O ex-presidente Michel Temer (MDB) declarou nesta segunda-feira (5) apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ao justificar a escolha, Temer afirmou que o resultado do primeiro turno indicou um desejo de mudança por parte dos eleitores e defendeu o candidato do PL como representante desse movimento.
“As urnas falaram. O povo brasileiro, autoridade única da democracia, deixou claro que deseja mudança”, afirmou Temer. Na manifestação, o ex-presidente disse ainda que a sociedade busca “novas ideias, novas atitudes, novos projetos e um caminho diferente”. Ao final, resumiu seu posicionamento com uma declaração direta de apoio a Flávio.
A entrada de Temer na campanha acrescenta ao segundo turno um personagem que ocupou papel central em uma das maiores crises políticas da história recente do país. Vice-presidente nos dois mandatos de Dilma Rousseff, ele assumiu definitivamente o Palácio do Planalto em agosto de 2016, depois que o Senado aprovou o impeachment da petista.
De vice de Dilma a adversário do PT
Temer foi eleito vice-presidente na chapa de Dilma em 2010 e novamente em 2014. A relação política entre os dois, porém, deteriorou-se durante o segundo mandato. Em março de 2016, o então PMDB deixou formalmente a base do governo enquanto avançava no Congresso o processo de impeachment.
Naquele período, Dilma e integrantes do PT acusaram Temer de atuar para assumir a Presidência e passaram a classificá-lo como “traidor”. O termo apareceu repetidamente nos discursos de parlamentares governistas. Em sessão da Câmara às vésperas da votação do impeachment, a então deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) chamou Temer de “traidor do povo brasileiro”. Parlamentares petistas também associaram Temer e Eduardo Cunha ao movimento pelo afastamento de Dilma.
A acusação sempre esteve inserida na disputa política em torno do impeachment. Dilma sustentava que havia sido vítima de um golpe e apontava Temer e Cunha como articuladores de sua saída. O processo, por outro lado, seguiu o rito constitucional no Congresso: a Câmara autorizou seu prosseguimento e o Senado decidiu pelo afastamento definitivo da presidente.
Eduardo Cunha teve papel decisivo no início do processo
Eduardo Cunha, então presidente da Câmara e também aliado de Temer no PMDB, teve papel institucional decisivo ao aceitar, em dezembro de 2015, o pedido de impeachment apresentado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaína Paschoal. Antes disso, Cunha havia anunciado seu rompimento pessoal com o governo Dilma em julho daquele ano.
Durante a tramitação, aliados de Dilma acusaram Cunha e Temer de agir politicamente para afastá-la. O então líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), criticou publicamente as articulações atribuídas a Temer em favor do impeachment, enquanto outros parlamentares governistas falavam em uma atuação conjunta dos dois peemedebistas.
Após o Senado aceitar a abertura do processo, Dilma foi afastada temporariamente em maio de 2016 e Temer assumiu como presidente interino. Em 31 de agosto, com a aprovação definitiva do impeachment, ele passou a exercer a Presidência até o fim de 2018.
Apoio coloca Temer no campo de Flávio no segundo turno
Dez anos depois daquela ruptura, Temer volta a se posicionar em uma disputa presidencial na qual o PT está de um lado. Desta vez, o ex-presidente decidiu apoiar Flávio Bolsonaro contra Lula e apresentou sua escolha como uma resposta ao que interpreta como mensagem enviada pelo eleitorado no primeiro turno.
“A sociedade não quer fórmulas repetidas e discursos grosseiros”, afirmou Temer. Para o ex-presidente, os eleitores procuram “um caminho diferente”. Em sua declaração, ele sintetizou o apoio ao senador dizendo que a “reconexão é Flávio”.
A manifestação coloca um ex-presidente do MDB, partido historicamente associado ao centro político, ao lado do candidato do PL, legenda de espectro de direita na reta final da eleição. Ao mesmo tempo, reabre a memória da aliança entre PT e MDB que levou Dilma e Temer duas vezes ao Palácio do Planalto e terminou, em 2016, em uma das mais profundas rupturas políticas da Nova República.







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