Setor de combustíveis do Rio tem R$ 40 bilhões sob suspeita em 10 meses

Levantamento do GLOBO aponta que operações contra lavagem de dinheiro, sonegação e fraudes atingiram redes de postos ligadas a facções, milícias e agentes públicos

O setor de combustíveis do Rio de Janeiro se tornou um dos principais alvos de organizações criminosas, segundo investigações das polícias Civil e Federal e do Ministério Público. Levantamento do GLOBO mostra que, nos últimos dez meses, nove operações colocaram sob suspeita mais de R$ 40,09 bilhões em movimentações financeiras realizadas por redes de postos no estado.

As investigações apontam para a atuação de facções criminosas, milícias, integrantes do jogo do bicho e agentes públicos em esquemas que incluem lavagem de dinheiro, corrupção, sonegação fiscal e criação de empresas em nome de laranjas. Ao todo, as operações cumpriram 109 mandados de busca e apreensão e 25 de prisão.

A dimensão das irregularidades também aparece em dados da Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz). Segundo o órgão, 2.100 dos 2.205 postos de combustíveis do Rio apresentavam algum tipo de irregularidade. Entre os problemas identificados, 1.744 estabelecimentos não cumpriam exigências relacionadas ao registro obrigatório de movimentação de combustíveis e volume de vendas.

Crime organizado amplia atuação no setor

A circulação de grandes quantidades de dinheiro em espécie, o alto faturamento e a complexidade da cadeia de distribuição fazem dos combustíveis um segmento atrativo para organizações criminosas. A avaliação é de autoridades que acompanham as investigações sobre os esquemas.

O titular da Sefaz, Guilherme Mercês, afirmou que o setor movimenta um grande volume de recursos e tem uma das maiores cargas tributárias. Segundo ele, a ausência de informações sobre a entrada e a saída de combustíveis dificulta o rastreamento do dinheiro.

As fraudes investigadas incluem adulteração de bombas, venda de quantidade menor do que a registrada para o consumidor e comercialização de combustíveis adulterados. O delegado Renan Mello, da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro, destacou que a presença de dinheiro em espécie dificulta o trabalho de fiscalização.

Operações revelam bilhões em movimentações

Uma das principais ações citadas nas investigações é a Operação Carbono Oculto, que revelou a participação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em esquemas bilionários envolvendo importações fraudulentas e postos de combustíveis em diferentes estados. No Rio, investigações também identificaram a infiltração de grupos como o Comando Vermelho (CV) no setor.

Além da lavagem de dinheiro, quadrilhas passaram a atuar no roubo de cargas e na perfuração de oleodutos para desviar combustíveis e lubrificantes. A preocupação com o avanço das organizações criminosas levou o Ministério da Justiça e Segurança Pública a reunir órgãos estaduais para discutir estratégias conjuntas por meio do Escritório Nacional Antifacção (ENA).

Em uma das frentes mais recentes, a sexta fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, investigou uma organização suspeita de utilizar mais de 80 postos da Região Metropolitana, incluindo estabelecimentos em Niterói e São Gonçalo, para lavar dinheiro. Conforme relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o esquema teria movimentado R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.

Fiscalização aumenta nas divisas do Rio

A operação Unha e Carne também teve como alvo agentes públicos. Entre os investigados estiveram o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, e o delegado da Polícia Civil e ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Amim, que negaram envolvimento nas suspeitas.

Em maio, outra fase da operação levou à prisão do deputado estadual Thiago Rangel, acusado de utilizar uma rede de postos para lavar dinheiro supostamente proveniente de um esquema de direcionamento de licitações e contratos públicos na área da Educação. O parlamentar, que tem base eleitoral em Campos dos Goytacazes, é proprietário de ao menos 18 postos de combustíveis e GNV.

No combate à sonegação, a Sefaz reforçou a fiscalização nas barreiras das divisas do Rio com São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Caminhões que transportam combustíveis passaram a ser submetidos à inspeção presencial de auditores fiscais.

Segundo a secretaria, a medida resultou, em junho, em R$ 1,8 milhão em autos de infração, alta de 482% na comparação com o mesmo período de 2025. As ações de fiscalização também contribuíram para o aumento de 77% na arrecadação de ICMS do setor no segundo trimestre deste ano, que chegou a aproximadamente R$ 2,4 bilhões, contra R$ 1,3 bilhão registrado entre abril e junho de 2025.

Setor é considerado estratégico para organizações criminosas

Em reunião com órgãos públicos, o presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), Emerson Kapaz, afirmou que cerca de mil postos do Rio estão sob suspeita de envolvimento com organizações criminosas, número que representaria quase metade dos estabelecimentos registrados no estado.

Segundo Kapaz, o cenário mudou nos últimos anos. A sonegação fiscal, que antes era apontada como o principal problema, passou a dividir espaço com diferentes tipos de adulteração e fraudes operacionais. Para ele, o setor também atrai grupos criminosos pelo potencial de lucro e pela possibilidade de utilização das empresas para lavagem de dinheiro.

O levantamento do GLOBO mostra, assim, que a disputa pelo controle do mercado de combustíveis no Rio ultrapassa a questão tributária e envolve uma estrutura criminosa que pode alcançar postos, distribuição, transporte, agentes públicos e operações financeiras. As autoridades defendem o fortalecimento da fiscalização e o monitoramento das brechas utilizadas para movimentar recursos de origem suspeita.

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