Desde a última sexta-feira, uma rede silenciosa de solidariedade e coragem se formou nas encostas do Monte Rinjani, na Indonésia, com o objetivo de encontrar e resgatar a brasileira Juliana Marins, de 26 anos. A jovem, que fazia mochilão pela Ásia, caiu em um penhasco de aproximadamente 500 metros de profundidade enquanto percorria a trilha rumo ao cume do vulcão. Entre os diversos voluntários que se mobilizaram, um nome emergiu como símbolo do esforço coletivo: Agam Rinjani.
Nascido em Makassar, Agam é um experiente alpinista e guia turístico, com mais de 400 mil seguidores nas redes sociais. Sem vínculo com instituições oficiais, ele foi um dos primeiros a organizar e liderar um grupo de socorro, munido apenas de sua experiência, lanterna no capacete e espírito de missão. Desde então, sua atuação se tornou referência e inspiração.
“Sabíamos que o risco era real. Podíamos morrer ali”, relatou Agam, em entrevista ao jornal O Globo, nesta quarta-feira. Com ajuda de uma tradutora, ele compartilhou detalhes do resgate, revelando que passou a noite segurando Juliana à beira do precipício para evitar que ela escorregasse mais 300 metros. “Gostaria de ter feito mais. Peço desculpas, mas fiz o que pude”, desabafou.
Apesar do frio intenso, da chuva constante e de ter machucado a perna durante a escalada, Agam não recuou. Ao lado de outros voluntários, formou uma corrente humana presa por cordas e ancoragens para tentar acessar a vítima. Durante a madrugada, conseguiram se alimentar apenas por volta da 1h, no horário local. Mesmo diante da adversidade, ele não perdeu o bom humor: “Pelo menos 300 mil pessoas estão me mandando mensagem”, brincou.
Imagens divulgadas nas redes sociais mostram Agam fumando enquanto sobe o monte — o que gerou críticas equivocadas por parte de internautas que o confundiram com um bombeiro. Mas logo a verdade veio à tona: ele estava ali por conta própria, arriscando a própria vida em nome de outro ser humano. “Eles são voluntários, não recebem nada por isso. Tenham respeito e gratidão”, defendeu uma usuária no Instagram.
Além de alpinista, Agam é produtor de café e defensor da sustentabilidade. Em suas postagens, frequentemente orienta seguidores a preservar o meio ambiente e evitar o descarte de lixo nas trilhas. Em uma de suas mensagens recentes, escreveu: “Começamos pelas pequenas coisas. Para os fumantes: guardem os restos até encontrar o local certo para descartar.”
O resgate contou ainda com o apoio da Unit SAR Lombok Timur, equipe regional de busca e salvamento, e de outros voluntários como Dwi Januanto Nugroho, Syamsul Padhli Otonk, Furqan Renggoo e Surya Sangar Rinjani. Com equipamentos como o Larkin Rescue Frame, comum em operações de salvamento em altura, o grupo atuou durante cinco dias enfrentando neblina, pedras soltas e trilhas escorregadias.
Juliana, natural de Niterói (RJ), foi localizada na região conhecida como Cemara Nunggal, entre 2.600 e 3.000 metros de altitude. Segundo o chefe da Basarnas, Marechal do Ar Muhammad Syafi’i, o corpo da brasileira foi içado manualmente com cordas, após o mau tempo impedir o uso de helicópteros. “A distância entre o ponto de ancoragem e a vítima era de cerca de 600 metros. O processo foi demorado e delicado”, explicou o oficial em entrevista à TV indonésia.
A mobilização de Agam e dos demais voluntários foi amplamente reconhecida por brasileiros nas redes sociais. Para muitos, ele virou “anjo” e herói improvável. Em uma homenagem emocionante, o guia Dwi Nugroho publicou a canção “Aku dan Rinjani”, dedicada à família de Juliana. “Essa história despertou mensagens poderosas de humanidade: coragem, cuidado e união”, afirmou.
O corpo de Juliana Marins foi encaminhado ao Hospital da Polícia na Indonésia e deve ser repatriado em breve. Seu trágico fim expôs não apenas os perigos das trilhas do Monte Rinjani, mas também a força de um esforço humano espontâneo que ultrapassou fronteiras — e que teve, como símbolo, o carismático montanhista com um cigarro na mão e o coração voltado para o próximo.





