O estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos em um apartamento em Copacabana, Zona Sul do Rio, tem mobilizado diversos setores da sociedade. O caso ilustra um cenário preocupante, que vitimiza mulheres em todo o país, trazendo a necessidade por soluções em políticas públicas mais eficientes para minimizar o problema.
Dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública registraram 87.545 estupros em 2024. Foi o maior índice da série histórica, indicando uma média de uma mulher violentada a cada seis minutos.

Nesta semana, o caso foi discutido em sessões da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e na Câmara de Vereadores. As manifestações de repúdio causaram um fenômeno inédito até então, dando trégua à polarização política no país, unindo políticos de esquerda e direita. O debate motivou inclusive a formalização do pedido de criação da CPI do Feminicídio nesta terça-feira (3) na Alerj.
Os quatro suspeitos se apresentaram à Polícia Civil e foram presos. Nesta quinta-feira (5), o Ministério Público reviu decisão anterior com base em novas denúncias e pediu a internação de um adolescente, que também participou do crime.

Os detalhes do caso, que teve exame de corpo de delito confirmando sinais de violência narrados pela vítima, revelam suspeita de participação em outros crimes do tipo e um histórico violento dos envolvidos no estupro coletivo ocorrido em 31 de janeiro.
Especialistas ouvidos pela Agenda do Poder entendem que o caso é um reflexo de uma falha da sociedade, ineficiente na orientação desses jovens. Veja quais os erros apontados.
Sem ações, mesmo após sinais de alerta
A psiquiatra Daniela Ceron-Litvoc, que preside a Sociedade Brasileira de Psicopatologia Fenômeno-Estrutural (SBPFE), diz ver fragilidade na valorização do consentimento sexual, principalmente entre os jovens.
Em outras palavras, as mulheres não têm o domínio sobre interações sexuais, o que faz com que se tornem alvo de uma escalada de violência que pode levar ao estupro. Segundo ela, as pessoas na faixa etária dos suspeitos de estupro coletivo em Copacabana costumam ser mais suscetíveis à influência dos movimentos em grupos. Ainda assim, a especialista acredita que já havia sinais de alerta em relação aos abusadores, que não foram abordados corretamente.

“Não eram jovens que, do nada, cometeram uma situação grave. Eles já estiveram envolvidos em outros episódios, dando indícios de que algo precisaria ser feito. Será que a sociedade e as famílias estavam sendo eficientes para prevenir o que aconteceu?”.
Daniela Ceron-Litvoc, psiquiatra
A psiquiatra diz que o crime, cometido com organização e premeditação, reflete o comportamento desses jovens. “Havia a confiança da adolescente para atraí-la ao local onde o corpo dela foi usado como objeto para satisfação de desejo, sem que houvesse uma compreensão da relação envolvida”.
Ela cita, ainda, a dificuldade dessa geração em lidar com interações em ambientes virtuais. “Em meio a uma hiperexposição do corpo em relações de mídias sociais, os jovens parecem meio atrapalhados para entender quais são os limites reais”, diz.
Preparo para acolher e responsabilidade coletiva
O psicólogo comportamental Rafael Baptista de Melo destaca a importância de um planejamento estruturado capaz de oferecer todo o suporte à vítima, com acolhimento, escuta qualificada e apoio psicológico. “A sociedade precisa estar preparada para receber essas vítimas sem julgamento, para que ela não sofra outras violências”.

