Trama golpista: Anderson Torres nega ao STF ter encontrado indícios de fraude nas urnas

Ex-ministro afirma que relatórios da PF com dados eleitorais foram iniciativa de subordinada e que nunca houve intenção de golpe

Em depoimento prestado nesta terça-feira (10) ao Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-ministro da Justiça Anderson Torres negou ter tido conhecimento de qualquer fraude relacionada às urnas eletrônicas durante o governo de Jair Bolsonaro. Torres é um dos réus no processo que apura a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

— Eu sempre passei isso, que tecnicamente nós não tínhamos nada a passar ao presidente (Bolsonaro) sobre urnas eletrônicas — afirmou Torres ao ser questionado sobre o conteúdo que a Polícia Federal, então sob sua jurisdição, teria produzido sobre o sistema eleitoral.

Durante o depoimento, o ex-ministro negou também qualquer participação em reuniões que tivessem como tema uma eventual tentativa de subverter o resultado das eleições. Segundo ele, não participou de articulações golpistas e desconhecia qualquer plano nesse sentido.

Outro ponto abordado foi a produção, por parte da então diretora de Inteligência do Ministério da Justiça, delegada Marília Ferreira Alencar, de relatórios de Business Intelligence (BI) com foco em municípios nos quais Luiz Inácio Lula da Silva obteve mais de 75% dos votos no primeiro turno. A Polícia Federal suspeita que esses documentos teriam sido usados para orientar operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em regiões de forte apoio ao petista, no segundo turno da disputa.

Torres, no entanto, rejeitou essa interpretação. Ao ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo caso, ele disse que não ordenou a produção dos relatórios e que os documentos foram arquivados assim que os conheceu.

— Cabe à diretoria de inteligência fomentar essas discussões no âmbito de segurança pública no Ministério da Justiça. Após o primeiro turno das eleições, a doutora Marília produziu alguns BIs que traziam uma métrica de 75% de votos dos candidatos, aqueles que fizeram mais de 75% dos votos em alguns estados brasileiros versus o partido político do prefeito, como se isso fosse um indício de crime eleitoral, de compra de votos, nesse sentido. Eu entendi naquele momento que aquilo não representava um indício, nunca tinha visto essa métrica, era normal que em alguns locais um determinado candidato fizesse mais de 75% dos votos. Isso foi de imediato descartado porque eu não entendi que seria um indício de crimes eleitorais — declarou o ex-ministro.

Ainda em sua fala, Torres buscou afastar qualquer vínculo entre a atuação da PRF e interesses eleitorais. Ele negou que houvesse interferência para orientar fiscalizações de forma politicamente motivada e reforçou que os dados reunidos por Marília Ferreira não foram utilizados operacionalmente.

— Nunca misturei as coisas — respondeu, ao ser questionado sobre um possível uso político da PRF. Ele disse ainda que houve produção de análises sobre supostas correlações entre facções criminosas e resultados eleitorais, mas que esse material também não foi aplicado em ações práticas.

Apesar das negativas, a versão apresentada por Torres diverge de elementos colhidos nas investigações da Polícia Federal e incluídos na denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR). O Ministério Público aponta que a produção dos relatórios pode ter servido de base para o direcionamento de operações policiais no segundo turno da eleição presidencial, em especial nas regiões Norte e Nordeste, onde Lula teve votação expressiva.

O processo em que Torres é réu no STF faz parte do inquérito sobre a tentativa de subverter a ordem democrática, reunindo outros sete acusados, entre militares e ex-integrantes do governo Bolsonaro. A apuração concentra-se na articulação de um plano para impedir a posse do presidente eleito, o que incluiria o uso de estruturas do Estado para fragilizar a confiança nas eleições e justificar uma ruptura institucional.

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