Foi numa manhã úmida de fevereiro de 1875 que o navio Anna Pizzorno chegou ao porto do Rio de Janeiro com cinquenta famílias vindas do norte da Itália que aqui desembarcaram num Brasil que prometia recursos, terra e, bem, um destino um tanto incerto.

Carregando malas de papelão, sonhos e muito medo do desconhecido, foram avisados que precisariam passar um período de quarentena na região hoje conhecida como a cidade de Porto Real, devido a um surto de febre amarela na capital imperial, até finalmente serem levados para seu destino no interior Santa Catarina.

Seja por burocracia, negligência, má fé, ou talvez pela simples lentidão de um país enorme, fato é que eles acabaram ficando. Trabalharam duro, suaram às pampas, sem nenhum luxo ou conforto, adaptando-se ao solo, ao clima e ao idioma. Ninguém sabe ao certo ou não se com saudades de casa.

Décadas depois, as crianças cresceram, surgiram igrejas, praças, festas. Só que o passado dessas famílias não foi apagado, mas misturado ao tempo, à poeira do caminho, às memórias que se contam à beira da mesa de jantar, quando a cantoria ecoa na Festa da Cultura Italiana. Porto Real se ergueu na confluência de esperanças, dores, costumes trazidos na bagagem, ritos de sobrevivência e principalmente, festa, muita festa.

Hoje Porto Real celebra 150 anos da chegada daqueles imigrantes com orgulho, museus, danças, fotografias, nomes de ruas, uma praça que homenageia Vítor Emanuel II, ainda que seu busto tenha sido surrupiado em um episódio controverso.

Tudo muito preservado, muito lembrado, porque mesmo se houve esquecimento da parte de alguém, este stronzo não venceu.

Fachada da Paróquia Nossa Senhora das Dores, em Porto Real | Crédito: Reprodução

História

Porto Real começou como uma região de fazendas e paradas de veraneio da Família Real. O nome “Porto Real” vem do fato de que Dom Pedro II costumava fazer paradas no lugarejo para descanso ou balneário, atracando suas embarcações nas margens do Rio Paraíba do Sul.

Antes de se tornar município, Porto Real foi distrito de Resende, até sua emancipação político-administrativa em 1995.

De onde vieram os imigrantes?

O que se sabe pelas pesquisas acadêmicas é que Porto Real funcionou como uma colônia de recepção de imigrantes entre 1874 e 1879.

Os primeiros italianos chegaram em Porto Real em 1875, vindos principalmente de communes da província de Módena, especificamente de regiões como Novi di Modena e Concórdia, na Emília-Romagna, norte da Itália.

Eles deixaram o país por várias causas: enchentes (como a cheia do rio Pó em 1872), epidemias, más colheitas, crises políticas com a unificação italiana e, naturalmente, em busca de melhores oportunidades no Brasil.

Vista de Porto Real | Crédito: Reprodução

É verdade que eles foram esquecidos por lá pelo governo imperial?

Bom, ficar, eles efetivamente ficaram. Se foram esquecidos de propósito pelo governo é mais complicado. Não há confirmação documental de que esse grupo tenha sido “esquecido” no sentido de abandono institucional de longo prazo.

Os italianos se estabeleceram, trabalharam, casaram-se, tiveram filhos, construíram uma comunidade, mantiveram costumes, culinária, danças e festividades. Mas essa história de que foram esquecidos por lá tem mais pinta de lenda urbana.

Não que a vida deles tivesse sido sempre um cannoli, como veremos em seguida.

As perseguições durante as grandes guerras do século XX

Há registros históricos de conflitos entre os italianos e os nativos brasileiros durante a primeira metade do século XX. E o caso mais notório aconteceu quando os oriundi resolveram batizar uma praça em Porto Real em homenagem a Vítor Emanuel II, primeiro rei da Itália unificada, com direito a busto de bronze e tudo.

Numa madrugada incerta, durante a Segunda Guerra Mundial, o delegado de Resende resolveu ir a Porto Real prender o busto, acusado, coitado, de suspeito por suas ligações simbólicas com o Eixo (a aliança militar entre Alemanha, Itália e Japão).

