado pela Polícia Federal como mentor intelectual do duplo homicídio — tenham solicitado o depoimento de Richard Nunes, o ex-secretário de Segurança Pública não havia comparecido espontaneamente.
Assim, coube ao ministro do STF, Alexandre de Moraes, determinar a intimação do general, que atualmente ocupa o cargo de chefe do Estado-Maior do Exército, para depor na ação penal contra os mandantes do crime. Além de Barbosa, também são réus os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, que ocupam posições como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) e deputado federal, respectivamente.
Foram oferecidas algumas datas ao militar, que escolheu esta quarta-feira, a partir das 13h, pois fará uma viagem internacional, segundo o STF. Seu depoimento ocorrerá por videoconferência, como têm sido as sessões do Caso Marielle. Os três réus estão em presídios federais espalhados pelo país.
Richard é uma peça crucial tanto para a defesa de Rivaldo quanto para Giniton Lages, uma vez que o ex-chefe de Polícia Civil é acusado de ajudar a planejar o crime e, de acordo com a denúncia, orientou os mandantes a não executar Marielle na frente da Câmara dos Vereadores. Essa informação consta na delação premiada de Ronnie Lessa. No caso de Giniton, que não foi denunciado, mas apontado pela Polícia Federal como responsável por criar obstáculos à investigação, o depoimento do general Richard deverá revelar se o delegado prestava algum tipo de auxílio que dificultasse a busca por provas e culpados.
Giniton e as promotoras Simone Sibílio e Letícia Emile, do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público (MPRJ), foram responsáveis pela prisão do assassino confesso Ronnie Lessa e de Élcio de Queiroz, que dirigiu o carro durante a emboscada a Marielle, em 12 de março de 2019. No entanto, a prisão em conjunto só foi possível após uma mudança de rumos no caso.
No dia 17 de outubro de 2018, as promotoras, o procurador-geral de Justiça interino, Ricardo Martins, e o general Richard se reuniram na sede do MPRJ para discutir os rumos da investigação, sem a presença de Giniton Lages, devido a desconfianças em relação ao que o delegado repassava. Já nessa época, houve o desaparecimento de imagens cruciais, como as do condomínio Floresta, no Itanhangá, onde ficava a base do Escritório do Crime, no dia do assassinato de Marielle e Anderson.
No encontro, por exemplo, o MP do Rio não tinha conhecimento da denúncia anônima à DHC, que indicava Ronnie Lessa como executor da parlamentar. Richard poderá responder se ele próprio sabia dessa ligação à delegacia, o que é pouco comum, uma vez que as denúncias normalmente chegam pelo canal do Dique Denúncia.
Lessa e Élcio são ex-policiais militares e assinaram um acordo de colaboração premiada, incentivados pela Polícia Federal, com o acompanhamento do Ministério Público do Rio e da Procuradoria-Geral da República.





