A crescente pressão dos Estados Unidos sobre Cuba nas últimas semanas voltou a colocar o Caribe no centro das tensões geopolíticas internacionais. Em meio ao agravamento da crise econômica cubana e ao endurecimento da política externa do presidente Donald Trump, integrantes do governo dos EUA passaram a sinalizar, de forma cada vez mais explícita, a possibilidade de uma ação militar contra a ilha.
A escalada ganhou força após o governo dos Estados Unidos anunciar, no último dia 20 de maio, o indiciamento formal de Raúl Castro, irmão de Fidel Castro e ex-presidente cubano. Aos 94 anos, Castro ainda exerce forte influência política dentro da política cubana e passou a ser acusado pelos EUA de envolvimento direto na derrubada de duas aeronaves da organização de exilados Irmãos ao Resgate, em 1996.
Trinta anos depois do episódio, os EUA atribuíram a Raúl Castro quatro acusações de homicídio, dois crimes de destruição de aeronave e um crime de conspiração para matar cidadãos estadunidenses.
No mesmo dia em que o indiciamento foi anunciado, Washington confirmou a chegada do porta-aviões USS Nimitz à região do Caribe, movimento que elevou ainda mais a tensão diplomática.
A combinação entre pressão militar, sanções econômicas e ameaças públicas de Trump passou a alimentar comparações com a invasão realizada pelos Estados Unidos à Venezuela no início do ano, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Agora, especialistas em relações internacionais avaliam que Cuba entrou definitivamente no radar estratégico da Casa Branca.
Debate jurídico divide especialistas
Apesar do aumento da pressão política e militar, uma eventual ofensiva dos EUA contra Cuba enfrenta obstáculos no direito internacional.
Especialistas ouvidos pelo portal g1 afirmam que as justificativas atualmente apresentadas por Washington não seriam suficientes para legitimar uma intervenção militar unilateral segundo as regras estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Uriã Fancelli, mestre em relações internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, afirma que a Carta da ONU só autoriza o uso da força em duas hipóteses: legítima defesa após um ataque armado ou autorização formal do Conselho de Segurança.
Segundo ele, o simples fato de Cuba ser um regime considerado “autoritário” pelos EUA não bastaria para justificar uma operação militar. Fancelli ressalta que o cenário seria diferente caso os Estados Unidos alegassem legítima defesa diante de um ataque cubano contra interesses estadunidenses, como a base de Guantánamo ou embarcações militares.
“Se ele diz: ‘Vamos atacar Cuba porque Cuba é um regime autoritário, porque tem relações com a China ou com a Rússia’, aí isso não se configuraria como legítima defesa”, diz.
O especialista também criticou o tom das ameaças públicas feitas por Trump.
“Os Estados Unidos podem sancionar Cuba, denunciar violações e pressionar diplomaticamente. Mas isso não significa necessariamente que possam ficar fazendo ameaças de agir militarmente”, afirma.
Pressão econômica não produziu efeito esperado
Segundo a imprensa estadunidense, o governo Trump trabalha com o objetivo de promover uma mudança de regime em Cuba até o fim deste ano.
Nos últimos meses, Washington ampliou sanções econômicas contra Havana e intensificou restrições ao envio de petróleo para a ilha, agravando a crise energética enfrentada pelo país.
Ainda assim, integrantes da própria Casa Branca passaram a reconhecer que a estratégia econômica não produziu os resultados esperados.
Reportagem publicada pelo site Politico em 18 de maio revelou que assessores próximos a Trump passaram a considerar seriamente uma operação militar contra Cuba diante da resistência do governo cubano.
“A ideia inicial sobre Cuba era que a liderança estava fraca e que a combinação de uma aplicação mais rígida das sanções (…) e vitórias militares claras dos EUA na Venezuela e no Irã assustaria os cubanos e os levaria a fechar um acordo”, disse uma fonte ligada ao governo estadunidense ao site.
