O Japão fez história nesta terça-feira (21) ao eleger pela primeira vez uma mulher para o cargo de primeira-ministra. Sanae Takaichi, de 64 anos, foi escolhida pelo parlamento japonês para liderar o país após ser confirmada como chefe do Partido Liberal Democrata (PLD) no início de outubro. A informação foi divulgada pela agência Associated Press (AP).
Ex-ministra dos Assuntos Internos e da Segurança Econômica, Takaichi sucede Shigeru Ishiba, que renunciou ao cargo após duas derrotas eleitorais consecutivas que abalaram o PLD. Sua posse marca um momento histórico, mas também representa um desafio político de grandes proporções.
Desafios econômicos e pressão popular
Takaichi assume o comando da terceira maior economia da Ásia em meio a forte pressão para conter a inflação e recuperar a confiança da população. Segundo a AP, ela deve apresentar até o fim de dezembro um pacote de estímulos econômicos robusto, com foco em subsídios e investimentos públicos, a fim de reverter a estagnação e o descontentamento popular.
A nova primeira-ministra defende uma política fiscal expansionista, priorizando o aumento dos gastos governamentais para impulsionar o crescimento e enfrentar os efeitos da desvalorização do iene. Economistas avaliam, porém, que o desafio será equilibrar o estímulo com a sustentabilidade da dívida pública, que já ultrapassa 260% do PIB japonês.
Apoio interno e composição do gabinete
De acordo com a Associated Press, Takaichi deve anunciar nos próximos dias um gabinete composto por aliados do veterano Taro Aso, uma das figuras mais influentes do PLD e seu principal articulador político. Também devem ser incluídos nomes que a apoiaram na eleição interna, numa tentativa de garantir estabilidade ao governo e reduzir tensões dentro da legenda.
Mesmo com a vitória, Takaichi enfrenta um partido fragmentado e com popularidade em queda. As derrotas regionais que derrubaram Ishiba revelaram um eleitorado cansado da hegemonia do PLD, que governa o Japão quase ininterruptamente desde 1955.
Posições conservadoras e ausência de pauta de gênero
Embora sua eleição represente um marco histórico para as mulheres japonesas, Takaichi não demonstra intenção de adotar políticas voltadas à igualdade de gênero ou diversidade. Conhecida por suas posições ultraconservadoras, ela se opõe a mudanças no modelo tradicional da família japonesa e defende a sucessão imperial exclusivamente masculina.
A nova líder também rejeita o casamento entre pessoas do mesmo sexo e é contrária à proposta que permitiria a casais manter sobrenomes diferentes após o matrimônio — medidas que, segundo ela, “ameaçam a coesão social e os valores nacionais”.
Legado de Shinzo Abe e continuidade política
Discípula política do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, assassinado em 2022, Takaichi é vista como herdeira ideológica de seu mentor. Assim como Abe, ela defende o fortalecimento militar do Japão e a revisão da constituição pacifista imposta após a Segunda Guerra Mundial, além de uma postura mais assertiva diante da China e da Coreia do Norte.
Ainda assim, analistas apontam que sua margem de manobra será limitada. Com uma base de apoio instável e pressões crescentes por resultados econômicos imediatos, Takaichi precisará equilibrar pragmatismo e fidelidade ideológica para consolidar sua liderança e evitar o mesmo destino de seus antecessores.






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