EUA, Ucrânia e Rússia fazem primeira reunião trilateral para debater fim da guerra

Primeira reunião conjunta desde o início do conflito discute Donbas e ocorre em meio a pressão diplomática de Trump

Estados Unidos, Ucrânia e Rússia iniciaram nesta sexta-feira (23) a primeira reunião trilateral para negociar o fim da guerra na Ucrânia, conflito que se aproxima de completar quatro anos. A cúpula ocorre em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e está prevista para se estender até sábado.

É a primeira vez, desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022, que representantes dos três países se sentam à mesma mesa com o objetivo formal de discutir um acordo de paz. Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, os Estados Unidos passaram a se posicionar como o único ator internacional capaz de mediar diretamente uma saída negociada para o conflito.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou nesta sexta-feira que o controle territorial da região de Donbas, no leste do país, está no centro das discussões.

“O Donbas é uma questão central. Ele será discutido no formato que as três partes considerarem adequado em Abu Dhabi, hoje e amanhã”, disse Zelensky em coletiva de imprensa on-line.

Donbas como ponto de tensão

Antes do início da reunião, a Rússia voltou a endurecer o discurso sobre a região. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que qualquer acordo para o fim da guerra exige a retirada das forças ucranianas de Donbas, condição considerada essencial para que o presidente russo, Vladimir Putin, aceite encerrar o conflito.

“É bem conhecido que a posição da Rússia é que a Ucrânia e as Forças Armadas ucranianas devem deixar Donbas. Esta é uma condição muito importante”, afirmou Peskov.

O porta-voz também mencionou uma suposta “fórmula Anchorage” como caminho para uma solução pacífica, em referência indireta ao encontro entre Trump e Putin realizado no Alasca, em agosto, sinalizando uma mensagem cifrada aos Estados Unidos.

Para Kiev, no entanto, a exigência russa é inaceitável. O governo ucraniano afirma que não aceitará ceder territórios que ainda estejam sob seu controle, o que mantém o impasse como o principal obstáculo às negociações.

Formato da cúpula e delegações

Até a última atualização desta reportagem, não haviam sido divulgados todos os detalhes sobre o formato das negociações em Abu Dhabi. Sabe-se apenas que, neste primeiro momento, os líderes máximos dos três países não participam diretamente das reuniões.

A delegação russa será chefiada pelo almirante Igor Kostyukov. Os nomes dos chefes das delegações estadunidense e ucraniana não foram oficialmente confirmados.

Na quinta-feira, Zelensky afirmou que os documentos para encerrar a guerra estão “quase prontos”, após avanços obtidos em conversas diretas com Trump sobre garantias de segurança a serem oferecidas pelos Estados Unidos em um eventual cenário de pós-guerra.

O presidente ucraniano declarou ainda que “os russos devem estar preparados para chegar a compromissos”. Moscou, por sua vez, tem sinalizado disposição para encerrar o conflito apenas sob condições consideradas favoráveis aos seus interesses estratégicos.

Documentos quase prontos

Em publicação na rede social X, Zelensky afirmou que ele e Trump concluíram as negociações sobre as garantias de segurança que os Estados Unidos se comprometeriam a oferecer à Ucrânia após o fim da guerra. O entendimento teria sido alcançado durante um encontro entre os dois às margens do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

Segundo o governo dos EUA, a reunião durou cerca de uma hora e foi considerada “muito boa”. Entre os temas discutidos estiveram o fornecimento de sistemas de defesa aérea à Ucrânia e o andamento das negociações de paz.

Com os avanços registrados na quinta-feira, Zelensky disse que os documentos necessários para finalizar a guerra estão praticamente concluídos.

Na mesma ocasião, o presidente ucraniano adotou um tom crítico em relação aos aliados europeus, alinhando-se ao discurso de Trump sobre a postura do continente diante do conflito.

“A Europa continua sendo um caleidoscópio fragmentado de pequenas e médias potências. O problema é a mentalidade. Só ações criam uma ordem real. A Europa pode e deve ser uma ordem global e precisa da independência da Ucrânia para amanhã poder se defender”, afirmou.

Zelensky também acusou a Rússia de tentar “congelar os ucranianos até a morte”, em referência aos ataques recorrentes contra a infraestrutura energética do país.

Articulações paralelas em Moscou

Enquanto as negociações avançavam em Abu Dhabi, o enviado especial de Trump para a guerra da Ucrânia, Steve Witkoff, reuniu-se com Vladimir Putin em Moscou, em um encontro realizado na noite de quinta-feira.

Segundo Witkoff, as conversas tiveram como objetivo destravar pontos ainda pendentes do acordo. O enviado afirmou que “falta apenas uma questão entre Ucrânia e Rússia” para que o entendimento seja alcançado, sem detalhar qual seria o impasse restante.

Trump também sugeriu, nesta quinta-feira, que as negociações podem estar próximas de um desfecho, embora já tenha feito declarações semelhantes em ocasiões anteriores.

“Terminamos com oito guerras, e acredito que o fim de outra esteja vindo muito em breve”, disse o presidente dos EUA.

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