Na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou o púlpito da entidade em palanque para críticas contra o sistema multilateral e para questionar a ciência climática. Em discurso de 57 minutos, um dos mais longos dos últimos anos no evento, o republicano acusou a organização de “financiar um ataque contra o Ocidente” e classificou os alertas sobre o aquecimento global como “o maior golpe”.
— Qual é o propósito das Nações Unidas? — questionou. — Tudo que a ONU faz é escrever cartas com palavras fortes, falar em palavras vazias. É triste que eu tenha tido que fazer essas coisas em vez das Nações Unidas.
Críticas ao multilateralismo
O tom duro contra a ONU esteve presente desde o início da fala. Segundo Trump, programas humanitários de apoio a refugiados e migrantes seriam, na prática, incentivos a fluxos que “destroem países ocidentais”. “A ONU também forneceu comida, abrigo, transporte e cartões de débito a imigrantes ilegais”, acusou.
No campo da política internacional, o presidente aproveitou para se autoproclamar “homem da paz”, afirmando ter encerrado “sete guerras” em diferentes regiões, mas lamentando que os acordos fossem fruto de sua iniciativa e não da ONU. Ao mesmo tempo, exaltou ataques militares contra o Irã e ameaçou medidas contra a Venezuela, reforçando a imagem de um líder que mistura diplomacia e demonstração de força.
Negacionismo climático
Foi ao tratar de meio ambiente que Trump intensificou sua retórica contra consensos científicos globais. Ele celebrou a decisão da Alemanha de ampliar o uso da energia nuclear e de combustíveis fósseis, afirmando que a transição verde é “um caminho para a falência”.
— Os alertas sobre as mudanças climáticas são o maior golpe — declarou, sugerindo sem provas que ambientalistas teriam até mesmo a intenção de “matar as vacas”.
O republicano repetiu a fórmula de campanha de exaltar indicadores internos, afirmando: “Os Estados Unidos são abençoados com a economia mais forte, as fronteiras mais fortes, o Exército mais forte, as amizades mais fortes e o espírito mais forte de qualquer nação na face da Terra. Esta é, de fato, a era de ouro dos Estados Unidos.”
Isolamento crescente
A postura crítica à ONU não é novidade. Desde sua posse, Trump retirou os EUA de organismos multilaterais como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Unesco e, mais uma vez, do Acordo de Paris. Agora, no plenário da entidade, reforçou esse distanciamento em tom mais duro, ampliando a sensação de isolamento dos Estados Unidos no cenário global.
Poucas vezes um líder da Casa Branca usou a tribuna da ONU para confrontar tão frontalmente o próprio sistema internacional que ajudou a criar. Com sua estratégia, Trump tenta consolidar apoio interno às custas de uma narrativa que questiona a legitimidade das instituições globais e coloca em dúvida décadas de cooperação em torno do clima.






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