Ela cita, ainda, o que entende ser uma “responsabilidade coletiva”, que causa impactos na sociedade, como o aumento em casos de violência contra mulheres. “Precisamos nos questionar: ‘Qual a responsabilidade da sociedade na educação dos meninos?’. É chocante falar de um caso que envolve um ato de extrema violência, com premeditação e planejamento”, diz.
“Muitos meninos crescem em contextos em que são incentivados a provar a masculinidade e o poder. Isso cria ambientes onde comportamentos abusivos podem ser normalizados. E nos leva a pensar sobre o nosso papel enquanto formadores, com a responsabilidade de passar valores de ética e apoio emocional”.
Rafael Baptista de Melo, psicólogo comportamental
Rafael cita ainda o aumento de disseminação de ódio contra as mulheres nas redes sociais. “O que aconteceu é um sintoma, mas precisamos olhar para as causas”, diz.
Ele também faz um alerta sobre os sinais deixados pelos próprios abusadores, com histórico de agressões. “Intervenções poderiam ter sido feitas em caráter preventivo. A sociedade falhou por não ter ações e políticas públicas preventivas”.
Culpabilização da vítima, diz psiquiatra
Especializada em terapia comportamental na infância e adolescência, a psiquiatra Daniela de Oliveira Consentino faz críticas à reação das pessoas ao caso do estupro coletivo.
“Nós temos falhado como uma sociedade que ainda pensa na culpabilização da vítima de estupro. As pessoas se perguntam: ‘Por que ela foi no apartamento?’. Mas deveriam estar se questionando: ‘Por que esses jovens escolheram fazer isso?’.
Daniela Cosentino, psiquiatra
A psiquiatra diz ver o estupro coletivo em Copacabana como um caso de escalada de violência e de uma certa isenção de responsabilidade. “O estupro é uma forma de violência onde o agressor retira da vítima qualquer possibilidade de escolha, dominando, controlando e humilhando. Essa violência passa por uma escalada na dinâmica do estupro coletivo. Mas esse cenário também é propício para validá-la, já que estavam todos juntos e ninguém se responsabiliza”, argumenta.
Daniela acredita que o envolvimento anterior da vítima com um dos agressores favoreceu o ataque premeditado. “Ela foi atraída por uma pessoa da confiança dela, com quem tinha algum vínculo afetivo. Nesses casos, os sinais de alerta ficam reduzidos. Ela foi para o local do crime muito vulnerável diante da ameaça. Ter intimidade prévia não é consentimento. Isso precisa ficar claro para os jovens. E quem tem a obrigação de fazer esse papel somos nós, pais, educadores e sociedade”.
Tiburi propõe endurecimento em leis contra estupro e feminicíd io
A filósofa e escritora Marcia Tiburi alerta para o caso anterior de abuso cometido pelos mesmos autores, que só veio à tona após a repercussão negativa do estupro coletivo. “A outra vítima percebeu que tinha passado por esse tipo de violência. Mas há uma névoa sobre esses casos, porque a violência é tão naturalizada que nem as vítimas percebem”, diz.

“Esses abusadores não foram educados por suas famílias, escolas e contexto social, em um cenário que fez com que se tornassem estupradores. Mesmo sendo jovens, é estarrecedor, porque eles foram capazes de articular o crime em uma emboscada contra uma menina”.
Marcia Tiburi, filósofa e escritora
Marcia diz que esse tipo de violência é cultural, e reflete a cultura patriarcal. “O estupro, na nossa sociedade, serve como prova de masculinidade em um histórico de ódio contra as mulheres, que pode levar ao feminicídio. Existe uma espécie de socialização em que a masculinidade violenta é a regra”, analisa.
Ela cita os dados mais recentes do Mapa da Violência, que indica queda em índices de homicídio e assalto. “Todas as formas de violência diminuíram. Menos os ataques contra as mulheres, com mais estupros e mais feminicídios. Isso é reflexo de uma sociedade que vê a mulher com o dever de ser atenciosa, cuidadosa, delicada e amorosa. Já os homens são protetores, fortes e educados para a violência como prova de masculinidade”.
“Todas as mulheres têm uma sentença de morte ou de estupro sobre o corpo delas. Quem é mulher tem medo de andar sozinha, porque sabe que pode ser vítima de um ataque. Já os homens têm sido formados para o exercício de uma dominação que passa pela linguagem, pelos gestos e pela postura. Mas também é violência psicológica”.
Marcia Tiburi, filósofa e escritora
A filósofa diz ver uma necessidade de endurecimento de leis para criminalizar a misoginia, o estupro e o feminicídio como forma de proteger as mulheres da violência da sociedade. “Não podemos seguir na normalidade. É possível ter esperança no futuro. Mas, para isso, precisamos desenvolver uma educação com consciência de questões de gênero, de sexualidade e de ética. Tudo isso diz respeito a uma necessidade de refletir sobre o lugar do outro na sociedade”, conclui.


Deixe um comentário