A revista britânica The Economist publicou, na quinta-feira (12/2), um editorial em que apresenta o Brasil como um exemplo de alerta para as economias desenvolvidas. No texto, o país é citado como símbolo de um processo que a publicação chama de “brasilização” — um cenário no qual juros elevados tornam a dívida pública cada vez mais difícil de administrar.
Segundo a análise, o caso brasileiro reúne um conjunto de fatores que, isoladamente, poderiam ser vistos como positivos, como crescimento econômico, banco central independente e orçamento primário “quase equilibrado”. Ainda assim, a dinâmica da dívida é descrita como explosiva.
Com a taxa básica de juros em 15% ao ano, a revista afirma que o governo brasileiro “provavelmente tomará emprestado cerca de 8% do PIB por ano apenas para pagar a conta de juros”, mesmo com as contas primárias próximas do equilíbrio.
“Sua dívida líquida, em 66% do PIB, é alta para os padrões de mercados emergentes, mas baixa para os do mundo rico.”
Dados citados pelo Fundo Monetário Internacional indicam que a dívida pública bruta do Brasil deve atingir 99% do PIB em 2030. Em 2010, esse percentual era de 62%.
O dilema entre austeridade e espiral de dívida
Para a revista, o país se aproxima de uma encruzilhada fiscal. O editorial afirma: “Pode parecer dolorosamente difícil, em um mundo populista, ao mesmo tempo, prometer baixa inflação e gastar menos com os idosos. Mas isso não é nada comparado à escolha agonizante que se aproxima do Brasil: entre uma austeridade profunda e uma espiral aterradora de juros e dívida.”
Apesar da avaliação, o texto sustenta que a alternativa de um ajuste fiscal rigoroso parece politicamente improvável no curto prazo. Segundo a publicação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição em outubro, “afrouxou os cordões da bolsa”, o que reduziria as chances de um aperto significativo nas contas públicas.
A The Economist também atribui os juros elevados a fatores institucionais e históricos. As instituições brasileiras seriam “frágeis” e teriam chegado a “vacilar” durante a tentativa de golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022.
Além disso, a inflação no país teria “um pavio mais curto”, reflexo do trauma da hiperinflação das décadas de 1980 e 1990 e da recessão recente.
Peso das aposentadorias e rigidez constitucional
Outro ponto destacado é a estrutura de gastos obrigatórios. O Brasil destina cerca de 10% do PIB ao pagamento de aposentadorias. Sem novas reformas, a revista projeta que, em 2050, o país poderá gastar mais com pensões do que nações “mais ricas e mais envelhecidas”.
“Ainda assim, as pensões são protegidas na Constituição, que, por exemplo, determina que, quando o salário mínimo sobe, os aposentados também recebam mais. O controle extraordinário dos pensionistas sobre o orçamento dificulta o equilíbrio das contas e também desloca outros gastos mais valiosos.”
Para a publicação, o Brasil funciona como um “alerta antecipado” para economias avançadas. “A aflição fiscal do Brasil lança em relevo os orçamentos do mundo rico”, afirma.
O editorial menciona os Estados Unidos como exemplo de país que já apresentaria sinais iniciais de “brasilização”, citando pressões sobre instituições e dificuldades no controle da inflação após a pandemia. O texto afirma que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “politizou o Departamento de Justiça”, deseja controlar o Federal Reserve e “cogita federalizar as eleições”.
Críticas estruturais e eleições decisivas
Em outra análise publicada na quarta-feira (11/2), a revista aprofundou as críticas ao cenário brasileiro. Apesar de reconhecer indicadores positivos, classificou a trajetória da dívida como “insustentável” e afirmou que “os pessimistas estão certos em prever problemas”.
A publicação sustenta que a crise fiscal não se explica apenas pelas políticas do governo atual, mas por um sistema considerado capturado por interesses protegidos pela Constituição.
O sistema tributário brasileiro também foi alvo de críticas, sendo descrito como uma “bagunça”.
“As estimativas dos custos econômicos variam, mas são da mesma ordem de grandeza da perda de crescimento devido à falta de credibilidade fiscal, o que equivale a talvez meio ponto percentual do PIB anualmente.”
Segundo a revista, a ausência de reformas compromete a confiança do mercado e pode custar ao país até um ponto percentual de crescimento por ano.
A The Economist reconhece avanços recentes, como a criação de um teto para isenções e a implementação de um IVA dual, medida que pode elevar o PIB em até 4,5% até 2033. Ainda assim, conclui que, sem mudanças estruturais mais amplas, o Brasil permanecerá preso a um modelo fiscal de difícil sustentação no longo prazo.






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