O primeiro busto nunca mais apareceu. O que era relativamente comum nas cadeias da polícia política getulista. Anos depois outro foi colocado em seu lugar. Mesmo assim, encontra-se em estado de conservação comprometido, com placas de identificação ilegíveis e falta de cuidados adequados.

Quais são as principais festas italianas de Porto Real?

A mais destacada é a Festa da Cultura Italiana, promovida todo mês de julho pela Associação Vittorio Emanuele II. Ela conta com apresentações de danças típicas por grupos como Le Piccole Ballerine, As Polentinhas, Belle Ballerine, entre outros.

Além do “Festival Gastronômico Cucina di Mamma”, uma refeição comunitária típica que acontece no último dia da festa, com pratos italianos preparados por famílias locais, uma das atrações mais aguardadas é o concurso “La Piu Bella Ragazza”, que atrai concorrentes, e paqueradores de plantão, de toda a região.

Festa da Cultura Italiana conta com diversos grupos de dança | Crédito: Reprodução

O que é a Casa do Imigrante e o que consta em seu acervo?

A Casa do Imigrante é um museu local que tem por objetivo preservar a memória e a cultura dos italianos imigrantes e seus descendentes em Porto Real.

No acervo constam fotografias antigas, objetos do cotidiano dos imigrantes (utensílios domésticos, ferramentas agrícolas etc.), documentos e recortes de jornais.

O destaque do acervo são os originais de “Un sogno: la Merica! I miei 56 anni di Brasile”, o diário de Enrico Secchi, figura central na história da imigração italiana para o Brasil, especialmente da fundação da colônia de Porto Real.

Acervo da Casa do Imigrante conta com fotografias antigas, objetos, documentos e recortes de jornais | Crédito: Reprodução

O que mais tem para fazer por lá?

Além de vivenciar a cultura italiana, há atrações turísticas naturais e históricas: o Horto Municipal (para lazer ao ar livre), o Horto Municipal Pimentel, a Antiga Usina Açucareira (hoje desativada, mas, ainda, cartão-postal da cidade) construída às margens do Rio Paraíba do Sul.

Porto Real tem ainda a Fonte de Água Dom Pedro, e a igreja matriz Nossa Senhora das Dores, inaugurada em 1910, construída em estilo neoclássico, com imagens trazidas da Itália.

O polo industrial

Sem falsa modéstia, a prefeitura de Porto Real descreve a cidade como tendo vocação industrial comparada à dos grandes centros do país, com várias multinacionais instaladas.

Uma das principais é a Stellantis, holding que controla marcas como Fiat, Peugeot-Citroën e produz atualmente modelos como Citroën C3, Aircross e o novo SUV Basalt.

Porto Real possui ainda uma vasta cadeia de fornecedores diretos e indiretos que atendem, além da Stellantis, montadoras localizadas em Resende, como a Nissan ou a fábrica de caminhões da Volkswagen.

Industrialização é marca forte de Porto Real | Crédito: Secom / Reprodução

Qual a melhor época para visitar?

O ideal é ir em julho, quando acontece a Festa da Cultura Italiana, com toda sua alegria, programação cultural intensa, gastronomia típica, danças.

Durante o inverno o clima na região é mais ameno. Ideal para refeições pantagruélicas e passeios leves para ajudar na digestão das delícias locais.

Festa da Cultura Italiana é realizada em julho no município | Crédito: Reprodução

Como chegar?

Porto Real é um município do estado do Rio de Janeiro, na região do Médio Paraíba, bem próximo à divisa com Minas Gerais e São Paulo. De carro, saindo da Guanabara, são cerca de 160 quilômetros estrada, o que dá uma viagem de mais ou menos duas horas.

Já de ônibus não há nenhuma empresa que ofereça trajetos direitos do Rio a Porto Real. É preciso fazer uma baldeação em Resende ou Barra Mansa, e de lá pegar um ônibus intermunicipal.

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