Antes de assumir o microfone principal de uma escola estreante no Grupo Especial, Emerson Dias já tinha atravessado quase tudo que molda muitos puxadores experientes de samba: família de tradição, formação de base em uma escola mirim, disputas de samba, vivência de bastidores, convites inesperados e viradas de destino.
Neto de Antônio Dias, um dos fundadores da tradicional Lins Imperial — de onde é cria —, ele cresceu cercado de compositores, intérpretes e histórias. Tios como o cantor Celino Dias e os compositores João Banana e Tiãozinho do Salgueiro foram as primeiras referências.
“Eu sempre acompanhei os meus tios desde moleque, era o chaveirinho deles. Ia com eles para cima e para baixo. Eu me encantava por aquele universo [do samba e do Carnaval]”, conta Emerson Dias ao Agenda do Poder, na série especial Artistas da Avenida.
Foi justamente essa convivência que o levou à escola mirim do Acadêmicos do Salgueiro, então chamada Alegria da Passarela, celeiro de talentos do samba carioca. Ali, ainda no início dos anos 1990, começou a se aproximar do microfone e a sonhar com o posto de intérprete. Por lá, conheceu nomes que acabaram deslanchando no mundo da música, como Dudu Nobre, Lucinha Nobre e o intérprete Leonardo Bessa, de quem foi apoio.
“Eu já estava com os dois pés lá dentro, porque eu era muito fã do Leonardo Bessa. Achava o máximo o que ele fazia”, lembra Emerson.

A escola de Quinho e o DNA salgueirense
No Salgueiro do início da década de 1990, Emerson foi forjado no fogo das disputas de samba. Logo foi chamado para integrar o carro de som da escola, liderado pelo experiente Quinho, uma das vozes mais marcantes do Carnaval carioca e que se tornaria seu grande mentor.
A parceria, como ele mesmo conta, moldou sua visão sobre o papel de um intérprete. “O Quinho falava pra mim: ‘a gente tem que cantar pro público, tem que ser cantor do povo”.
Durante oito anos na escola, o “menino de ouro” — como Emerson era conhecido pelos mais próximos da agremiação — interpretou sambas grandiosos. Foi campeão junto com a escola em 1993, no clássico enredo “Peguei um Ita no Norte” — com o famoso samba “Explode Coração” —, e participou como compositor em diversos concursos, inclusive ao lado do ídolo Leonardo Bessa.