“Agora, a situação no Irã saiu dos trilhos, e os cubanos estão se mostrando muito mais resistentes do que se imaginava inicialmente. Por isso, uma ação militar agora está sobre a mesa de um jeito que antes não estava.”
Risco de guerra e resistência armada
Especialistas apontam que uma eventual ofensiva dos EUA contra Cuba poderia encontrar um cenário muito diferente daquele registrado na Venezuela.
Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, afirma que Cuba possui uma tradição militar consolidada e quadros experientes em conflitos internacionais.
“Se realmente os americanos obtivessem um sucesso militar imediato, o que restaria ao Estado cubano seria uma guerra de guerrilha: ir para o interior do país, abandonar as grandes cidades e lançar uma guerra contra uma eventual ocupação americana”, afirma.
Segundo Santoro, o histórico militar cubano pode elevar significativamente os riscos de um conflito prolongado.
“Cuba tem militares experientes, veteranos das guerras africanas, em Angola e na Etiópia. Então existe possibilidade de um choque muito violento com os Estados Unidos”.
Ao mesmo tempo, a proximidade geográfica entre os Estados Unidos e Cuba poderia favorecer uma ação rápida. A Flórida está a menos de 300 quilômetros da ilha, enquanto os estadunidenses mantêm presença militar permanente em Guantánamo, onde construíram uma enorme prisão.
Além disso, o posicionamento do USS Nimitz no Caribe amplia a capacidade operacional dos EUA na região.
Entre os cenários avaliados estaria uma operação para capturar Raúl Castro e o presidente Miguel Díaz-Canel, levando ambos aos Estados Unidos, nos moldes da ação realizada anteriormente contra Nicolás Maduro.
O procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, reforçou essa possibilidade ao afirmar, na quarta-feira (20), que Raúl Castro comparecerá aos Estados Unidos “por vontade própria ou de outra forma”.
Casa Branca busca alternativa política
Outro desafio para Washington seria encontrar uma liderança cubana capaz de assumir o controle do país após uma eventual intervenção.
Em entrevista à GloboNews, o professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, afirmou que os sinais de uma possível operação militar aumentaram, mas ainda não existe clareza sobre o cenário político posterior.
Segundo ele, a experiência recente na Venezuela mostrou que os EUA preferem construir alianças locais que permitam manter influência política sem necessariamente desmontar totalmente a estrutura do regime anterior.
“O ideal do ponto de vista de Washington seria encontrar uma pessoa capaz de substituir a atual liderança política, o presidente Díaz-Canel, e transformar Cuba em um país alinhado aos Estados Unidos, facilitando também acordos econômicos, comerciais e investimentos americanos”, afirma.
Stuenkel também observa que uma ofensiva contra Cuba poderia ser explorada politicamente por Trump junto ao eleitorado conservador dos EUA, especialmente entre exilados cubanos e grupos da Flórida historicamente alinhados ao Partido Republicano.
Ainda assim, ele faz um alerta sobre os riscos de uma ocupação malsucedida.
“Mas tudo dependerá do que acontecer depois de uma eventual atuação militar. Uma coisa é fragilizar um país. Outra é estabilizá-lo da forma esperada.”
Irã ainda aparece como prioridade
Apesar do aumento das tensões envolvendo Cuba, parte dos analistas acredita que a Casa Branca ainda trata a crise com o Irã como prioridade imediata.
O próprio Donald Trump indicou essa possibilidade neste mês ao comentar publicamente a situação cubana.
“Cuba tem problemas. Vamos terminar uma coisa primeiro. Gosto de terminar um trabalho”, afirmou em 1º de maio.
Para especialistas, a fala reforça a percepção de que Cuba permanece no radar estratégico da Casa Branca, mas que uma eventual decisão militar dependerá da evolução simultânea de outras crises internacionais enfrentadas pelos Estados Unidos.





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