O subtenente Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos, foi sepultado nesta segunda-feira (12), no cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Integrante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), ele morreu no domingo (11), durante uma ocorrência em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste da cidade. A principal hipótese investigada é a de que policiais do 18º BPM tenham confundido uma abordagem realizada pela tropa de elite com uma ação criminosa e disparado contra os colegas.
Durante a despedida, a ex-mulher do subtenente, Aline Viana, recordou uma frase que ele costumava dizer sobre a profissão.
— Ele dizia: “Se um dia eu morrer, eu quero estar fardado” — contou.
A cerimônia reuniu familiares, amigos e integrantes do Bope. Um helicóptero da unidade sobrevoou o cemitério e lançou rosas brancas e vermelhas. Policiais também formaram um corredor para a passagem do caixão. O comandante do batalhão afirmou que Gláucio sacrificou a própria vida pelos colegas.
Família cobra explicações sobre suspeita de fogo amigo
A morte do subtenente deixou a família diante de uma segunda perda envolvendo integrantes do Bope em menos de um ano. Em 28 de outubro de 2025, Heber Carvalho Fonseca, irmão de Gláucio e também policial da unidade, morreu durante a megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão.
Além do luto, os familiares cobram esclarecimentos sobre as circunstâncias do tiroteio em Jacarepaguá. Aline questiona se houve comunicação prévia sobre a presença dos agentes do Bope na região e se a informação chegou às equipes do 18º BPM.
Segundo ela, inicialmente a família recebeu a informação de que não teria havido comunicação entre as equipes. Depois, porém, soube que um aviso teria sido feito.
— Primeiramente, a gente quer entender exatamente o que aconteceu. De primeira mão, foi falado para nós que não houve uma comunicação, e nós já sabemos que foi feita, sim, uma comunicação. Então, a partir de agora, a gente quer entender: quem foi comunicado? Essa pessoa passou a comunicação para todo o batalhão? Se sabiam que estavam naquela área, por que aconteceu isso tudo? — questionou.
Ex-mulher questiona identificação dos policiais
Aline também quer saber se os policiais envolvidos no confronto perceberam que estavam diante de integrantes de outra unidade da Polícia Militar e em quais circunstâncias os disparos foram efetuados.
— Será que ninguém viu uma farda diferenciada ou não chegou mais próximo a ponto de saber o que era, já que não estava havendo troca de tiro? — perguntou.
A hipótese de fogo amigo é investigada pela Polícia Militar. As circunstâncias da ocorrência também são apuradas pela Corregedoria Interna da corporação e pela Delegacia de Homicídios da Capital, da Polícia Civil.
Última mensagem enviada antes da morte ficou sem resposta
Mesmo após o divórcio, Aline e Gláucio mantinham contato frequente. De acordo com ela, os dois conversavam antes e depois das operações policiais. Na semana em que morreu, o subtenente contou que participaria de uma missão, mas não revelou detalhes.
Os dois combinaram de conversar no dia seguinte, como faziam habitualmente. Na manhã de domingo, às 7h, Aline enviou uma mensagem perguntando como ele estava e como havia sido a operação. Não houve resposta.
— Ele falou que haveria uma operação, mas que não poderia falar muita coisa. Disse que, no dia seguinte, como todas as outras vezes, a gente se falaria. Tanto que, às 7h da manhã, eu mandei mensagem para ele: “Gláucio, como você está? E aí, como foi?”. E eu já não obtive mais resposta nenhuma — relatou.
Aline descreveu o ex-marido como um policial dedicado à profissão e que considerava o Bope parte de sua identidade. Ele estava prestes a completar 26 anos de serviço na Polícia Militar, em dezembro, e havia passado a maior parte da carreira na tropa de elite.
— O Gláucio era um apaixonado pelo trabalho dele. Ele falava que aquilo ali fazia parte dele. Não é que ele fazia parte do Bope, o Bope fazia parte dele. Ele fazia questão de dizer: “Eu sou caveira. Aquilo ali é a minha família” — afirmou.
Dois irmãos do Bope morreram em menos de um ano
A morte de Gláucio ocorreu às vésperas do primeiro aniversário da morte de Heber, um dos policiais mortos na megaoperação de 28 de outubro de 2025, nos complexos da Penha e do Alemão.
Segundo Aline, Heber tinha o irmão mais velho como referência e decidiu seguir seus passos na tropa de elite. A relação entre os dois fazia com que Gláucio se sentisse responsável pelo irmão mais novo.
— O Heber tinha o Gláucio como referência. Muita gente, mas o Heber tinha o Gláucio como referência. Ele entrou no batalhão por causa do Gláucio. Então, o Gláucio tinha uma responsabilidade enorme sobre ele — contou.
Aline lembrou que Gláucio não estava no batalhão quando Heber morreu e que a operação de domingo marcaria seu retorno à unidade. Agora, a família enfrenta a segunda perda em menos de um ano.
— Foi muito doloroso e ainda é. A gente vai se arrastando durante esse período, mas entende que aquilo ali era o amor da vida dele. E isso nos conforta — afirmou.
Como ocorreu o tiroteio que matou o subtenente
Gláucio morreu na manhã de domingo, durante uma ocorrência na Rua Guilherme Moreira, na Freguesia, em Jacarepaguá. Segundo a Secretaria de Estado de Polícia Militar, agentes do Bope abordavam um veículo quando policiais do 18º BPM, responsável pelo policiamento da região, chegaram ao local.
A principal hipótese é que, devido à baixa luminosidade, os policiais do batalhão de área tenham confundido a abordagem com uma ação criminosa e disparado contra os integrantes da tropa de elite.
Seis policiais militares foram baleados: cinco do Bope e um do 18º BPM. Gláucio foi levado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, mas chegou morto à unidade. Os outros cinco agentes foram socorridos. Parte deles passou por cirurgia, enquanto outros recebeu alta após avaliação médica.
As circunstâncias do confronto são investigadas pela Corregedoria Interna da Polícia Militar, por meio da 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (2ª DPJM), e pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), da Polícia Civil. As imagens das câmeras dos uniformes foram requisitadas para a investigação.
A tenente-coronel Cláudia Moraes, porta-voz oficial da Polícia Militar, informou que não falaria com a imprensa durante a cerimônia de sepultamento.







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