Mais de 50 mil pessoas podem estar desaparecidas após os terremotos que devastaram o norte da Venezuela nesta semana, segundo estimativa do chefe de ajuda humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU), Tom Fletcher. Em entrevista à agência AFP nesta sexta-feira (26), ele classificou a operação de resgate como “extremamente complexa”, diante da magnitude da destruição registrada no país.
Enquanto as equipes de busca avançam lentamente entre os escombros, o balanço oficial divulgado pelas autoridades do governo liderado por Delcy Rodríguez aponta ao menos 920 mortos e cerca de 4.300 feridos. O número de vítimas, no entanto, continua aumentando à medida que socorristas conseguem acessar áreas devastadas.
La Guaira concentra destruição
A região mais afetada é La Guaira, área costeira vizinha a Caracas e sede do principal aeroporto do país, que permanece interditado. Após os terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 registrados na quarta-feira (24), a cidade transformou-se em um cenário de devastação, com prédios reduzidos a montanhas de concreto, poeira e ferragens.
Moradores, familiares e voluntários passaram as últimas horas tentando remover destroços com as próprias mãos, diante da escassez de equipamentos pesados. Relatos de sobreviventes apontam dificuldades no acesso a máquinas capazes de cortar estruturas metálicas e remover grandes blocos de concreto.
A dimensão da tragédia também aparece nas redes sociais, onde circula uma lista não oficial de desaparecidos que já ultrapassa 51 mil nomes.
Buscas enfrentam dificuldades
Quase 48 horas após os tremores, equipes internacionais de resgate de pelo menos 17 países começaram a chegar à Venezuela. Socorristas de El Salvador, México, Colômbia e Equador já atuam nas operações, enquanto Chile e Suíça enviaram profissionais especializados e suprimentos humanitários.
O Brasil também mobilizou ajuda. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o envio de aeronaves transportando bombeiros, equipamentos médicos e equipes de apoio para auxiliar as operações de resgate e assistência às vítimas.
Em Caracas, equipes de emergência trabalharam durante toda a madrugada desta sexta-feira utilizando refletores para procurar sobreviventes sob os escombros de edifícios desabados. Em diversas localidades, ainda há corpos visíveis entre os destroços.
Desespero e críticas à resposta oficial
Em La Guaira, o desespero dos moradores tem se transformado em críticas à atuação das autoridades. Alessandro del Giudice, de 23 anos, tenta localizar o pai sob uma enorme pilha de escombros, enquanto sua avó, Amparo, remove pedras manualmente.
“Ele está ali”, afirmou o jovem durante as buscas. A avó lamentou a falta de recursos: “São muitas pedras e, com as mãos, não dá”. Em seguida, criticou a atuação governamental: “As autoridades não servem para nada. Os militares deveriam estar aqui com todo o maquinário que têm”.
A própria AFP registrou episódios de saques em áreas afetadas, evidenciando o agravamento da crise humanitária.
Mobilização internacional cresce
A líder interina venezuelana, Delcy Rodríguez, visitou La Guaira na quinta-feira (25) e declarou a região como “zona de desastre”. Paralelamente, a líder oposicionista María Corina Machado aproveitou a tragédia para defender a libertação de presos políticos, afirmando que eles deveriam “ser recebidos por suas famílias nestas horas trágicas”.
Os Estados Unidos anunciaram um pacote emergencial de ajuda no valor de US$ 150 milhões (cerca de R$ 819 milhões), além do envio de navios, aeronaves e helicópteros para apoiar as operações humanitárias. O general Kevin J. Jarrard, do Comando Sul norte-americano, já se encontra em Caracas para coordenar parte da assistência internacional.
Os efeitos dos terremotos foram sentidos também na Colômbia e no norte do Brasil. Desde o desastre inicial, os serviços de monitoramento registraram mais de 130 réplicas sísmicas.
Embora a Venezuela esteja situada em uma região de atividade tectônica significativa, o país não registrava um terremoto de grande magnitude desde 1997, o que amplia o impacto histórico da atual tragédia






Deixe um comentário