Entidades representativas da indústria e do comércio do Rio de Janeiro se posicionaram contra a flexibilização das regras de operação do Aeroporto Santos Dumont. Para a Firjan e a Fecomércio-RJ, a ampliação do teto de passageiros pode provocar um desequilíbrio no sistema aeroportuário do estado, com impactos negativos para a economia local e para o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão.
Hoje, o aeroporto opera com limite anual de 6,5 milhões de passageiros, definido a partir de estudos técnicos conduzidos pelo governo federal.
Para a Fecomércio-RJ, o Santos Dumont e o Galeão funcionam de forma integrada, com papéis complementares no sistema aeroportuário fluminense. O engenheiro e consultor da entidade, Delmo Pinho, afirmou ao g1 que qualquer alteração nessa lógica pode comprometer o desempenho do aeroporto internacional.
“Estamos penalizando o Galeão”
“O Santos Dumont e o Galeão operam em completa simbiose, eles operam numa racionalização de operação. Quando sobra para um lado, falta para o outro, e é isso que vai acontecer [em caso de flexibilização]. Nós estamos penalizando o melhor aeroporto do Brasil, que é o Galeão, que tem as maiores pistas, a maior capacidade de transporte, que tem apresentado resultado extraordinariamente bom”, declarou.
Segundo Pinho, a preocupação vai além da operação aeroportuária e alcança setores estratégicos da economia do estado. “O turismo vai ser prejudicado, os serviços vão ser prejudicados, o comércio do Rio de Janeiro vai ser prejudicado, isso não é nada bom”, disse. Em nota oficial, a Fecomércio-RJ defendeu a manutenção do limite atual de passageiros no Santos Dumont e classificou qualquer mudança como inoportuna e contrária ao interesse público.
Galeão vem ampliando sua malha área
Enquanto isso, o Galeão vem ampliando gradualmente sua malha aérea desde 2023, dentro de um projeto de reorganização do sistema aeroportuário do Rio. Apenas nos dois primeiros meses deste ano, o terminal internacional recebeu cerca de 473 mil visitantes estrangeiros, reforçando sua recuperação e seu papel estratégico para o turismo e o comércio exterior.
A Firjan também se manifestou contrária à flexibilização. Para o gerente de Infraestruturas da entidade, Isaque Ouverney, os dados econômicos recentes indicam que a atual divisão de funções entre os dois aeroportos tem sido positiva para o estado. “Na medida que o estado, como um todo, conseguiu aumentar o volume de passageiros domésticos acima da média nacional, o volume de passageiros internacionais também acima da média, assim como o volume de cargas, essa melhor coordenação tem se mostrado, segundo os dados, positiva para a economia do Rio de Janeiro”, afirmou.
Poder Público tem que preservar vocações, diz especialista
Ouverney ressaltou que cabe ao poder público preservar as vocações específicas de cada terminal. Segundo ele, o Santos Dumont tem papel estratégico como aeroporto de conexões domésticas, enquanto o Galeão deve se consolidar como principal hub internacional do Rio, com foco tanto no transporte de passageiros quanto, sobretudo, de cargas.
O debate também envolve interesses de mercado e das companhias aéreas. Para Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes, é natural que o tema volte à pauta diante das demandas das empresas, mas qualquer decisão precisa respeitar a lógica de coordenação do sistema aeroportuário.
“Existe a lei de mercado. Existem demandas identificadas pelas companhias aéreas. A lei de criação da Anac garante liberdade tarifária e de mercado, permitindo que as empresas escolham rotas e frequências. Pode estar havendo alguma identificação de que isso precisa ser reativado no Santos Dumont, sem prejudicar o Aeroporto do Galeão”, avaliou.
A discussão ocorre em meio a declarações do Ministério de Portos e Aeroportos sobre possíveis ajustes nas regras do Santos Dumont. Para Firjan e Fecomércio, no entanto, qualquer mudança deve ser feita com cautela e baseada em critérios técnicos, para evitar retrocessos na reorganização do sistema aeroportuário do Rio de Janeiro.






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