A paixão de Caxias e a prova de lealdade
A virada na carreira do artista veio no começo dos anos 2000, quando trocou a agremiação vermelha e branca pela Acadêmicos do Grande Rio, puxado pelo próprio Quinho, que também havia deixado a escola após receber um convite para a escola de Caxias.
“Ele me ligou e falou: ‘Estou indo pra Grande Rio e quero levar um cara de confiança, quer ir comigo?”. Ao lado do amigo, participou de disputas de samba na escola, chegando a vencer. A partir dali, passou a frequentar a quadra até ser convidado para ser intérprete de apoio. “Tem coisas que são o destino, estava escrito”.
A chegada à escola de Duque de Caxias ampliou a visibilidade do jovem intérprete. Pouco depois, ele precisou assumir o microfone principal às pressas, após um acidente que afastou Quinho temporariamente. “O Jayder [Soares, patrono da Grande Rio] virou pra mim e disse: ‘é o seguinte, se ele não desfilar, o cantor da Grande Rio é você’”, conta.
Emerson encarou o desafio, mas sem esquecer a hierarquia. “Dali eu assumi a Grande Rio, passei a ter toda a visibilidade. Era eu para tudo. Os ensaios e shows que o Quinho fica o dia inteirinho fazendo, eu passei a fazer”, recorda. À frente do microfone, manteve a reverência: “Sempre fui muito leal. Então na hora de dar o grito de guerra era o do Quinho, sempre torci por ele”.
A parceria durou até 2002, quando Quinho retornou ao Salgueiro. Emerson, no entanto, decidiu ficar. “A veia salgueirense dele falou mais alto. Falei: ‘cara, eu te amo de paixão, desde 92 estamos juntos, unha e carne, mas é aqui que eu quero ficar’. Eu me apaixonei pela Grande Rio”.
A ousadia que garantiu a ascensão
Depois de mais de uma década como cantor de apoio na Grande Rio, Emerson sentiu que o momento de ser a voz oficial havia chegado. Numa conversa franca com Jayder Soares, enquanto aguardavam para se apresentar em um evento no Amazonas, ele foi direto.
“Eu falei: ‘desculpa a ousadia, mas estou vendo a maior movimentação que vai trocar de cantor na Grande Rio. Se for trocar, eu tô mais do que preparado. Chegou a minha vez. Só quero que o senhor saiba disso”.
A coragem deu resultado. Em 2013, assumiu o microfone principal e, no ano seguinte, desfilou como voz principal, conquistando o Estandarte de Ouro de melhor intérprete. “Acabou o Carnaval de 2013, eu fui efetivado e cantei sozinho. Aí não parei mais”.
Encontros improváveis e a estrada do samba
Ao longo da carreira, Emerson acumulou episódios que ilustram a dimensão do carnaval como espetáculo global. Entre 2006 e 2007, os ensaios da Grande Rio no clube Monte Líbano, na Zona Sul, eram frequentados por astros internacionais e figuras conhecidas da TV brasileira. Mas foi a presença de Gilberto Gil, então Ministro da Cultura, que marcou a vida do intérprete.
Emerson conta que, quebrando o protocolo, pediu ao diretor de harmonia para cantar uma música de Gil com a bateria. O patrono Jayder Soares autorizou e o clube veio abaixo. “O Gilberto Gil, sem entender nada daquilo que tava acontecendo, pegou o microfone, foi pro palco e começou a cantar comigo. Ele falava no meu ouvido: ‘cara, isso é muito bom’”, relembra.
O improviso rendeu um convite imediato: Gil parou o ensaio e convidou a escola para ir à Bahia. “Quando terminou o desfile [na Sapucaí], ele fretou um avião e fomos pra lá, 120 pessoas. Foi a primeira e única escola a passar no circuito com baiana, com bateria, em cima do trio elétrico Expresso 2222. Eu senti o cantor de Axé ali”, diz Emerson.
‘Quis ser desafiado’: a saída da Grande Rio e o retorno às raízes
Em 2018, após 17 anos de casa, Emerson decidiu que seu ciclo em Caxias havia terminado. A decisão, segundo ele, não foi motivada por brigas, mas por ambição profissional. O cantor conta que a presidência do Salgueiro à época já o “namorava” para assumir o posto na vermelho e branco.
“Financeiramente, ela me fez uma proposta muito boa. A Grande Rio poderia cobrir, óbvio, dinheiro não era o problema. Mas a questão era: sabe quando você quer ser desafiado? Eu conquistei esse espaço na Grande Rio, agora voaria em outras áreas”, explica.
“Não fui embora magoado com ninguém, pelo contrário”, afirma, dizendo que mantém grande carinho pela escola por onde ficou por quase 20 anos. “Quando você atinge esse lado, é como um coreógrafo de comissão de frente: hora está numa escola, hora está em outra”, completa.
Ele retornou ao Salgueiro em 2019, onde voltaria a dividir o comando do carro de som com o eterno parceiro Quinho, que morreu em 2024. “Acredito que papai do céu me escolheu para que eu estivesse ao lado dele quando parasse de cantar”.

O golpe duro e a reinvenção
Se a saída da Grande Rio foi uma escolha, a despedida do Salgueiro, logo após o Carnaval de 2024, foi um golpe seco. Emerson relata com franqueza o momento em que foi dispensado pela diretoria.
“Chegou o Carnaval, o presidente virou pra mim e falou: ‘vamos terminar por aqui’. Eu me levantei e fui embora. Eu não quis ser profissional [quando saí da Grande Rio]?! Por mais que eu tenha todo carinho, todo amor, toda raiz salgueirense, é o profissional que conta”, diz. “O impacto foi imediato. “Quando se sai de escolas de muita potência, uma escola como o Salgueiro, o mundo cai. Fiquei assim: ‘cara, e agora o que eu vou fazer da minha vida?’”, lembra.
A resposta veio com a abertura de novos ciclos. Em 2025, ele viveu um ano que define como “mágico”. Na época, ele passou a atuar em diferentes praças do país, incluindo São Paulo e Vitória, sendo contratado pela Mocidade Unida da Mooca, no Carnaval paulista, e pela Andaraí, em Vitória.
“Nunca tinha pensado em cantar no Carnaval de São Paulo. E quando eu cheguei lá, eu fiquei assim, ‘cara, pô, que arrependimento. Por que eu não vim para cá antes?’. É um profissionalismo, é um carinho tão grande que as pessoas têm. Eu fiquei encantado”, sublinha.
Com Emerson no microfone, a escola baiana levou o título do Grupo A, voltando à elite do carnaval da capital capixaba, e a agremiação de SP conquistou o inédito acesso ao Grupo Especial. A parceria deu tão certo que ele segue como voz oficial da escola paulistana, pela qual cruzou a passarela do Anhembi na madrugada deste sábado (14). “No final das contas, eu tive um 2025 mágico, sensacional, maravilhoso”, resume.

