Uma nova rodada de negociações de paz entre delegações da Rússia e da Ucrânia, mediada pelos Estados Unidos, teve início nesta quinta-feira (5), reacendendo expectativas de avanço diplomático após semanas de conversas sem resultados concretos. Autoridades envolvidas no diálogo indicaram que houve algum progresso pelo fim da guerra, ainda que o cenário permaneça marcado por profundas divergências e pela continuidade dos combates.
O ministro russo Kirill Dmitriev afirmou que houve avanço no entendimento entre as partes. Do lado ucraniano, o principal negociador, Rustem Umerov, detalhou o formato das discussões em curso. “Estamos trabalhando nos mesmos formatos de ontem: consultas trilaterais, trabalho em grupo e maior sincronização de posições”, disse.
Esta etapa marca a segunda fase formal das negociações, iniciadas em janeiro, e ocorre em meio a uma pressão crescente do governo dos Estados Unidos para que Kiev aceite um acordo que leve à interrupção do conflito, que se aproxima de quatro anos de duração.
Pressão externa e cenário interno
A Ucrânia chega à mesa de negociações enfrentando um contexto particularmente difícil. Além da pressão diplomática de Washington, o país lida com uma campanha intensa de ataques aéreos russos que comprometeu severamente seu sistema de energia durante um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos.
Apesar do esforço internacional para viabilizar um cessar-fogo, as operações militares continuam a afetar a população civil, ampliando o custo humanitário do conflito e tornando o ambiente político ainda mais sensível para o governo ucraniano.
Rodadas anteriores sem consenso
Na semana passada, enviados de Moscou, Kiev e Washington se reuniram em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, em uma tentativa de destravar o diálogo. O encontro terminou sem avanços concretos, mas sinalizou a disposição das partes em manter o canal aberto.
Após a reunião, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky comentou o posicionamento de seu país. “Acabamos de receber um relatório da nossa equipe de negociação. A Ucrânia está pronta para negociações substantivas e estamos interessados em um resultado que nos aproxime de um fim real e digno da guerra”, disse Zelensky em publicação no X.
No último sábado (31), Kirill Dmitriev declarou ter participado de uma “reunião construtiva com a delegação de pacificação dos EUA” na Flórida, reforçando o papel central do governodos EUA na mediação. A iniciativa é encabeçada pela administração do presidente Donald Trump.
Divergências sobre território e alianças
Apesar de concordarem, em princípio, com os apelos de Washington por um compromisso, Rússia e Ucrânia mantêm posições opostas sobre os termos centrais de um eventual acordo. A principal divergência envolve a permanência ou retirada das forças russas das áreas ocupadas, especialmente a região industrial do leste da Ucrânia, conhecida como Donbas.
Além do Donbas, o Kremlin exige a concessão do território de Donetsk que ainda está sob controle ucraniano, o reconhecimento internacional das áreas ocupadas e a rejeição definitiva da adesão da Ucrânia à Otan.
Em contraste, líderes da União Europeia e da Ucrânia passaram a discutir, em outubro do ano passado, um plano de paz com 12 pontos que admite apenas a concessão de territórios já ocupados pelas forças russas, buscando preservar áreas ainda sob controle de Kiev.
Ataques em meio às negociações
Enquanto as delegações voltavam a se reunir, a Rússia lançou um ataque de grandes proporções contra a Ucrânia na última terça-feira (3), segundo o ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andrii Sybiha. De acordo com o governo, cerca de 450 drones e 70 mísseis foram utilizados na ofensiva.
“Nem os esforços diplomáticos previstos em Abu Dhabi esta semana, nem as promessas aos Estados Unidos impediram [a Rússia] de continuar a aterrorizar pessoas comuns no inverno mais rigoroso”, escreveu Sybiha no X.
O prefeito de Kiev informou que 1.170 prédios residenciais da capital ficaram sem aquecimento após os ataques, agravando a situação da população em meio às baixas temperaturas.
Zelensky também criticou a estratégia russa, afirmando que Moscou estaria priorizando ações militares em detrimento da diplomacia. “Aproveitar os dias mais frios do inverno para aterrorizar as pessoas é mais importante para a Rússia do que recorrer à diplomacia”, escreveu o presidente, acrescentando que as forças russas atacaram com “mais de 70 mísseis no total, além de 450 drones de ataque”.
A ofensiva ocorreu às vésperas da nova rodada de negociação, reforçando o clima de desconfiança entre as partes.
O pano de fundo das propostas
O plano elaborado por europeus e ucranianos no ano passado, segundo noticiou a Bloomberg, reúne 12 pontos que incluem a interrupção dos combates na linha de frente atual, a criação de um Conselho de Paz supervisionado por Trump, a devolução de crianças ucranianas sequestradas e a troca de prisioneiros.
O texto também prevê garantias de segurança à Ucrânia, uma rápida adesão à União Europeia e recursos financeiros para a reconstrução do país. Em contrapartida, as sanções contra a Rússia seriam retiradas de forma gradual, com a possibilidade de retomada caso Moscou voltasse a atacar. Bens russos atualmente congelados também seriam devolvidos.
Já o Kremlin apresentou suas próprias condições, que incluem o controle total do Donbas, a concessão do território de Donetsk ainda sob domínio ucraniano, o reconhecimento internacional das áreas ocupadas como russas, a redução do Exército ucraniano a um patamar considerado inoperante e a rejeição definitiva da adesão à Otan.
Donald Trump tem pressionado líderes europeus pelo encerramento da guerra, mesmo que isso envolva concessões territoriais à Rússia. Embora o presidente dos EUA já tenha afirmado que pode haver “boas notícias” nas negociações, até o momento nenhuma de suas propostas conseguiu superar o impasse entre Moscou e Kiev.






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