O dia 17 de abril de 1996 permanece como um marco na história da luta pela terra no Brasil. Naquela data, 19 trabalhadores rurais foram mortos em uma operação da Polícia Militar do Pará, na chamada Curva do S, em Eldorado dos Carajás (PA). O episódio não apenas chocou o país, como redefiniu o debate sobre a questão agrária, dividindo a trajetória recente entre um antes e um depois daquele acontecimento.
Passadas três décadas, o cenário no campo ainda é marcado por disputas intensas. Os conflitos agrários não apenas persistem como apresentam crescimento contínuo, refletindo tensões que se estendem das comunidades rurais aos espaços de decisão política. A reportagem é do jornal Folha de S. Paulo.
Conflitos persistentes e números em alta
Dados da Comissão Pastoral da Terra indicam que, desde 1996, o Brasil registrou 1.149 mortes em conflitos no campo, o que representa uma média de uma morte a cada dez dias ao longo do período. Paralelamente, o número de ocorrências segue elevado: desde 2022, o país ultrapassou a marca de 2.000 conflitos anuais, com 2.185 registros em 2024, o segundo maior patamar desde 1985.
O aumento desses números revela não apenas a permanência das disputas, mas também a dificuldade de resolução de conflitos fundiários históricos, especialmente em regiões como o sudeste do Pará.
O massacre e suas consequências
Em 1996, cerca de 1.100 trabalhadores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra marchavam pela rodovia PA-150, partindo de Curionópolis com destino a Belém. A rodovia foi bloqueada, e a ordem de desobstrução resultou em confronto direto.
O saldo foi de 19 mortos e dezenas de feridos, entre trabalhadores e policiais. Apesar da participação de 155 agentes na ação, apenas dois oficiais foram condenados.
A repercussão internacional do caso impulsionou, à época, políticas de assentamento e maior presença do Estado na região. Ainda assim, especialistas apontam que esse movimento perdeu força ao longo dos anos.
“Sem dúvida, esta é a região com maior concentração de conflitos agrários não resolvidos do Brasil”, afirma José Batista Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra em Marabá (PA).
Mudanças no perfil da violência
Relatórios recentes indicam que a violência no campo passou por transformações desde os anos 1990. Se antes as vítimas eram majoritariamente trabalhadores sem-terra e posseiros, hoje há crescimento de ataques contra indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Em 2024, os povos indígenas lideraram as estatísticas de mortes no campo, evidenciando uma mudança no perfil dos conflitos.
Além disso, os episódios deixaram de se concentrar apenas em grandes massacres e passaram a ocorrer de forma mais dispersa e contínua, com confrontos localizados e recorrentes.
Casos como os massacres de Pau D’Arco, no Pará, e Colniza, no Mato Grosso, ambos em 2017, ilustram a persistência da violência. Naquele ano, 74 pessoas foram assassinadas em disputas agrárias, o maior número da série histórica.
Em Pau D’Arco, dez trabalhadores foram mortos em uma ação policial, e os 16 agentes envolvidos ainda não foram julgados. Em Colniza, nove pessoas foram assassinadas em um assentamento, e apenas um dos réus foi condenado.
Disputa política e entraves à reforma agrária
O avanço de propostas contrárias aos movimentos de luta pela terra também tem influenciado o cenário. No Congresso Nacional, iniciativas buscam restringir ocupações e endurecer punições, refletindo o fortalecimento de setores ligados ao agronegócio.
Esse ambiente político é apontado como um dos fatores que dificultam avanços na reforma agrária.
“Aprovar qualquer medida que interfira na concentração da terra hoje é praticamente inviável com a composição atual do Congresso”, avalia José Batista Afonso.
Ao mesmo tempo, surgem novos atores no campo, como movimentos organizados por proprietários rurais para conter ocupações.
“São milícias legalizadas que atuam diretamente contra os trabalhadores. O jagunço agora tem CNPJ, é uma nova roupagem para a violência”, afirma Ayala Ferreira, membro da direção nacional do MST.
Esses grupos afirmam atuar dentro da legalidade, enquanto movimentos sociais denunciam ações coordenadas contra trabalhadores rurais.
Mobilização e memória
Neste contexto, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realiza uma nova marcha pela rodovia que ficou marcada pelo massacre de 1996. A mobilização refaz o trajeto entre Curionópolis e Eldorado dos Carajás, com chegada prevista para esta sexta-feira.
A iniciativa busca manter viva a memória das vítimas e chamar atenção para a situação atual no campo, onde milhares de famílias ainda aguardam por acesso à terra. Segundo dados citados por movimentos sociais, cerca de 145 mil famílias estão acampadas no país, sendo 30 mil apenas no Pará.






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