A missão de furar a bolha do Carnaval
Foi esse renascimento que chamou a atenção da Acadêmicos de Niterói. A escola, fundada em 2018, fará sua estreia no Grupo Especial neste ano e aposta na experiência de Emerson para segurar um enredo de peso: a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“A Niterói chegou querendo dar uma outra característica, mais leve, ao meu estilo. Eu vou fazer o meu trabalho e entregar o máximo que eu puder”.
O tema trouxe repercussão imediata e ampliou a visibilidade do intérprete, que viu suas redes sociais explodirem, acumulando hoje mais de 60 mil seguidores.
“Hoje é um samba que ultrapassou as bolhas do Carnaval. Não está mais só no nicho de quem gosta de escola de samba. Com isso, o samba ganhou outras veias, os que gostam, os que não gostam, os que apoiam ou não. Fale bem ou falem mal, mas falem da gente”.
Entre o Carnaval e as alturas
Fora da avenida, a rotina de Emerson destoa do glamour do espetáculo e exige uma coragem física real. Há duas décadas, ele trabalha como técnico de telecomunicações da Claro, conciliando o ofício com a carreira artística.
“Eu fico pendurado nos postes da vida, 50, 60 metros de altura. Às vezes estou lá em cima pensando na fantasia que vou usar na avenida”.
Ele afirma que a estabilidade do emprego formal foi fundamental para manter o equilíbrio financeiro ao longo da carreira. “Hoje, 80% a 90% da minha renda vem do Carnaval. Mas na Claro eu tenho minha carteira assinada, férias e aposentadoria”.
Perguntado sobre a comparação entre o frio na barriga de subir nas altas estruturas e entrar na avenida, Emerson é categórico: o nervosismo de estar pendurado por um fio a dezenas de metros do chão não é muito diferente da responsabilidade de abrir um desfile no Grupo Especial.
“Quando você perde a sensação de frio na barriga, quando você perde a adrenalina, ou ao olhar pra uma torre de 50 a 60 metros de altura você não temer ela, você banalizou aquilo. Virou uma coisa banal. Assim como é um desfile”, compara.
“Pra mim, como profissional e amante dessa cultura, você ir ali na avenida e só cantar e ir pra casa sem nem suar não faz sentido. Não faz sentido eu não vibrar, não me emocionar”, afirma. No último ensaio técnico da Niterói, me deu uma vontade absurda de chorar olhando pra arquibancada, com aquele povo inteiro cantando da forma que foi. Para mim, a grande resposta é a do povo”, completa.

‘Olha onde a gente chegou’
Ao olhar para trás, Emerson enxerga continuidade entre o garoto que buscava espaço na Lins Imperial e o intérprete consolidado que hoje conduz uma escola estreante na elite.
“Eu olho e penso: olha onde a gente chegou. Me considero um profissional de ponta, mas ainda tenho caminhos pra trilhar”.
Esses caminhos, aliás, cruzam o oceano. O intérprete também realiza shows internacionais, passando por países como França e Alemanha. “Tem ano que eu faço duas, três viagens internacionais pra poder cantar samba. Pra mim é o ápice da valorização da nossa cultura”, celebra.
O currículo confirma a autoanálise. Dono de um Estandarte de Ouro (2014) e colecionador de prêmios como o Estrela do Carnaval, Gato de Prata e S@mba-Net, Emerson chega a 2026 com a bagagem de quem venceu no Rio, em São Paulo e no Espírito Santo.
Para o desfile da Niterói, ele calcula as chances com realismo matemático e fé sambista.
“A gente tem meio por cento de chance de permanecer. Mas estamos segurando esse meio por cento com muita vontade. Quando a magia do carnaval entra, tudo pode acontecer”.
A Acadêmicos de Niterói é a primeira escola a desfilar na Marquês de Sapucaí neste domingo (16).



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