A Polícia Federal identificou no celular do banqueiro Daniel Vorcaro um grupo de WhatsApp que, segundo os investigadores, teria sido utilizado para orientar funcionários do Banco Master na elaboração de documentos considerados fraudulentos em operações bilionárias envolvendo o Banco Regional de Brasília (BRB). As informações constam em investigação revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo.
De acordo com a reportagem, os diálogos ocorreram em um grupo chamado “INFO – BRB”, que reunia Vorcaro, o então superintendente de tesouraria do Banco Master, Alberto Félix, e Ângelo Silva, que ocupava o cargo de diretor financeiro da instituição.
As mensagens analisadas pela PF tratam de valores relacionados a carteiras de crédito negociadas entre o Banco Master e o BRB. Em uma das conversas, Daniel Vorcaro demonstra insatisfação com os números apresentados em documentos ligados à Tirreno, empresa apontada pelos investigadores como suspeita de ser uma companhia de fachada.
“Pessoal. Saldo não pode ser 6.400!!! Era 7.200. Valor da recompra”, escreveu o banqueiro, em referência aos valores de R$ 6,4 bilhões e R$ 7,2 bilhões.
Segundo o Estadão, após ser informado de que parte da diferença ocorria em razão da inclusão de débitos na documentação, Vorcaro respondeu: “Não interessa. Não fecha a conta. Vamos ter que colocar remuneração”.
PF vê indícios de manipulação documental
Para os investigadores, as mensagens reforçam a suspeita de manipulação de extratos e documentos usados para sustentar operações financeiras entre o Banco Master e o BRB.
A apuração da Polícia Federal envolve aportes que teriam alcançado ao menos R$ 12,2 bilhões do banco público de Brasília no Master. Também são investigadas suspeitas de pagamento de propina ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Segundo o relatório citado pela publicação, um dos pontos que chamou atenção foi a divergência entre os valores discutidos internamente e os números que acabaram sendo oficialmente apresentados ao Banco Central.
Embora no grupo fossem mencionados os montantes de R$ 6,4 bilhões e R$ 7,2 bilhões, o extrato entregue ao BC registrou R$ 6,6 bilhões.
A Polícia Federal afirmou que o caso demonstra a “manipulação do valor final do extrato relativo ao pagamento da Tirreno pelo pagamento dos créditos originados e posteriormente cedidos ao BRB”.
Os investigadores também destacaram que o documento final apresentado ao Banco Central teria sido “fabricado” com um valor diferente dos discutidos nas conversas internas do banco.
Cobrança por regularização de contratos
As conversas obtidas pela investigação também mostram cobranças feitas por Daniel Vorcaro sobre inconsistências apontadas pelo BRB nas carteiras de crédito negociadas pelo Banco Master.
Em uma mensagem enviada em 13 de maio de 2025, o banqueiro listou pendências relacionadas à documentação da Tirreno, entre elas a ausência de reconhecimento em cartório dos contratos e a falta de envio desses documentos.
Em resposta, Alberto Félix afirmou: “Vou pedir para reconhecer firma dos contratos e aí já te enviamos todos”.
Outro tema tratado nas mensagens foi a necessidade de apresentação de comprovantes de averbação dos contratos de crédito consignado, documentação usada para demonstrar que os empréstimos tinham registro formal.
Ao comentar a dificuldade para reunir esses comprovantes, Félix escreveu: “Esse é difícil”.
Pressão antes da operação financeira
Segundo a investigação, Daniel Vorcaro também pressionava os subordinados para acelerar a regularização documental antes da conclusão das operações com o BRB.
Em 23 de maio de 2025, o banqueiro enviou nova cobrança ao grupo: “Você consegue mobilizar todos aí pra responderem esses pontos (do) brb?”.
Diante das pendências envolvendo contratos, Vorcaro sugeriu a realização de um esforço concentrado durante o fim de semana: “Não dá pra fazer um mutirão de emissão no fds?”.
Para a Polícia Federal, o conteúdo das conversas levanta suspeitas porque a revisão e emissão dos contratos estavam sendo discutidas apenas em maio de 2025, apesar de os negócios terem sido registrados como operações realizadas em janeiro do mesmo ano.
Na avaliação dos investigadores, os documentos, em tese, já deveriam estar assinados e formalizados antes da concretização das transações financeiras.
Banco Master enfrenta crise e investigações
A investigação ocorre em meio ao agravamento da crise financeira do Banco Master e às negociações de delação premiada envolvendo Daniel Vorcaro.
O banqueiro foi preso pela segunda vez em março deste ano, enquanto a Polícia Federal aprofunda as apurações sobre supostas fraudes documentais praticadas por gestores da instituição para captar recursos do BRB e tentar conter problemas de liquidez do banco.
O sigilo dos depoimentos relacionados ao caso foi retirado pelo ministro do STF Dias Toffoli.
Segundo o Estadão, a defesa de Daniel Vorcaro não comentou o caso. O BRB também não se manifestou. As defesas de Alberto Félix e Ângelo Silva igualmente não deram declarações sobre as acusações investigadas pela Polícia Federal.





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